27 de fevereiro de 2011

Pirâmides, política e livros - Diário de Viagem

RESUMO

Testemunha da revolta popular que pôs fim aos 30 anos de regime do ditador Hosni Mubarak, a cientista social narra o que viu e sentiu nas ruas das cidades por onde passou no Egito durante viagem de férias. Maria Celina D'Araujo analisa o papel das Forças Armadas, que controlam 15% do PIB egípcio, no destino político do país.

Por MARIA CELINA D'ARAUJO

NÃO, NUNCA PESQUISEI sobre a Ásia ou a África, nem tampouco dei aulas sobre o Egito. Mas eu estava lá, no Cairo, no dia 27 de janeiro, cedinho. Os protestos haviam começado no dia 25, quando eu ainda estava em Ácaba, na Jordânia, a passeio. No entanto, quando decidi ir para lá, em meio à movimentação popular, acreditava que meus conhecimentos sobre Forças Armadas e política podiam ser meus conselheiros.

Apostava na hipótese de que não haveria um massacre militar. As Forças Armadas, na maior parte dos países, mesmo nos não democráticos, na última década, têm evitado entrar em confrontos que resultem em matanças para salvar interesses do "jogo do poder". Na América Latina em geral, elas têm funcionado mais como poder tribunício, como portas-vozes da sociedade, atuando para proteger interesses do clamor popular bem como suas demandas corporativas.

Sintomaticamente, no Egito, vários soldados tiraram a farda para aderir a seu povo. Pelas regras da corporação militar, esse é um ato de deserção. Pela ética de um rapaz egípcio, trata-se de ficar ao lado de seu povo defendendo uma causa justa. As Forças Armadas, em quase todos os países, estão atentas à falta de legitimidade para exercer o poder pela força bruta.

FRAGILIDADE

O que essas atitudes nos ensinam é que as razões para soldados matarem ou reprimirem seus compatriotas, felizmente, têm ficado mais frágeis. A matança praticada por militares em nome de ideologias políticas tornou-se anacrônica. Isso não significa o fim da violência na política, mas sim uma requalificação do papel dos atores que têm o monopólio estatal no uso da força bruta. Também não significa, claro, que seja uma tendência que veio para ficar. Reflete apenas o momento.

Raciocinei ainda que a importância do Egito para a paz no Oriente Médio e para os interesses estratégicos mundiais, especialmente dos Estados Unidos, obrigaria a uma saída negociada. E ainda me lembrei que as Forças Armadas no Egito são um poderoso ator econômico, controlam 15% do PIB, e que seus oficiais ocupam os principais cargos nas empresas públicas ou privadas. Ou seja, tinham muito a perder.

Chama atenção o fato de as Forças Armadas serem ali tão queridas, em contraposição ao ódio da população para com a polícia. Lá como cá, uma polícia mal paga, mal preparada e desprestigiada tornou-se sinônimo de violência e de corrupção. Lá como cá, observa-se o pouco caso dado pelo governo à segurança pública, transformando as polícias em inimigos do povo.

A paz na região, construída nos últimos 20 anos, não elimina o clima de desconfiança e de insegurança. Mesquitas e espaços públicos na linda Jordânia, onde também passei uma semana, são monitorados por detectores de metais e carros de polícia.

Não há livre circulação de pessoas de um país para outro. De Ácaba praticamente pode-se ir a pé ou nadando para a Arábia Saudita, o Egito e Israel. Impossível ou muito complicado, mesmo para meu passaporte europeu. Lembrava ali das fronteiras na América do Sul, frouxas demais para conterem o tráfico de armas, mas generosas o bastante para que a gente vá indo em frente se der vontade. Podemos fazer um giro pelo continente com a mochila nas costas e pouca papelada.

BARULHO

No dia 26, no Cairo, visitei as pirâmides e o museu do papiro. Em frente à esfinge, não dá vontade de voltar para lugar algum. É o império da eternidade sobre nós. À tarde, voltei para o hotel, meu guia falou que ali eu estaria segura, pois a praça Tahrir ficava a 5 km. Liguei a televisão e a CNN, espalhafatosa como sempre, mostrava cenas da praça, dos incêndios na sede do partido oficial do governo e na central de polícia. Passei a madrugada ouvindo barulhos que não sabia identificar se eram tiros ou explosões. Olhava pela janela do hotel, mas como estava em um quarto de fundos, não via nada.

