17 de novembro de 2010

Nordeste is beautiful / Região Sudeste perde participação no PIB, diz IBGE (Em taxa de crescimento, a maior alta foi registrada no Piauí, com variação de 8,8%)

Nota do Blog:
Não concordo com as opiniões de Guanaes sobre o racismo no Brasil. Muito menos assinaria embaixo do que pensa esse publicitário. Mesmo assim, compartilho a reflexão que fez no artigo abaixo, que se soma à notícia publicada na Folha.com hoje.

Em certa medida, acho que faço parte dessa mudança de fluxo migratório que o IBGE começa a detectar.
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Nordeste is beautiful


ANDREW YOUNG foi duas vezes prefeito de Atlanta, para onde ajudou a levar a Olimpíada, e embaixador dos Estados Unidos perante a ONU durante o governo Jimmy Carter. Mas, acima de tudo, o embaixador Andrew Young já tinha entrado na história como um dos principais parceiros do doutor Martin Luther King na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos.

Sua conversa brilhante me anima e me aquece numa noite muito fria da Geórgia. Existem conversas que -assim como grandes ondas- não temos estatura para enfrentar. É melhor ouvir. E seria uma burrice falar. Porque, a cada momento em que Andrew Young se cala, perdemos um pouco de história.

Os filhos de Martin Luther King estão sentados à minha frente na mesa de jantar e ouvem o embaixador Young com respeito e reverência: Young foi um dos principais ativistas da luta contra o racismo no sul dos EUA.

Inspirado por Gandhi, ele ajudou a conceber uma resistência pacífica contra leis racistas que ainda vigoravam em alguns Estados da Federação americana.

Andrew Young esteve sempre ao lado de Martin Luther King, inclusive num dos momentos mais icônicos daquela dura luta: o assassinato do próprio King no motel Lorraine, em Memphis, em 4 de abril de 1968.

Jamais vou me esquecer das palavras de Young. Ele me disse: "Meus netos não vão sofrer mais racismo organizado. A luta pelos direitos civis na América acabou com isso. O que eles poderão sofrer é o racismo desorganizado, eventual, espasmódico".

ATLANTAS BRASILEIRAS

Ao voltar ao Brasil e encontrar tolices escritas aqui e ali contra os nordestinos, as palavras do embaixador Andrew Young me alentam e me ajudam a organizar o pensamento. Não vou levar essa burrice a sério. Porque burrice acontece em qualquer lugar.

Uma das portas do crescimento deste país hoje é o Nordeste: é a nossa China estatística, a base da pirâmide, a nova fronteira. Não há grande empresa que não esteja preocupada em levar os seus produtos para onde o país se desenvolve.

Os nordestinos ajudaram a construir São Paulo e agora estão desenvolvendo o Nordeste. O IBGE já detecta mudança nos fluxos migratórios. A mobilidade da força de trabalho é mãe da competitividade.

É um dos segredos da riqueza dos EUA, foi assim que a Atlanta de Andrew Young tornou-se um dos motores econômicos do sul, sede da Coca-Cola, da CNN e de tantas outras corporações globais. Quantas Atlantas brotarão do Nordeste neste Renascimento econômico da região e do país?

São Paulo também é uma cidade que abraça a todos. Plural. Não fosse isso, sua principal rede de varejo não se chamaria Casas Bahia. Eu amo São Paulo, cidade que me acolheu e me deu tudo.

Quem derrotou primeiro o preconceito no Brasil foi o sexo. Os portugueses não trouxeram portuguesas. O Brasil sempre resolveu melhor suas misturas na prática do que no discurso.

Não conseguimos sequer responder com clareza à mais básica das perguntas nesse debate: há racismo no Brasil hoje? Como Andrew Young, acredito que não de forma organizada.

Mas o racismo institucionalizado de séculos passados ainda aparece na desigualdade entre, por exemplo, a renda de brancos e a de pretos, na denominação utilizada pelo IBGE.

