7 de outubro de 2010

Somos todos bestializados?

Testemunha ocular da Proclamação da República, Aristides Lobo disse que o povo assistira a tudo bestializado, sem compreender o que se passava naquele 15 de novembro de 1889, julgando ver talvez uma parada militar. O militante republicano ressentiu-se da ausência das massas no movimento através do qual se instituiu um novo regime de governo no país. Aliás, cabe registrar que o pequeno e didático livro de Celso Castro, intitulado A Proclamação da República (RJ: Zahar, 2000) descreve primorosamente quão circunscrito aos quartéis foi esse movimento que resultou na república que temos.

Depois de quase um século da implantação do regime republicano, o historiador José Murilo de Carvalho publicou uma instigante análise das primeiras décadas republicanas, repreendendo o olhar elitista e míope que freqüentemente direcionamos ao comportamento do povo. No seu livro Os bestializados: o Rio de Janeiro e a república que não foi (SP: Companhia das Letras, 1987), o autor argumenta que o povo não sofre da passividade que corriqueiramente lhe é atribuída, não é o bestializado que Aristides Lobo observara. As camadas populares constroem suas próprias estratégias de luta e enfrentamento das adversidades, cabendo aos historiadores, cientistas sociais e demais estudiosos do seu comportamento político aferir seus instrumentos de observação e análise para perceber quais são exatamente essas estratégias, pois elas sempre existiram e continuam existindo.

Carvalho argumenta que o povo não era bestializado, “o povo sabia que o formal não era sério. Não havia caminhos de participação, a República não era para valer. Nessa perspectiva, o bestializado era quem levasse a política a sério, era o que se prestasse a manipulação. Num sentido talvez ainda mais profundo que o dos anarquistas, a política era tribofe. Quem apenas assistia, como fazia o povo do Rio por ocasião das grandes transformações realizadas a sua revelia, estava longe de ser bestializado. Era bilontra” (pág. 160)

Os historiadores também já aprenderam com a obra de E. P. Thompson, estudioso do processo histórico de formação da classe operária inglesa, que as transformações estruturais, inclusive as de âmbito cultural, estabelecem limites e exercem pressões que definem o enquadramento dos processos sociais, no interior dos quais seres humanos concretos fazem a história a partir de escolhas e apostas conscientes, embora atuem em condições pelas quais não optaram e por meio de processos cujos desdobramentos escapam ao seu controle.

Todo esse empreendimento que se fez no campo acadêmico e intelectual exige que questionemos firmemente o estigma da suposta passividade, acomodação e alienação do povo brasileiro, notadamente das camadas populares. Somente desta forma poderemos compreender a extraordinária votação obtida por Tiririca em São Paulo e o favoritismo da candidata governista no segundo turno das eleições presidenciais.

O voto em Tiririca contém um recado muito claro: é preciso caminhar na direção de uma reforma política que promova o amadurecimento da nossa democracia e que sirva de ensejo para que coloquemos em discussão a importância dos partidos políticos. Nossos partidos ainda não têm uma identidade política, ideológica e programática devidamente evidenciada. Enquanto essa situação perdurar, vamos continuar votando nos Tiriricas da vida ao invés de votarmos no partido A, B ou C, como seria necessário para a consolidação da nossa democracia. A política continuará sendo tribofe. Afinal, quem seria capaz de identificar claramente que projetos estão em discussão no momento?

Da mesma forma, é preciso abandonar a explicação simplista de que os milhões de indivíduos retirados da miséria absoluta pelos programas sociais do atual governo foram cooptados e estão votando pelo continuísmo ingênua e passivamente. Não devemos insistir em classificar as massas como bestializadas. Eles sabem que o “Bolsa Família” é pouco, sabem que nada disso elimina as nossas persistentes desigualdades sociais, mas também sabem ser bilontras e não querem morrer de fome como morriam até há pouco tempo, haja vista a insensibilidade daqueles que governaram o país até 2002.

Em suma, é preciso compreender o recado que os eleitores estão dando nas eleições, sejam os eleitores de Tiririca, sejam os que estão em vias de optar pela permanência do PT no poder. Como diz aquele velho bordão do tempo das “Diretas Já”, o povo não é bobo. Bobo talvez seja quem o julga alienado e incapaz de fazer escolhas políticas conscientes.

Por Denílson Botelho

Publicado no jornal O DIA, de Teresina - PI, em 7 de outubro de 2010.

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