3 de fevereiro de 2011

A fome. Ainda a fome que assola a Bruzundanga!

A repórter Mayara Bastos publicou hoje uma matéria no jornal O Dia, de Teresina, sobre a fome nesta capital e no Estado do Piauí. É texto bem escrito, primoroso, que não deixa dúvida sobre quais são - ou deveriam ser - as prioridades dos governos que se iniciam. No seu texto, deu vida aos números e aos dramas e histórias que se escondem por trás deles. Faz lembrar que o jornalismo deve cumprir uma função social habilmente evidenciada nessa matéria. Nada como pegar o leitor pela mão, conduzi-lo ao interior da casa de seu Raimundo Nonato e fazê-lo ver - quase com os próprios olhos - o que se passa ali dentro: "Os caroços de feijão dispersos na panela fazem parte do dia a dia da família composta por oito pessoas".

Para ler a matéria, acesse http://www.portalodia.com/noticias/piaui/metade-da-populacao-vive-com-menos-de-um-salario-101666.html ou leia a reprodução do texto abaixo:

Metade da população vive com menos de um salário


Milhares de pessoas em Teresina e no interior
 muitas vezes não têm nenhum alimento durante o dia

De forma silenciosa, sem alarde, a fome corrói os lares miseráveis do Piauí. Faz estrago sem pressa no exército de famintos. Em Teresina, em diversos bairros e vilas, a fome se esconde sorrateiramente, camuflada em um prato de feijão, num pouco de arroz, onde se come dia sim, dia não. No Piauí, Estado que bate recordes de safras, chora-se e se lamenta por comida.

Antônia Francisca Pereira, 44 anos, moradora da Vila Uruguai, zona Leste da cidade, revela em seu olhar a falta de uma condição de sobrevivência mínima que se costuma denominar de dignidade. A dona-de-casa evidencia uma tristeza no rosto pela falta de tudo. Ao conversar com a reportagem do O DIA, em sua pequena casa de taipa, ela preparava a "mistura" (feijão com a farinha) para almoçar. Mas, nem sempre é assim. "Tem dias que não tem nada. Aí gente bebe um gole de água e vai deitar", conta.

É com uma renda de apenas R$ 50,00 que Antônia e o marido, José Raimundo, sobrevivem mensalmente. A atividade de pedreiro do marido não proporciona a estabilidade tão sonhada. "Ninguém gosta de passar mal. Aqui é desse jeito. A nossa casa tá para cair. E como a gente não tem nem o que comer", completou.

O retrato da fome em Teresina é apenas uma lacuna aberta para compor a estatística do Estado constatada por uma pesquisa feita pelo Laboratório de Estudos da Pobreza (LEP), vinculado a Universidade Federal do Ceará (UFC). No Estado, 305 mil pessoas estão em situação de máxima pobreza e tentam viver com uma renda mensal que chega até R$ 58. Isso quer dizer que 9,57% de toda a população piauiense recebem por mês apenas um oitavo do salário-mínimo referente a 2009, que era R$ 465.

O estudo apontou que os resultados do Piauí colocaram o Estado como a quinta unidade da Federação com maior proporção da população nesse status miserável, ficando em situação menos trágica que estados como Alagoas (14,8%), Maranhão (13,87%) e Pernambuco (11%) e Ceará (10,61%). Para se ter ideia da discrepância com outros estados brasileiros, em São Paulo, apenas 2,17% dos habitantes estão nessa faixa de renda, assim como o Distrito Federal (2,46%) e Santa Catarina (1,59%).

Porém, a fome e a falta de acesso aos direitos básicos dos cidadãos acontecem a contagotas, dispersa, silenciosa nos rincões e nas periferias e acabam sendo apenas números, estatísticas, como se o número não trouxesse junto com ele dramas, histórias, nomes. Na casa da família do desempregado Raimundo Nonato, 49 anos, no semblante a indisfarçada vergonha de não ter o que comer. Assim, as palavras faltam. Os caroços de feijão dispersos na panela fazem parte do dia a dia da família composta por oito pessoas.

"A gente vai colocando apenas um pouco para cada. A gente come mesmo com a sorte", disse. Com a sorte? "É... tem dia que a gente não tem sorte de alguém dá um pouco de arroz e feijão pra gente", respondeu a dona-de-casa Maria dos Remédios que sobrevive juntamente com sua família com uma renda de apenas R$ 95,00.

No casebre de dois cômodos, a fome e a falta de dinheiro para pagar as contas de água e energia atrasada há seis meses são implacáveis. Era quase meio-dia quando a reportagem do O DIA chegou à residência e ninguém ali havia almoçado. Àquela hora, tudo o que as crianças e adultos tinham comido eram dois biscoitos, cada um, e café.

