5 de setembro de 2010

"Quem é a personagem? Quem é o autor do romance? Quem são os inúmeros sujeitos que habitam o escritor?"

Triste fim de Lima Barreto


Delírio e lucidez

Por YUDITH ROSENBAUM


POUCOS ESCRITORES brasileiros terão mais legitimidade para narrar a experiência asilar do louco do que Lima Barreto, internado duas vezes por delírios alcoólicos no Hospital Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro: a primeira entre agosto e outubro de 1914 e a segunda do Natal de 1919 a fevereiro de 1920.

O testemunho da segunda reclusão, decidida por seu irmão após dias de agônicas alucinações, constitui o relato profundo e lúcido do "Diário do Hospício". Ao lado dessas impactantes anotações autobiográficas, o leitor poderá ler o seu duplo ficcional, o romance inacabado "O Cemitério dos Vivos", escrito a partir daquelas, e que poderia ter sido, para alguns críticos, a sua obra-prima.

A edição atual, "Diário do Hospício e O Cemitério dos Vivos" [Cosac Naify, 352 págs., R$ 55], organizada pelos professores de literatura brasileira da USP Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura, com prefácio notável do crítico Alfredo Bosi, enriquece o texto com notas esclarecedoras e reacende a discussão em torno de duas obras ainda cativantes. A edição ainda traz textos de autores como Machado de Assis, Raul Pompeia e Olavo Bilac sobre o hospício carioca.

A reunião de memórias e romance recupera a unidade da publicação original, de 1953, em que "O Cemitérios do Vivos" era uma espécie de prolongamento do "Diário Íntimo" (que viria a ser o "Diário do Hospício"). Nas "Obras Completas de Lima Barreto" (1956), seu biógrafo, Francisco de Assis Barbosa, publicou história e ficção em volumes separados, enfraquecendo sua inextricável ligação.

CARGA DRAMÁTICA

O efeito de continuidade da presente edição potencializa, portanto, a carga dramática dos textos. Encontram-se, na face da ficção, trechos inteiros destacados do relato documental, perdendo-se às vezes o limite claro entre o que é próprio do imaginário romanesco e o testemunho da experiência vivida. Mas, para quem buscava na literatura apagar tais fronteiras, idealizando a representação crua e direta da realidade, não há surpresa na mistura dos dois planos.

O material, na força mesma de sua duplicidade e interpenetração, comove e instiga a uma reflexão sobre o território extremo da loucura, onde a razão se contorce e o sentido da vida se perde.

A leitura do "Diário", com sua "serena lucidez" e "ácida clareza", nas palavras do prefaciador, revela o confronto duro e a indisfarçável revolta do escritor com um quadro social de mazelas, desigualdades e opressão, que o olhar sociológico do recém-internado no setor de indigentes do manicômio não tarda a identificar:

"Sem fazer monopólio, os loucos são da proveniência mais diversa, originando-se em geral das camadas mais pobres. São imigrantes italianos, portugueses e outros mais exóticos, são os negros, os roceiros, que teimam em dormir pelos desvãos das janelas sobre uma esteira esmolambada e uma manta sórdida: são copeiros, cocheiros, moços de cavalariça, trabalhadores braçais. No meio disto, muitos com educação, mas que a falta de recursos e proteção atira naquela geena social".

INFERNO

Não será essa a única associação entre hospício e inferno, como se lê no lúgubre e lírico trecho do romance que descreve os doentes negros escurecendo o pátio da Seção Pinel:

"Só vemos uma grande abóbada de trevas, de negro absoluto. Não é mais o dia azul cobalto e o céu ofuscante, não é mais o negror da noite picado de estrelas palpitantes; é a treva absoluta, é toda ausência de luz, é o mistério impenetrável e um não poderás ir além que confessam a nossa própria inteligência e o próprio pensamento".

Comentando essa passagem, Alfredo Bosi contrasta a construção do edifício alvo e "de equilibradas linhas neoclássicas", terminado em 1852, com a população que ali se abrigava:

"As luzes do neoclassicismo trazido pela missão francesa no tempo do rei queriam ser racionais e modernas, mas dentro do solene edifício que construíram reinaria uma treva absoluta onde deveria ser encerrada a desrazão do negro e do pobre".

Na descrição romanceada da cena patética em que Lima é levado ao hospício pelas mãos da polícia, a carriola que transporta o louco "arfa que nem uma nau antiga", remetendo à nau dos loucos da Renascença, em que os insanos errantes na cidade eram embarcados para viajar sem destino ao longo dos canais flamengos e dos rios da Renânia. A impotência de quem "talvez fosse mais bem transportado num coche fúnebre de dentro de um caixão que naquela antipática almanjarra de ferro e grades" conhece, então, sua marca mais perene, que a memória precisaria exorcizar sob a forma de diário e de romance:

"Imaginei-me amarrado para ser fuzilado, esforçando-me para não tremer nem chorar, imaginei-me assaltado por facínoras e ter coragem de enfrentá-los [...], mas por aquele transe eu jamais pensei ter de passar".

