13 de maio de 2011

Entre a memória e o esquecimento: lá se vão 130 anos

O 13 de maio desse 2011 sugere uma boa reflexão sobre até onde vai a nossa obsessão pelas efemérides. Recentemente, as celebrações em torno dos 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Brasil ensejaram seminários, congressos, debates e publicações bem sucedidas do ponto de vista comercial. Afinal, o senso comum diz que recordar é viver. Mas a memória social não se constitui apenas de lembranças, mas também de esquecimentos. E certas datas sugerem a possibilidade de lidarmos com esses esquecimentos, avaliando até que ponto são providenciais ou não.

Para além de uma sexta-feira treze, que os supersticiosos consideram dia de azar, o que evoca o 13 de maio? Talvez a promulgação da Lei Áurea seja o primeiro fato que nos venha à lembrança, embora se discuta sobre a pertinência de comemorar ou não esse episódio, tendo em vista que a liberdade não foi uma concessão da decadente monarquia, mas sim o resultado de uma conquista dos negros escravizados e sua luta secular. Nesse sentido, o 13 de maio de 1888 sugere muito mais um motivo de vergonha para todos nós, que fomos o último país da América a abolir a escravidão.

Contudo, nesse 13 de maio deveríamos lembrar também dos 130 anos do nascimento de um escritor brasileiro cuja obra ainda soa extremamente atual. Trata-se de um negro carioca, suburbano e tido como louco – sem jamais ter sido louco - que escreveu romances, contos, crônicas e artigos reunidos e publicados pela primeira vez em 1956, num total de 17 volumes, pela Editora Brasiliense, naquela época sob o comando do velho editor e historiador marxista Caio Prado Júnior. Infelizmente essa coleção jamais foi reeditada integralmente.

Lima Barreto nasceu naquele longínquo 1881 e na sua curta existência de 41 anos sequer conseguiu entrar para a Academia Brasileira de Letras, ainda que tenha tentado fazê-lo. Alcoólatra num tempo em que a polícia carioca recolhia os pobres, bêbados e mendigos às delegacias ou aos hospícios, o autor cumpriu trajetória de vida bastante produtiva no mundo das letras, ainda que se ressentisse do reconhecimento que não veio – pelo menos em vida.

Ninguém avaliou melhor do que Francisco de Assis Barbosa, biógrafo insuperável de Lima Barreto, o legado do escritor: “Vamos ser sinceros: não será possível proceder-se à revisão da nossa história republicana, (...) trabalho que tanto se impõe, sem recorrer aos romances, contos, crônicas e artigos de Lima Barreto. Escritor eminentemente memorialista, (...) ele anotou, registrou, fixou, comentou ou criticou todos os grandes acontecimentos da vida republicana”.

Foi imbuído dessa convicção que dediquei-me e continuo dedicando-me a pesquisar a sua obra, na certeza de que ela pode orientar o nosso olhar para o estudo e a percepção dos mais graves problemas que ainda enfrentamos. Senão, vejamos o que Lima Barreto escreveria no jornal operário O Debate, em setembro de 1917, entusiasmado com os episódios da Revolução Russa em curso:

"A nossa república, com o exemplo de São Paulo, se transformou no domínio de um feroz sindicato de argentários cúpidos, com os quais só se pode lutar com armas na mão. Deles saem todas as autoridades; deles são os grandes jornais; deles saem as graças e os privilégios; e sobre a nação eles teceram uma rede de malhas estreitas, por onde não passa senão aquilo que lhes convém. Só há um remédio: é rasgar a rede à faca, sem atender a considerações morais, religiosas, filosóficas, doutrinárias, de qualquer natureza que seja”.

É inquietante perceber a atualidade do diagnóstico proferido pelo autor, visto que as desigualdades econômicas e sociais características da sociedade brasileira ainda nos saltam aos olhos de forma aflitiva. Quem sabe a próxima edição do SALIPI que se aproxima venha a nos redimir evocando os 130 anos do nascimento de Lima Barreto.

Denílson Botelho

Publicado no jornal O DIA, de Teresina, PI, em 13/05/2011.

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