Dia 28 pela manhã, na sexta-feira da fúria, eu tinha um voo marcado para Luxor. No hall do elevador, um senhor me viu com a mala e avisou que os aeroportos estavam fechados, que o hotel em frente ao nosso havia sido incendiado. Chamava-se hotel Europe e, pelo que soube, fora incendiado por ter boate e cassino, ou algo do gênero. Ou seja, não era parte do pacote contra Hosni Mubarak.

Na recepção, boatos e informações desencontradas em todas as línguas. Assim mesmo, fui para o aeroporto de carro, com meu guia, e vi a central de polícia incendiada. Eu escutava ao vivo o barulho das cenas da televisão. Passei pelo bairro de Heliópolis, onde morava o presidente. A esta altura, as ruas já estavam tomadas pelas Forças Armadas. No aeroporto, muito policiado e armado, consegui embarcar.

Em momento algum tive medo. Tive apenas o cuidado de esconder a máquina fotográfica. Escutara na TV que alguns policiais estavam apreendendo as câmeras de turistas que tirassem fotos dos protestos. No aeroporto, muitas excursões ainda saíam para o sul. Em Luxor, visitei os templos de Karnak e de Luxor e o Vale dos Reis, e segui de barco até Assuã.

No Nilo, muitos cruzeiros, uma natureza divina, pássaros, brisa, ilhotas verdes, deserto, festa para os olhos não fora a pobreza que habita suas margens. Fiquei em Assuã até o dia 2 de fevereiro, quando voltei ao Cairo. De lá, saí imediatamente para Istambul, rumo a Lisboa. Meu plano de ficar mais uns dias no Cairo fazendo um programa cultural não vingou.

Foi uma semana inteira vendo e ouvindo ao vivo o que ali se passava. Só me aborreci uma vez com um guia estressado. Não encontrei ninguém que defendesse o governo. Encontrei os que aceitavam esperar até setembro, mês das eleições então programadas, e os que temiam o retorno das guerras com Israel. Vi a tristeza dos trabalhadores do setor de turismo, que emprega três milhões de pessoas. Sabiam que ficariam sem trabalho pelo menos durante alguns meses. O rio Nilo confirmava isso: os barcos não chegavam mais, o meu foi um dos últimos a sair.

MAL-ESTAR

Na saída do Egito, o aeroporto do Cairo também estava vazio, escuro, lojas e lanchonetes fechadas. Assim como no caótico aeroporto de Assuã, vi ali representantes do governo da Alemanha e dos Estados Unidos retirarem algumas poucas pessoas em voos extras. Havia também representantes da Cruz Vermelha. Dava muita pena ver o país paralisado, raiva por ver o que governantes e elites fazem com seu povo e felicidade por ver a reação das pessoas demandando dignidade e liberdade. Não sentia medo.

Por que a falta de medo? Pensava: o que está acontecendo aqui que eu não tenha visto no Rio de Janeiro e no Brasil? Ruas cheias de gente protestando contra o governo, saques de marginais que aproveitam esses momentos para exercitar suas patologias, polícia violenta e arbitrária batendo em cidadãos pacíficos, carros particulares e ônibus incendiados pelas ruas, prédios do governo atingidos por balas e fogo. Pensei nas cenas marcantes dos bandidos fugindo durante a ocupação do morro do Alemão, no Rio, e no levante geral do PCC, em São Paulo.

O que nunca vi aqui no Brasil foi uma manifestação popular tão estrondosa. E motivos não nos faltam: corrupção na política, violência das milícias, cinismo de um Carnaval, maior festa popular do mundo, chefiada pelo jogo do bicho e o correlato narcotráfico com o beneplácito das autoridades e a vista grossa da Polícia Federal e do Judiciário, criminalidade etc.

Nesses dias de Nilo, ainda sob o impacto da esfinge, li muito e, toscamente, me perguntei sobre o que seria mais valioso: um livro na mão ou as pirâmides de Gizé. Elas são lindas, mas ficaram lá com a esfinge. O livro era um monumento que eu egoisticamente carregava. Juro que "filosofei" sobre esse tema sob os eflúvios de um Egito em ebulição. Nada que possa ser publicável, claro!

Ao fim, um mal-estar comigo e com o país em que vivo. Mal-estar por "naturalizarmos" a violência, a miséria e a desigualdade, apesar de tanto discurso eleitoreiro. Mal-estar por ter tido tanta consciência sobre o quanto é violenta a linda cidade onde moro.

Publicado na Folha de S. Paulo em 27/02/2011

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