20 de fevereiro de 2011

A greve e o dever de casa

O ano letivo na rede pública estadual do Piauí não começou bem. Os professores, através do seu sindicato, iniciaram uma greve cujo alcance não pretendo discutir aqui. Afinal, é fato que existe a greve.

Diante disso, seria extremamente positivo que o novo governo de Wilson Martins e a gestão recentemente iniciada do Secretário Átila Lira deixassem de lado a retórica apelativa contra um movimento social organizado e sentassem à mesa de negociação para examinar as razões que levaram os docentes a tomar a iniciativa que tomaram. Trata-se de oportunidade rara para o diálogo, ao invés de se lançar apressadas e injustas acusações contra quem tem insistido em exercer heroicamente o magistério, a despeito dos salários indignos que lhes são pagos.

Também não parece ser de bom tom pretender desmobilizar o movimento reivindicatório com o argumento de que o Piauí é o único estado no país cuja rede pública de ensino está em greve. Por acaso isso seria motivo de vergonha para a categoria? Não creio. Revela, antes de tudo, a preocupação e a responsabilidade com os rumos da educação piauiense por parte dessa categoria profissional. Preocupação e responsabilidade que talvez esteja faltando aos administradores públicos, inclusive nos seus discursos e entrevistas, em que muitas vezes tais palavras parecem ocas.

Se o ano letivo por aqui começou com uma greve, é sinal de que nossa educação vai mal e os professores estão atentos a isso e vêm à público denunciar o quanto falta-lhes a base para desenvolver um ensino de qualidade: remuneração digna e condizente com a relevância do ofício que exercem.

Recentemente o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, vinculado ao governo federal - e, portanto, ao governo de Dilma Roussef, do PT, partido com o qual o PSB fez aliança para eleger Wilson Martins -, divulgou um estudo (Comunicado nº 75, datado de 3 de fevereiro de 2011 e disponível no sítio do Instituto na internet) intitulado “Gastos com a Política Social: alavanca para o crescimento com distribuição de renda”. É um texto curto, de 13 páginas, que o Secretário e o Governador poderiam ler entre um despacho e outro, no conforto de seus gabinetes.

Dessa leitura instrutiva, poderiam extrair um dado de extrema importância. Os pesquisadores do IPEA constataram que cada R$ 1,00 investido na área da educação gera R$ 1,85 para o PIB (Produto Interno Bruto). E mais: ao comparar diferentes tipos de investimentos feitos na área social (na saúde, em programas sociais e outros), verifica-se que o investimento na educação é o que mais contribui para o crescimento do PIB. Ou seja, o salário pago aos professores não gera apenas conhecimento difundido através da aprendizagem. Gera crescimento econômico para o Piauí e para o Brasil. Gera aumento do consumo, das vendas e movimentará a economia num futuro bem mais próximo do que se pode imaginar. Indivíduos instruídos e qualificados geralmente conquistam melhores rendimentos, consomem mais. E para serem instruídos e qualificados, necessitam de educação. Mas educação de qualidade não se faz com professores pauperizados.

Em síntese, se queremos ver o Piauí prosperar, é preciso olhar para a greve dos professores em luta por melhores salários não como um indesejável aumento na folha de pagamentos, mas sim como um investimento da maior relevância no desenvolvimento econômico do nosso estado.

Salário de professor não é gasto, é investimento. Os nossos professores da rede estadual, em greve, estão nesse momento na vanguarda nacional ao lutarem por melhores salários antes que o mesmo se repita nos demais estados brasileiros. Eis o dever de casa, sugerido pelo IPEA, que os atuais governantes precisam fazer urgentemente.

Por Denílson Botelho
Professor de História da UFPI

Publicado no jornal O DIA (Teresina/PI), em 20 de fevereiro de 2011, Primeiro Caderno, p. 6)

4 comentários:

Dayse B. Deus disse...

Eu bem que preferia que a greve alastrasse país afora e realmente contaminasse outros estados. Sem desmerecer o Piauí, eu até ousaria dizer : que futuro desejamos para um país que não investe em educação achando que isto é gasto ? Formar cidadãos melhores é onde começa tudo, dos políticos aos médicos, TODOS NÓS !

Eliana Vinhaes disse...

Denilson: Mais uma vez congratulo-me com sua postura comprometida com o ensino, a participação e a consciência de que a luta por reconhecimento e melhoria salarial se dá na organização e na resistência. Há muito tempo acompanho o desrespeito com o magistério, que se dissemina pela imprensa e pela sociedade. Esta campanha deve dar lugar ao apoio e solidariedade aos professores, grandes aliados do desenvolvimento social do Brasil. Avante! Estamos com vocês!
Eliana Vinhaes

rarodeoliveira disse...

Não perdeu o gostinho de publicar em jornais hein..rs.

Rosângela disse...

É isso mesmo!!! Você está corretíssimo quando alerta os governantes de que Educação tem que ser vista como investimento.
Gostei muito do artigo e parabéns pelo mesmo.