ESPETÁCULO FAMILIAR

O convívio com a loucura já era, há décadas para o escritor, um espetáculo familiar. Tendo perdido, aos seis anos, a mãe tuberculosa, desde a adolescência Lima presenciava a demência do pai, antigo enfermeiro de loucos, a quem assistiu por 18 anos oscilar do mutismo absoluto aos gritos dementes. Foi a moléstia do pai em 1903 que o impediu de finalizar o curso na Escola Politécnica, sendo obrigado a sustentar a família como amanuense da Secretaria de Guerra.

A vida atormentada na casa da Vila Quilombo (assim apelidada pelo ficcionista) teria solapado seus sonhos de glória e realização, frustrados tanto pela pobreza sem remédio quanto pelo desprezo que lhe tinham os representantes do cânone beletrista da época.

Estes, aliás, nunca seriam poupados pela pena ácida desse mulato anarquista na República pós-abolicionista, em romances e crônicas, bradando contra "os sabichões enfatuados, abarrotados de títulos e tiranizados na sua inteligência pelas tradições de escolas e academias e por preconceitos livrescos e de autoridades", nas palavras do narrador de "O Cemitério dos Vivos".

Dos encontros que teve com os especialistas em doença mental, Lima Barreto soube discriminar afetos e competências. Do talentoso dr. Juliano Moreira, à frente do sanatório de 1903 a 1930, um dos primeiros a trazer a modernidade da psicanálise para a psiquiatria brasileira, o paciente guarda boas recordações.

Quanto aos jovens alienistas, de "fé inabalável na ciência", critica-lhes a falta de um olhar compreensivo sobre a diversidade de patologias, "mais livre de construções lógicas a priori, para se chegar à verdade".

Aguda consciência, sem dúvida, deste que ocupa um lugar peculiar em meio a doentes de todo tipo, por ser e não ser ele mesmo um insano (pelo menos no sentido da estreita taxonomia psiquiátrica), atribuindo seus delírios ao alcoolismo:

"De mim para mim, tenho certeza que não sou louco; mas devido ao álcool, misturado com toda espécie de apreensões, que as dificuldades de minha vida material há seis anos me assoberbam, de quando em quando dou sinais de loucura: deliro".

É na condição de um "estranho familiar" que o memorialista transita pelo sombrio espaço do casarão da praia da Saudade, na baía de Guanabara, reconhecendo-se um solitário entre iguais:

"Estou entre mais de uma centena de homens, entre os quais passo como um ser estranho. Não será bem isso, pois vejo bem que são meus semelhantes. Eu passo e perpasso por eles como um ser vivente entre sombras -mas que sombras, que espíritos?!".

DENTRO E FORA

Talvez seja justamente por habitar esse incômodo intervalo entre o dentro e o fora -espaço mesmo dos desarrazoados, mas não propriamente dos loucos- que pode Lima Barreto descortinar, nas bizarras cenas que presenciou, uma visão própria e mais avançada da loucura do que supunha o modelo psiquiátrico tradicional, ainda vigente na República Velha (1889-1930).

Em primeiro lugar, sua mirada flagra a singularidade que rege a demência, onde é impossível uma impressão geral, mas apenas fatos individuais: "Não há espécies, não há raças de loucos, mas loucos só". Opõe-se, assim, o alienado à visão determinista da ciência mental da época, propensa a classificações reducionistas.

Em segundo lugar, sua fina observação acusa a insensibilidade de profissionais do hospital na relação com os doentes. Numa passagem do romance, lê-se todo o terror diante de um dos médicos, desejoso de testar novidades no seu tratamento de alcoolismo:

"Pela primeira vez, fundamentalmente, eu senti a desgraça e o desgraçado. Tinha perdido toda a proteção social, todo o direito sobre o meu próprio corpo, era assim como um cadáver de anfiteatro de anatomia".

Notando a pluralidade das manifestações da loucura, a certo momento comenta o narrador do "Diário": "Debruçar sobre o mistério dela e decifrá-lo parece estar acima das forças humanas. Conheço loucos, médicos de loucos, há perto de trinta anos, e fio muito que a honestidade de cada um deles não lhes permitirá dizer que tenha curado um só". Ceticismo apenas comparável ao de Machado de Assis no conto "O Alienista".

