31 de outubro de 2010

Sueli vai votar na mulher do Lula. Por que?

Vilma

FERNANDO CANZIAN

SÃO PAULO - Em meados de abril, a reportagem da Folha teve o seguinte diálogo com Sueli Dumont, chefe de uma família de 17 pessoas em uma favela de Pernambuco:

"A sra. sabe que haverá eleições neste ano?"

"Para prefeito?"

"Não, para presidente. A sra. conhece os candidatos ou sabe em quem vai votar?"

"Em Lula!"

"Mas ele não pode ser candidato desta vez..."

"Meu Deus! Pode não?"

Ao que a filha de Sueli interveio: "Ô, "mainha", é a mulher de Lula que vai entrar no lugar dele."

"E como é o nome dela?"

"É Vilma" -disse a filha.

"Vou votar em Vilma" -emendou Sueli.

Na época, Serra estava em seu auge, segundo o Datafolha. Tinha 40%, ante 29% de Dilma.

Abril também sucedeu o trimestre em que o Brasil mais cresceu em décadas. O país "rodava" a mais de 11% ao ano, em ritmo chinês.

No mesmo período, o aumento médio da renda per capita já retornava ao ritmo pré-crise de 2009. Subia cerca de 5,5% ao ano na média do país; e 7,5% no Nordeste. A classe C voltava a crescer nesse embalo.

Naquele abril, a taxa nacional de ótimo/bom de Lula era de 73%. No Nordeste, região que mais crescia, 83% o aprovavam. O Nordeste também era a única área do país em que Dilma já estava à frente de Serra.

A partir daí, Dilma passou a subir, sempre no vácuo da popularidade de Lula. E Serra, a cair.

Hoje, dia em que conheceremos o resultado da eleição presidencial, Lula tem nacionalmente a mesma aprovação que detinha apenas no Nordeste lá em abril: 83%.

Um último ponto sobre aquele mesmo abril, quando o jogo virou: 14% dos pesquisados diziam que votariam em quem Lula indicasse. O mesmo percentual, que corresponde a 18 milhões de eleitores, nunca tinha ouvido falar de Dilma.

Eles farão a diferença hoje.

Publicado na Folha de S. Paulo em 31/10/2010.
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O Blog reproduz esse artigo publicado na página de opinião da Folha no dia do segundo turno porque é um exemplo de análise política rasteira e míope, além de fomentar junto aos leitores paulistanos o velho ódio e preconceito contra o nordestino. O Sr. Canzian insiste em ver o povo como bestializado, desprovido de consciência e racionalidade política, incapaz de fazer escolhas consequentes. Julga o povo, através da favelada pernambucana Sueli, como massa de manobra. Recusa-se o articulista a analisar a sua fala e tentar compreendê-la - desafio que se coloca aos historiadores.

Sueli vai votar na mulher do Lula. Por que? Isso Canzian não discute. Vai votar na mulher do Lula, não importa qual seja o seu nome - estariam os pobres ensinando os ricos a banir o personalismo da política? - porque se viu contemplada por iniciativas políticas do governo Lula, do PT. E basta. É simples assim. É coisa que o PSDB, FHC e Serra jamais fizeram. Canzian recusa-se a compreender o raciocínio político de dona Sueli, num texto do qual transborda preconceito contra os pobres e os nordestinos...

Folha, não dá mais pra ler...

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