É uma herança que confunde o pensamento e o comportamento, um racismo herdado, não mais cultivado.

A solução para essa dívida secular finalmente chegou. E da maneira mais óbvia. O desenvolvimento econômico é a única cicatriz para essa ferida. Estamos em plena cura. Tardia, mas eficiente.

Por NIZAN GUANAES
Extraído da Folha de S. Paulo, em 16/11/2010.
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Região Sudeste perde participação no PIB, diz IBGE


A região Sudeste perdeu 0,4 ponto percentual em participação no PIB (Produto Interno Bruto) do país em 2008, na comparação com 2007. Em seis anos, a queda foi de 0,7 ponto percentual, segundo dados das Contas Regionais do Brasil, divulgados nesta quarta-feira pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Segundo o IBGE, os dados confirmam a tendência de perda de participação da região. Apesar disso, a Sudeste continua sendo a região com maior peso no PIB, de 56% em 2008. Em 2002, o percentual era de 56,7%

Um dos fatores que contribuíram para esse movimento foi o efeito da explosão da crise em setembro de 2008 sobre o setor de intermediação financeira. A participação deste setor recuou de 7,7% em 2007 para 6,8% em 2008.

O Sul, apesar do decréscimo de 0,3 ponto percentual nos últimos seis anos, manteve a mesma participação em 2008 em relação ao ano anterior, cerca de 16,6%.

Já as regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste vêm ganhando participação no PIB desde 2002. As duas primeiras avançaram, cada uma, 0,4 ponto percentual no período, enquanto a última cresceu 0,1 ponto percentual.

SÃO PAULO

O Estado de São Paulo registrou crescimento do PIB de 5,9% em 2008, segundo os dados do IBGE. Com a expansão, o PIB do Estado superou pela primeira vez a marca de R$ 1 trilhão.

No ranking de crescimento do PIB estadual, São Paulo ficou em décimo lugar no país, mas acima da média nacional, de 5,2%. Em taxa de crescimento, a maior alta foi registrada no Piauí, com variação de 8,8%. Em compensação, o PIB per capita deste Estado ainda é o menor do país, de R$ 5.372,56. O PIB per capita de São Paulo foi de R$ 24.456,86, o segundo maior do país, atrás apenas do Distrito Federal.

Apesar da expansão, os dados do IBGE mostram que desde 1995, a participação de SP no PIB está em queda. Neste período, o Estado perdeu 4,7 pontos percentuais em participação no PIB. Em meados da década de 1990, São Paulo representava 37,3% da produção total de bens e serviços no país. Em 2008, o Estado correspondeu a 33,1% do PIB.

CONCENTRAÇÃO

Em 2008, cinco Estados concentravam 66,2% do PIB: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná. Outros 22 Estados concentravam 33,8% do PIB, uma fatia praticamente igual ao percentual de São Paulo.

Na passagem de 2007 para 2008, São Paulo perdeu 0,8 ponto percentual. O resultado foi afetado pela queda na participação da agricultura, influenciada pelos preços da cana de açúcar e da laranja. Em 2007, estas atividades representavam 48,6% da agropecuária paulista. Em 2008, elas passaram a representar 40,5%.

São Paulo registrou perdas também de 0,4 ponto percentual na participação da indústria de transformação. Outro fator que contribuiu para o fôlego menor da economia de SP foi a menor participação dos serviços de intermediação financeira, afetados pela explosão da crise econômica em setembro daquele ano. A participação total desta atividade recuou de 7,7% em 2007 para 6,8% em 2008.

A análise dos dados da indústria mostra que desde 1995, a participação de São Paulo recuou de 44,4% para 33,9% em 2008. A indústria total inclui a extrativa mineral, a indústria de transformação, construção civil e serviços industriais de utilidade pública. O recuo é explicado pelo crescimento da indústria extrativa na década de 1990 e pela desconcentração da indústria de transformação, com a migração de fábricas para outros Estados.

Por JANAINA LAGE
Da Folha.com, 17/11/2010

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