24 de março de 2011

Quem quer ser professor?

O Dia vem prestando inestimável serviço à sociedade piauiense ao veicular uma série de reportagens sobre o estado em que se encontra a nossa educação pública. Dentre as inúmeras mazelas de que padece o setor, talvez seja da maior relevância refletir não apenas sobre a situação atual, mas também sobre o que está por vir e é extremamente inquietante.

Foi-se o tempo em que o exercício do magistério fazia dos professores indivíduos socialmente prestigiados e reconhecidos, porque bem remunerados. Ser professor já significou ter um certo status. Hoje contudo, a ausência de prestígio e status pode ser observada na escolha que os filhos das classes médias e altas fazem – ou se vêem forçados a fazer – dos cursos universitários que pretendem cursar. Em quantas dessas famílias, cujos filhos freqüentam as melhores escolas particulares, verifica-se a demanda por um curso de licenciatura? Quem quer ser professor?

O adolescente que, por ventura, ousar manifestar o interesse em vir a ser professor do ensino básico, certamente há de desencadear uma crise doméstica nos confortáveis e aburguesados lares desse país. É possível até imaginar a indignação que tomaria conta de um pai diante de uma tal situação: “eu não paguei uma escola cara durante todos esses anos para você se tornar professor! Trate de escolher uma profissão decente, meu filho!” O estimado leitor talvez já tenha ouvido uma frase similar por aí. E há de compreender que nenhum pai deseja ver o filho passando dificuldades com o indigente salário que Estados e municípios pagam hoje aos seus professores – quando pagam.

O fato é que as classes médias e altas brasileiras encontraram uma “bela” solução para a decadência do ensino público nas últimas décadas: matricularam seus filhos em escolas particulares – ainda que a qualidade do ensino não se verifique em muitas delas. Estratégia semelhante àquela adotada diante da falência do sistema público de saúde, qual seja, contratar seguros de saúde. Eis a face obscura da privatização.

Ao mesmo tempo em que a escola pública deixou de acolher os alunos das famílias com melhores condições financeiras, os cursos de licenciatura também passaram a ser freqüentados por alunos que não nasceram em berço de ouro – como o autor dessas mal traçadas linhas. Ou mesmo sofreram um progressivo esvaziamento a ponto de não conseguirmos formar sequer um número mínimo necessário de mestres em determinadas áreas, como física, química e matemática, dentre outras.

É preciso perceber que o motivo que levou as classes médias e altas a abandonar a escola pública, bem como do desprestígio e decadência das licenciaturas é exatamente o mesmo: a pauperização do magistério, com seus salários vergonhosos – como muito apropriadamente as reportagens desse jornal têm demonstrado.

Chegamos então a uma encruzilhada: ou se retoma um vigoroso processo de valorização da carreira de professor em todos os níveis, ou entraremos numa crise sem precedentes. Afinal, a estratégia empreendida pelos mais abastados, de buscar abrigo nas escolas particulares, parece seriamente comprometida. Se seus filhos não podem cursar uma licenciatura, em breve também não terão mais professores. Quem vai lecionar para eles? Acredite, não demora muito e vai faltar professor! Em algumas áreas do conhecimento já se registra a falta generalizada de professores. Então parece que muita gente por aí andou dando um tiro no pé...

Denílson Botelho

Professor de História da UFPI

Publicado n’O Dia (Teresina), em 24/03/2011

4 comentários:

Dayse B. Deus disse...

Eis aí uma bandeira que sempre defendi. E a cada ano que passa sou obrigada a concordar : vai faltar professor de nível básico, porque quem vai querer levar uma vida indigna depois de tantos anos de estudo e investimento ? Eu mesma passei por este dilema e debandei. Não me arrependo, sou feliz com minha escolha. Mas sinto que não deveria ter desistido / optado tão rapidamente. Agora não há como voltar atrás, já tomei outro rumo. Mas ainda me preocupo com a formação das próximas gerações, as que vão cuidar da minha velhice. Enfim...

Dayse B. Deus disse...

Eis aí uma bandeira que sempre defendi. E a cada ano que passa sou obrigada a concordar : vai faltar professor de nível básico, porque quem vai querer levar uma vida indigna depois de tantos anos de estudo e investimento ? Eu mesma passei por este dilema e debandei. Não me arrependo, sou feliz com minha escolha. Mas sinto que não deveria ter desistido / optado tão rapidamente. Agora não há como voltar atrás, já tomei outro rumo. Mas ainda me preocupo com a formação das próximas gerações, as que vão cuidar da minha velhice. Enfim...

Fabricio Daniel disse...

No curso de história na ufpi presencio essa realidade muitos dos meus colegas afirmam q apesar de fazerem uma licenciatura n vão para a sala de aula, quando muito tratam de se preparar para p mestrado de olho em uma vaga para dar aulas no ensino superior, eu confesso que tenho vocação para dar aulas no ensino fundamental e médio, mas sei das tamanhas dificuldades que terei de enfrentar,mas tenho esperança em dias melhores, ainda vamos ser valorizados.

CIEP 391 disse...

Sou servidor público do Estado do Rio de Janeiro, leciono em um CIEP e já percebo esta realidade.
Em toda rede faltam professores de Matemática, filosofia, química, física e etc.Em breve serão todas as disciplinas.
Eu mesma estou estudando para outro concurso fora do magistério.Isto é uma pena, pois em breve os bons professores trabalharão apenas para as classes mais altas.
Desta forma teremos um exército de analfabetos funcionais formados pela escola pública.
Acredito que o objetivo seja este.Manter a classe dominante no poder e o pobre em seu lugar, afinal de contas a elite não quer ter mais um operário no poder.