18 de junho de 2011

As lições de Assis Brasil: o lugar da sensibilidade na educação

O Salão do Livro do Piauí - SALIPI já se foi, mas vejo-me na obrigação de tratar ainda desse evento. Afinal, devemos a ele a possibilidade de, ao acordar numa dessas ensolaradas e radiantes manhãs que Teresina nos oferece regularmente, ir ao encontro de um escritor e ouvi-lo falar durante quase duas horas. Fiz isso no último dia dez de junho. Em meio a tantos compromissos e obrigações que o trabalho nos impõe, cheguei ao belo salão do Clube dos Diários por volta das oito horas da manhã. Queria conhecer pessoalmente Assis Brasil, escritor piauiense que recentemente entrou na minha vida ao tornar-se objeto de estudo dos meus alunos. Sim, devo isso a eles.

Afinal, desde que ingressei no quadro docente da Universidade Federal do Piauí, há dois anos, dois alunos vieram buscar a minha orientação para os seus trabalhos de pesquisa. Ao tomarem conhecimento das minhas aventuras no campo das relações entre História e Literatura, especialmente da minha longa trajetória de estudos sobre a obra do escritor carioca Lima Barreto (1881-1922), talvez esses alunos tenham se interessado em desenvolver suas pesquisas sobre duas das mais conhecidas obras de Assis Brasil.

Beira-rio beira vida tem servido de eixo para uma pesquisa sobre a cidade de Parnaíba de meados do século XX. Da mesma forma que me guiei pelo olhar que Lima Barreto construiu sobre o Rio de Janeiro a partir da periferia, dos subúrbios e de sua gente pobre e discriminada, Josenias Silva – mestrando do Programa de Pós-Graduação em História do Brasil da UFPI - busca compreender aquela cidade litorânea do Piauí, iluminado pela perspectiva crítica e ao mesmo tempo generosa de Assis Brasil em relação aos “excluídos” que ali viviam. Segundo esse historiador e mestrando, “Beira rio beira vida expõe a quem queira ver as vísceras de uma sociedade opressiva, que num processo sistemático de exploração reproduz-se mediante a violência e a dominação”. Assim, creio que em breve teremos uma bela dissertação sendo defendida e, quiçá, um novo livro na praça.

Mais recentemente, uma aluna da graduação decidiu tomar como objeto de pesquisa e reflexão de sua monografia de conclusão de curso o igualmente belíssimo Os que bebem como os cães, do mesmo autor. Não conhecia o livro até dezembro do ano passado. Instigado pelo pedido de orientação, comecei a lê-lo às vésperas do último natal e só o larguei depois de concluir a leitura, feita quase de uma só vez.

Há poucos dias, novamente vi graduandos de História que integram um programa de iniciação à docência (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – PIBID/UFPI) transformando esse mesmo romance no tema central de uma de suas atividades desenvolvidas na U.E. Profª Lourdes Rebelo. Naquela ocasião, tivemos uma tarde agradável de conversas, leituras e debates com adolescentes que cursam o ensino médio naquela escola e pudemos abordar aspectos importantes da Ditadura Militar iniciada no Brasil em 1964. Jeremias, o professor que é o protagonista de Os que bebem como os cães, motivou calorosa discussão sobre os tenebrosos porões da repressão empreendida pelos militares naquele período.

E foi movido por essas vivências dos últimos tempos que tive a honra e o prazer ir ao encontro de Assis Brasil na manhã daquela sexta-feira. O escritor, que atualmente está com 79 anos, mostrou enorme vigor e disposição para conversar e contar sobre sua história de vida ao público ali presente. Dentre os diversos episódios que descreveu – e que podem ser conhecidos através da leitura do livro Memória e Aprendizado, publicado pela EDUFPI no corrente ano e contendo uma entrevista concedida pelo romancista a Francigelda Ribeiro –, destaco aqui alguns deles.

Quando vivia no Rio de Janeiro, por volta da década de 1960, foi convidado a militar no Partido Comunista. Contudo, recusou o convite alegando que não era político, mas sim um escritor. E antes que se veja nessa atitude qualquer sombra de alienação, o autor explicou que preferia lutar contra as desigualdades sociais de nosso país através da literatura, fazendo da arte o seu engajamento. Afinal, arrematou, os políticos não mudam o mundo, a arte sim tem esse poder. E aproveitou o ensejo para renovar os votos no sentido de que ensinemos mais aos nossos alunos sobre arte, literatura, poesia, teatro, cinema... E num instante me veio à lembrança aquela tarde recente que tivemos numa escola pública teresinense.

Falando em política, Assis Brasil não desperdiçou a oportunidade de criticar o modo inusitado como nós transitamos da ditadura para a democracia a partir de 1979. Observando o que se passa atualmente na vizinha Argentina, onde os generais e torturadores de ontem estão sendo hoje processados e presos pelos crimes cometidos durante a vigência do regime autoritário por lá, classificou de vergonhosa a anistia no Brasil, absolvendo os torturadores dos inúmeros Jeremias que tivemos.

Por fim, o escritor teceu sólida crítica à supremacia da razão sobre a sensibilidade na educação. Nesse sentido, argumentou que um dos piores frutos da razão é a tecnologia. E do alto de sua sabedoria de vida, mas com a humildade e singeleza de quem se põe a trocar dois dedos de prosa com seus leitores, vaticinou: “a tecnologia um dia vai pifar!” E para fundamentar seu argumento, evidenciou os sinais evidentes de debilidade das tecnologias, sinais que nos saltam aos olhos em nosso cotidiano. Quantas vezes você foi ao banco e o “sistema” estava fora do ar? Quantas vezes você tentou usar o telefone celular e não conseguiu se comunicar, sendo atendido por uma gravação? Ou então, quantas vezes fomos interrompidos pelo toque do celular? Aliás, isso aconteceu com o próprio Assis Brasil durante sua fala no SALIPI. Ao desligar subitamente o aparelho, ele não deixou por menos: “tá vendo, é a tecnologia, não deixa ninguém em paz”. Por isso, lembrou que para nos comunicarmos precisamos de sensibilidade (não da razão) e de conversa. Conversa olho no olho, como se faz no SALIPI.

Assis Brasil acredita num inevitável colapso da tecnologia. Se esse colapso virá, não sabemos. Mas com certeza precisamos ressaltar o lugar da sensibilidade e das artes na educação. E a obra desse escritor deve ter um lugar especial nas nossas salas de aula, monografias, dissertações e pesquisas.

Denílson Botelho
Publicado no jornal O Dia (Teresina), em 18.06.2011, sábado (Coluna Fórum, publicada no Caderno Em Dia, pág. 2)

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