E completa com este comentário sobre as práticas reformistas, mas atrasadas, dos alienistas ainda herdeiros das teses racistas e preconceituosas da antropologia criminal de Cesare Lombroso, na Itália, e Nina Rodrigues, no Brasil:

"Amaciado um pouco, tirando dele a brutalidade do acorrentamento, das surras, a superstição das rezas, exorcismo, bruxarias etc., o nosso sistema de tratamento da loucura ainda é o da Idade Média: o sequestro".

SONDAGEM DE SI MESMO

A ausência quase total de uma atitude mais humana na instituição manicomial, relegando a subjetividade dos doentes ao vazio, impele o autor a uma corajosa sondagem de si mesmo, como para compensar as lacunas de uma interlocução inexistente:

"Como é que eu, em 24 horas, deixava de ser um funcionário do Estado, com ficha na sociedade e lugar no orçamento, para ser um mendigo sem eira nem beira, atirado ali que nem um desclassificado?"

E aqui se coloca, com a maior pertinência, a pergunta de Alfredo Bosi: "Sem o exame dos sentimentos e ressentimentos do escritor frustrado como poderiam os psiquiatras de plantão entender os motivos que levaram o suposto alienado a embriagar-se até chegar às raias do delírio?".

Para o crítico, "é da relação íntima entre os gestos e palavras dos alienados e as violências e arbítrios da sociedade abrangente que deve ser extraída a matéria da contraideologia rebelde de Lima Barreto".

Quando a introspecção melancólica do narrador cede lugar à percepção da exterioridade, surge um inventário multiforme das idiossincrasias e peculiaridades dos loucos, delirantes, megalômanos, paranoicos e criminosos psicopatas com quem Lima Barreto conviveu durante as internações. De uns, destaca a "inteligência formidável", de outros "as rezas estapafúrdias", "a terminologia escatológica", "os delírios de grandeza", sempre atento, no que tange à sua escrita, "para não quebrar a lógica mórbida com a qual articulavam seus desatinos".

VOCAÇÃO

Aliás, o interesse de Lima pelas alterações da linguagem dos loucos denuncia a vocação do literato, instigado por estranhas combinações semânticas, pela língua trôpega, por balbucios e tatibitate da fala regredida, por interpretações hostis inesperadas. Tudo isso lhe causa perplexidade e descrença em algum possível sentido unificador. A síntese dessa babel da linguagem, porém, aparece nas páginas de "O Cemitério dos Vivos": "O horror misterioso da loucura é o silêncio, são as atitudes, as manias mudas dos doidos".

Destaco uma passagem do "Diário" que traz um fulgor poético inesperado para um relato confessional. Assim o escritor descreve o mutismo de um matuto de Cabo Frio (RJ), atônito e silencioso: "Ama o silêncio e estar de pé. Encostado à parede, hirto, olhos parados, sem brilho nem expressão qualquer, parece uma estátua egípcia, um cimélio de templo".

Sobre um outro louco, engenheiro, "com presunção de anelado brasileiro", anota um traço digno de seu Policarpo Quaresma: "O seu orgulho não parecia vir do título, mas de um sentimento desmedido da sua aptidão para endireitar a pátria".

Mas não só o triste major de seu grande romance padecia de ilusões. Lima Barreto sabia-se talentoso e almejava glória e reconhecimento. Inconformado em não tê-los na medida de seu sacrifício, desesperava-se: "Arrependo-me de tudo, de não ter sido um outro, de não seguir os caminhos batidos e esperar que eu tivesse sucesso, onde todos fracassaram. [...] Tenho orgulho de me ter esforçado muito para realizar o meu ideal; mas me aborrece não ter sabido concomitantemente arranjar dinheiro ou posições rendosas que me fizessem respeitar. Sonhei Spinoza, mas não tive força para realizar a vida dele; sonhei Dostoiévski, mas me faltou a sua névoa".

Cindido entre aspirações e condições limitantes, o protagonista do "Diário" e da ficção inverte o anelo glorificante e chega a desejar uma "vida plácida, serena, medíocre e pacífica, como a de todos". Ou ainda: "Queria matar em mim todo desejo, aniquilar aos poucos a minha vida e suprir-me no todo universal". A autodestruição pela bebida vem atender ao apelo das pulsões de morte. Assim ele relata o suicídio de um dos internos, que quebra a monotonia do hospício:

"Suicidou-se no Pavilhão um doente. O dia está lindo. Se voltar a terceira vez aqui, farei o mesmo. Queira Deus que seja o dia tão belo como o de hoje".

