16 de outubro de 2010

Ódio de classe, aeroportos e eleições

O melindre da classe média face às invasões bárbaras

Nota especulativa sobre o pequeno avanço serrista nas grande cidades do País


Antes da luta de classes, expressão aguda do modo de produção capitalista, houve a luta de raças, como diz Michel Foucault. Na raiz mesmo da acumulação capitalista, século 15 e 16, a então nascente América serviu de palco para uma das maiores carnificinas da história: o extermínio quase completo das civilizações pré-colombianas protagonizado por brancos, católicos, supostamente aculturados e educados de acordo com padrões corteses e nobres. A fina flor do mundo civilizado botava pra quebrar em barbárie no Novo Mundo.

Alguns anos atrás, doutos acadêmicos ultraliberais decretaram o fim da luta de classes. Pior: o fim da história mesmo. Isto posto, restou o quê? Pois no Brasil, restou a luta de aeroportos. É uma luta surda, não declarada, mas profunda, que revolve as entranhas do ser em combate, modifica-lhe a substância da saliva e do suor, turva-lhe a vista, esquenta-lhe a cabeça e fervem-lhes os miolos (mas somente para quem os tem).

Parte deste drama social está exposto na crônica de um certo celetista da RBS, um ledor de telepromter chamado Alceu, Alfeu ou Borromeu, não estou certo (leia-o aqui, conforme texto publicado em Zero Hora, edição de hoje).

O celetista da família Sirotsky está indignado com a estética dos filhos de Lula que ousam frequentar aeroportos e viajar de avião. Borromeu está horrorizado: "E o que vejo me irrita profundamente. Gente suada, de bermuda, dedões à mostra em chinelos de borracha, tufos de pelos saindo pelas axilas expostas por camisetas regata, é cada cada vez mais comum em voos domésticos. Onde essa gente pensa que está? Num balneário?"

Antes de identificar a classe a que dedica seu ódio de pequeno funcionário midiático, Alfeu, trata de se isentar com um disfarce: "Aliás, antes que me acusem de elitismo [imagina, Borro!]: os frequentadores mais abusados dos nossos aeroportos não são os viajantes da classe C, que estão começando a voar agora. Os piores são justamente aqueles que se jactam de pertencer a andares mais elevados da pirâmide social, os mais 'viajados'." Mas é inútil o disfarce de Alceu. Ninguém duvida que ele se refere à emergente classe dos filhos do lulismo. Quem pode acreditar que os "viajados" perambulem pelos saguões de aeroportos trajando chinelo de borracha e regata furadinha?

O pequeno funcionário está sendo porta-voz - não tenho a menor dúvida - de uma vasta legião de incomodados classe-média com as "invasões bárbaras" dos beneficiários das políticas sociais de Lula. Essa gente não admite a mobilidade social vertical de cerca de 60 milhões de brasileiros que agora estão participando da sociedade de consumo. Então, travam essa luta agônica e muda nos aeroportos. Destilam ódio que já não é mais exclusivamente "de classe", mas "de raça", também. Óbvio, o pequeno ledor de telepromter não diz, não escreve, mas pensa: "essa macacada é um abuso, onde vamos parar com esses escrotos insuportáveis penetrando sem pedir licença no nosso róseo mundo classe-média?"

A rigor, a luta dos aeroportos é tão regressista que retrocede a um tempo anterior à luta de classes, alcança de fato a velha e perigosa luta de raças, que supunhamos já haver sido extinta pelo "progresso" civilizatório.

É difícil analisar (e mensurar) um fenômeno social dinâmico, enquanto ele está ocorrendo, mas arrisco a dizer que grande parte da reação serrista neste segundo turno se deve a essa superioridade veladamente racista da subjetividade melindrada da classe média dos grandes centros urbanos brasileiros. Essa gente vê no pobre uma ameaça iminente aos seus privilégios de classe, cuja arena de luta, hoje, são os aeroportos. Por enquanto.

Por Cristóvão Feil

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