1 de abril de 2011

O produtivismo acadêmico e seus frutos: "Estava previsto que algo assim ia acontecer (...) porque a pressão para publicar é muito grande"

Químico da Unicamp é acusado de fraudar 11 estudos científicos

Por RICARDO MIOTO e REINALDO JOSÉ LOPES

Publicado em Folha.com, em 31/3/2011
 
Uma investigação internacional apontou fraude em 11 artigos científicos de um respeitado professor titular de química da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Tudo indica que se trata da denúncia mais séria de má conduta científica da história da ciência brasileira, apesar da escassez de levantamentos sobre o tema. Em geral, os casos envolvem plágio, e não invenção de resultados.

Os trabalhos que conteriam fraude saíram em várias revistas científicas da Elsevier, multinacional que é a maior editora de periódicos acadêmicos do mundo.

Os estudos da Unicamp foram retratados (ou seja, "despublicados", não tendo mais validade para a comunidade científica). A Elsevier afirmou que os sinais de manipulação são "conclusivos".

Claudio Airoldi, de 68 anos, é um dos pesquisadores mais experientes da Unicamp: está na universidade paulista desde 1968.

NO TOPO

Na classificação do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, principal órgão federal a financiar ciência no país), ele é bolsista de produtividade nível 1A, o mais elevado, e membro da Academia Brasileira de Ciências. É o associado nº 17 da Sociedade Brasileira de Química.

Airoldi teria falsificado imagens de ressonância magnética que servem para estudar características de novas moléculas. Um dos artigos dizia que uma delas delas, por exemplo, tinha uma estrutura que serviria para absorver metais tóxicos da água.

Os trabalhos foram publicados entre 2008 e 2010 em colaboração com um aluno de pós-graduação, Denis Guerra, hoje professor adjunto na Universidade Federal de Mato Grosso.

A Elsevier diz que o procedimento de investigação envolveu três cientistas revisores independentes, e que todos eles concluíram que "estava claro que os resultados tinham sido manipulados". A editora diz ter pedido e recebido uma defesa dos cientistas brasileiros, mas, segundo ela, o material enviado não prova nada.

"Estava previsto que algo assim ia acontecer. Ia ser muito difícil segurar isso porque a pressão para publicar é muito grande e existe leniência em relação a esse comportamento", diz Sílvio Salinas, físico da USP que segue de perto os casos de má conduta científica no país.

De fato, diferentemente dos Estados Unidos, que contam com uma agência federal para investigar casos assim, o Brasil deixa o acompanhamento dos casos e possíveis punições nas mãos das instituições onde ocorrem.

Não existem estatísticas consolidadas sobre o tema por aqui. Mas, num clima de competição científica acirrada e globalizada, com pesquisadores cada vez mais pressionados para mostrar sua produção em números, mais casos são esperados.

Nos próprios EUA, em 16 anos as fraudes científicas cresceram 161%. Em países como China e Brasil, onde a publicação bruta de artigos científicos tem crescido muito sem que a qualidade acompanhe esse ritmo, o fenômeno deve aparecer mais.

"As universidades e as agências de fomento precisam tomar providências quanto a isso. Nunca tinha tido conhecimento sobre algo dessa dimensão no Brasil. A ordem de grandeza é similar a casos de fraude que ocorrem na China", diz Salinas.

A Unicamp instaurou uma sindicância interna para apurar o caso. Segundo a universidade, ela deve ser concluída em 30 dias.

OUTRO LADO

Procurado pela Folha, Airoldi desligou o telefone assim que a reportagem se apresentou, dizendo não ter tempo para falar. Ele foi contatado também por e-mail, mas não respondeu até o fechamento desta edição.

Guerra disse já ter entrado em contato com a Elsevier. "Mandamos toda uma defesa dos trabalhos, apresentando provas de que as imagens são verdadeiras, mas não recebemos nenhuma posição."