"O que a gente vai fazer? Tem mais é que comer o que tem se não nem aguenta ficar em pé", disse Raimundo Nonato que "escapa ajudando pedreiro de vez em quando". Questionados sobre o que seria o jantar nesta quarta-feira, dia 2, Raimundo e Maria silenciam com um olhar procurando a resposta que devem buscar todos os dias.

Pesquisa sobre pobreza pode orientar na busca por soluções

Ainda de acordo com a pesquisa feita pela Universidade Federal do Ceará (UFC), quase metade da população piauiense (50,03%), 1,5 milhão de pessoas, sobrevivem com metade do salário mínimo. Nesse quesito, o Estado é quarto colocado no País.

Flávio Ataliba, coordenador do Laboratório de Estudos da Pobreza (LEP), explicou que a pesquisa mostra um retrato da realidade e deve servir como orientador para o desenvolvimento de políticas públicas.

"Não temos pretensão de apresentar soluções para os problemas, mas esse retrato mostra o enorme desafio que se tem pela frente. Precisa haver mais investimento na infraestrutura social para um crescimento sustentável da economia", disse. E completou: "São números dramáticos, portanto merecem a atenção do poder público".

O caminho para reduzir a pobreza é a geração de emprego

"A geração de emprego é uma das prioridades máximas da política econômica". É com essa afirmação que o economista Leandro Lima Gomes acredita ser possível reduzir a pobreza no Piauí e em qualquer lugar do mundo. Para ele, é preciso criar oportunidades de trabalho para os pobres.

"É preciso que uma agenda da inclusão produtiva se paute por uma combinação de políticas de maior acesso ao crédito, qualificação profissional e de educação de jovens e adultos, além da busca de maior formalização do mercado de trabalho", pontuou. Segundo Leandro Lima, o perfil educacional heterogêneo das pessoas consideradas pobres sugere que as estratégias de inclusão no mercado de trabalho terão de ser variadas, adaptadas a públicos diferentes e, sobretudo, a realidades econômicas diferentes. "A pobreza é muito heterogênea e o tempo de resposta também vai variar", pondera.

O especialista descreveu a pobreza como o grande problema moral dos nossos tempos e lamentou que em um Estado com tanta riqueza ainda haja um número tão grande de pobres. Ele pontua que a pobreza não está restrita às nações em desenvolvimento: mais de 10% da população nos 20 países mais ricos do mundo vivem com menos da metade do salário mínimo recomendado. "O caminho para sair da pobreza é o trabalho", disse.

IBGE diz que 390 mil famílias são carentes

O Piauí tem 83.887 mil famílias de baixa renda com perfil para receber o Bolsa Família. De acordo com dados atualizados em agosto de ano passado, outras 6,1 mil famílias poderiam ser contempladas com a bolsa. No entanto, os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que no Estado 389.785 mil famílias se encaixam no perfil do programa.

As "vagas" surgem à medida que os beneficiários são excluídos do programa, seja porque melhoraram de vida, porque já não têm mais filhos em idade escolar ou porque simplesmente não atualizam mais seus cadastros. "As vagas surgem constantemente, às vezes todos os meses, e outras pessoas vão sendo incluídas", explica Roberto Oliveira, coordenador do Bolsa Família.

Mas para ter a chance de ser chamado, a família deve estar cadastrada no Cadastro Único para Programa Social. Para isso, basta ir ao Centro de Referência de Assistência Social (Cras) mais próximo.

Índice de redução da pobreza é baixo no Nordeste

A mudança socioeconômica, no entanto, é considerada gradual e lenta. Conforme o site dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) usando o critério do salário mínimo, a projeção é que o Brasil, como um todo, alcance a meta de reduzir a pobreza pela metade em 2015.

Até 2009, o país já havia apresentado queda de 38%, mas os índices mostram que a evolução do país na área é desigual. Se mantiverem o ritmo de decréscimo da pobreza detectado entre 1991 e 2007, apenas quatro das nove regiões metropolitanas para as quais há dados cumprirão a meta em tempo.

Em Belém, Fortaleza, Recife, Salvador e São Paulo a evolução é insuficiente. São Paulo foi onde menos se reduziu a proporção de pobres entre 1991 e 2007: apenas 14,1%. Apesar disso, a metrópole tem, desde 91, a menor proporção de pobres entre as cidades: apenas 17,9%. Já Recife parte dos 56,8% e conseguiu diminuir 28,5%. Os Estados do Nordeste, como o Piauí, ocupam a lanterna do ranking com um crescimento médio de apenas 25%. As mais bem sucedidas são Curitiba e Rio de Janeiro. Em ambas, a pobreza já havia caído 53% até 2009. Se não houver aumento, as metrópoles cumprirão a meta até 2015, junto com Porto Alegre e Belo Horizonte.

Por Mayara Bastos
Publicado no Jornal O Dia (Teresina - PI), em 3 de fevereiro de 2011.

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