1 de abril de 2011

Nova velha guerra

A farsa construída em torno da invasão do Iraque, em 2003, e o tom belicoso da política internacional de George Bush, foi certamente um dos fatores mais relevantes da vitória de Barak Obama em 2008. Mais cordato e educado que George Bush, afro-americano, vindo da ala mais liberal do Partido Democrata e senhor de uma retórica cativante, Obama , com seu discurso sobre mudança e paz, fez-nos crer (a mim ao menos) que algum político podia ascender à Casa Branca e governar com independência em relação ao main-stream concertado pela elite econômica estadunidense, que desde sempre delimita e orienta a política dos EUA, fazendo esquecer que, o último que tentou tal façanha teve como recompensa uma bala na cabeça.

Em verdade, não é fácil encontrar precedente que se aproxime do entusiasmo em torno eleição de Barak Obama para a presidência dos EUA. A imagem corrente, e muito repetida pela imprensa mundial, de que com isso inaugurava-se um novo tempo, de grandes e positivas mudanças, sofreu, contudo, significativo abalo com a postura ambígua e tendenciosa do governo democrata diante das insurgências populares no mundo árabe. O extremo cuidado e respeito com que foi tratado o caso do Egito, aliado de primeira hora dos EUA, contrasta com a pressa e a contundência da intervenção militar deflagrada contra o governo de Kadafi, na Líbia, que há décadas sustenta um discurso crítico contra a globalização e, em especial, contra a política externa predatória dos EUA. Mais contrastante, ainda, é o silêncio dos EUA e da grande mídia em relação à repressão à manifestações pró-democracia no Bahrein e na Arábia Saudita, cujos governos ditatoriais são definidos por Washington como “parceiros estratégicos”.

Não quero aqui defender o governo líbio, pelo qual não tenho nenhuma simpatia, ou conclamar para uma cruzada anti-estadunidense, mas sim sugerir ao leitor uma reflexão sobre o fazer político, onde tudo muda, para que nada verdadeiramente se transforme. Como sagazmente observou Noan Chomsky, “a retórica na política é uma fábrica de consenso, uma forma vazia e perversa de criar ilusão”. A oratória “mudancista” e pacifista teve enorme contribuição para a eleição de Obama, mas, infelizmente, parece pouco influir na condução de seu governo, que na primeira chance reproduz a velha guerra de seu antecessor.

Por Por Américo Souza, historiador, professor da UFPI

Publicado no jornal O Dia (Teresina), em 30/03/2011

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