Ele diz que a retratação da Elsevier "incomoda seriamente". "Pode acontecer de você nunca mais conseguir publicar um trabalho. Um editor vê uma coisa dessas e vai pensar o quê? Somos do Terceiro Mundo, a verdade é essa, sem dúvida nenhuma contra pesquisadores do Primeiro Mundo a crítica teria uma peso menor."
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CNPq vai criar comissão contra fraude


Conselho monta comitê após acusação de má conduta contra químico da Unicamp; ele e colega negam culpa

Editora internacional disse que dados de 11 pesquisas passaram por manipulação; outro cientista defende colega

Após a acusação de fraude em 11 estudos do químico da Unicamp Claudio Airoldi, divulgada pela Folha, o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) anunciou um novo comitê que investigará casos como esses.

Até agora, o CNPq, principal órgão federal de apoio à pesquisa, não avaliava essas denúncias. "Resolvemos indicar um comitê temporário para auxiliar na criação de uma comissão de integridade científica, para quando casos assim vierem à tona", disse o presidente do órgão, Glaucius Oliva.

No Brasil, as investigações estão hoje a cargo das instituições onde ocorrem supostos casos de má conduta.

O CNPq também decidiu que o professor será afastado de suas funções no comitê de assessoramento de química do órgão federal até que a investigação seja concluída.

As acusações envolvem manipulações de dados de ressonância magnética, em estudos sobre as características de certas moléculas. A editora multinacional Elsevier, em cujas revistas saíram as 11 publicações, diz que três cientistas independentes concluíram que os dados teriam sido manipulados.

DEFESA


Ex-colega de graduação de Airoldi, Rogério Meneghini, químico e coordenador científico do Projeto SciELO, defende o acusado.

"Ele [o autor] tem cerca de 400 publicações. As investigações estão no início. Ele pode estar sendo vítima de um grupo concorrente. O que é fraude e o que é interpretação errada dos dados por descuido? Essas coisas estão muito próximas", afirmou.

Meneghini também criticou a maneira como o caso foi tratado na imprensa.

O outro principal acusado no caso, Denis Guerra, hoje na Universidade Federal de Mato Grosso, voltou a defender Airoldi e reafirmou a sua própria inocência.

"Queria ressaltar que não houve fraude. Um pesquisador da Unicamp ou da USP não tem a menor necessidade de fraudar dados. Ainda mais um pesquisador como o Airoldi, com 40 anos de carreira", declarou ele.

O químico da Unicamp se recusou a falar com a Folha, Declarou que vai apresentar seus argumentos durante a sindicância aberta pela universidade. A previsão é que a Unicamp conclua a investigação dentro de um mês.

Por GIULIANA MIRANDA, MARILIA ROCHA, SABINE RIGHETTI E RICARDO MIOTO

Publicado na Folha de S. Paulo, 1º de abril de 2011.
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Sociedade de químicos pede cautela no caso


REINALDO JOSÉ LOPES

EDITOR DE CIÊNCIA

O presidente da SBQ (Sociedade Brasileira de Química) declarou ontem que "não é hora de crucificar nem de defender" os químicos brasileiros acusados de má conduta científica.

Claudio Airoldi, da Unicamp, líder da equipe que teria fraudado dados de ressonância magnética, é um dos membros mais antigos da SBQ. "Já discutimos o tema. Vamos admitir que o fato seja verídico. Mesmo que seja, não temos função de polícia nem de justiça", disse à Folha Cesar Zucco, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Para Zucco, há instâncias apropriadas para investigar a situação, em especial a Unicamp, "empregadora dele", e o CNPq. "Não vou dizer que seria precipitado da nossa parte emitir uma condenação, mas creio que não cabe fazê-lo agora."

Do mesmo modo, a ABC (Academia Brasileira de Ciências), da qual Airoldi é membro, disse que vai esperar o fim das investigações para se pronunciar.

Publicado na Folha de S. Paulo em 1º/04/2011

Um comentário:

Fábio Leonardo disse...

Muito embora fosse esperado que atitudes como essa se procedessem, nem mesmo a exigência quantitativa quanto à produção acadêmica justifica uma fraude. Na minha opinião, a punição para atitudes desse porte deveria ser a exclusão sumária da comunidade acadêmica.