Como diz o biógrafo Assis Barbosa em "A Vida de Lima Barreto": "No álcool procurava anular-se por completo, ser esquecido, desaparecer. Na literatura, ao inverso, tentava afirmar-se, ser alguém, deixar em suma a marca de sua passagem na terra". Para um apologeta da autonomia política e estética, resistindo aos desmandos de qualquer cartilha, soa irônica a ruína a que foi levado pela dependência absoluta da bebida.

DA MEMÓRIA À FICÇÃO

Resta, ainda, comentar a curiosa passagem das memórias à ficção. Há, obviamente, certos expedientes que ficcionalizam os acontecimentos do "Diário", como por exemplo a criação da personagem protagonista Vicente Mascarenhas, alter ego do escritor, além de uma tênue construção da história do seu matrimônio com Efigênia, sem paixão e por demanda de uma jovem necessitada, um filho com sinais de retardamento e uma sogra demente -tudo isso inexistente na vida real de Lima Barreto, que não teria tido um único caso amoroso.

Chama a atenção, portanto, a aparição algo enigmática dessa esposa fictícia também no "Diário", quebrando o tom factual e realista das memórias: "Não amei nunca, nem mesmo minha mulher que é morta e pela qual não tenho amor, mas remorso de não tê-la compreendido".

É com a morte da mulher Efigênia que o romance propriamente se inicia, deixando o sentimento de culpa do viúvo como fator movente de sua narrativa. "Ao mesmo tempo", comenta Alfredo Bosi, "é essa aparição-fantasma, que a psicanálise poderia interpretar em termos de Thânatos sobrepondo-se a Eros".

O vulto feminino só vem à luz em toda a sua integridade pelo olhar de compaixão do intelectual frustrado, o que nos lembra, "mutatis mutandis", a Madalena de Paulo Honório, em "São Bernardo", de Graciliano Ramos, ela também redescoberta em sua sublime humanidade pela escrita amargurada do marido, que não a soube amar.

DANÇA DOS NOMES

Notam-se, ainda, as mudanças constantes, nos manuscritos de "O Cemitério dos Vivos", dos nomes das personagens: Flamínio, Fortunato e Torres se intercabiam no lugar do protagonista Mascarenhas, Candinha para Clementina, Misael por Messias, entre outros.

Em se tratando de um relato da exclusão manicomial, poderíamos inferir que a dança dos nomes reflete desdobramentos de uma personalidade flutuante, que busca, de forma penosa, firmar-se pela narrativa.

Quem é a personagem? Quem é o autor do romance? Quem são os inúmeros sujeitos que habitam o escritor? Estamos na emergência do "zeitgeist" psicanalítico, que traz novas feições para o homem do início do século 20, dividido e conflituado, e que perpassam as amargas lembranças do hospício para se insinuarem, com seus recalques e dissimulações, nas malhas da ficção.

Por fim, cabe sublinhar a recorrência das imagens marítimas, tanto no "Diário", quanto no romance, refletindo sobre o seu belo e triste simbolismo. A primeira aproximação é degradante e acusatória: "O doente é um náufrago, um rebotalho da sociedade".

A seguinte toma a paisagem entrevista pelas grades do hospício e faz da navegação metáfora da alforria do doente encarcerado:

"Um grande transatlântico sai, vai vagaroso, vai para o mar largo que se estende pelas cinco partes do mundo; beija-lhes e morde-lhes a praia. Corre perigo, mas está solto, entre dois infinitos: como diz o poeta: o mar e o céu".

Na sequência, outro trecho significativo: "Sonhei-me um Capitão Nemo, fora da humanidade, só ligado a ela pelos livros precisos, notáveis ou não, que me houvessem impressionado, sem ligação".

A evasão pelo mar é inequívoca: anseio simultâneo de vida e morte pela dissolução absoluta. Retornamos à figura inicial da nau dos loucos, explorada pelo filósofo Michel Foucault em sua "História da Loucura".

Assim ele a comenta: "A navegação entrega o homem à incerteza da sorte; nela, cada um é confiado ao seu próprio destino; todo embarque é, potencialmente, o último. É para outro mundo que parte o louco em sua barca louca; é do outro mundo que ele chega quando desembarca".

O navegante Lima Barreto afogou-se em outras águas, muito distantes de seu sonho. Morreu aos 41 anos, no ano modernista de 1922, dois dias antes de seu pai. Deixou no "Diário" e no romance uma prosa viva de denúncia e de íntimas descobertas. Na última frase do manuscrito de ficção, a marca da exclusão, da solitude e do lugar intervalar que nunca soube ultrapassar:

"Fiquei só no vão da janela".

Publicado na Folha de S. Paulo em 5 de setembro de 2010.

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