12 de setembro de 2010

Os intelectuais e o Estado Novo

Na última semana andei discutindo com meus alunos de Hsitória do Brasil Contemporâneo, na UFPI, sobre as relações entre os intelectuais e o Estado Novo. Coincidentemente, hoje a Folha publica trechos de uma carta de Graciliano Ramos a Getúlio Vargas. Por esta razão, compartilho a matéria abaixo:

De Graciliano para Getúlio


Em carta nunca enviada a presidente, escritor comenta os 11 meses que passou em prisão

Por MARCELO BORTOLOTI

DO RIO

Pouco mais de um ano após ter deixado a cadeia, onde esteve preso durante 11 meses por associação ao comunismo na ditadura de Getúlio Vargas, o escritor Graciliano Ramos -autor de clássicos como "Vidas Secas" e "Memórias do Cárcere"- escreveu uma carta ao então presidente.

O documento, datado de agosto de 1938, não chegou a ser enviado, mas faz parte de pesquisa em andamento na Faculdade de Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo.

O objetivo da pesquisa de Sonia Jaconi é analisar os métodos administrativos do escritor, considerados dinâmicos e revolucionários para a época -entre outros cargos públicos, foi prefeito da pequena cidade de Palmeira dos Índios, em Alagoas, entre 1928 e 1930.

Na carta, Graciliano não usa palavras duras, mas trata com bastante ironia o episódio de sua prisão e o fato de o presidente ser seu "colega de profissão" -na época, a editora José Olympio lançava um livro com discursos de Vargas e tiragem de 50 mil exemplares. "Vossa Excelência é um escritor", ironizou.

Ele alude à falta de razões para ter sido preso, quando era secretário de Educação em seu Estado.

"Em princípio de 1936 eu ocupava um cargo na administração de Alagoas. Creio que não servi direito: por circunstâncias alheias à minha vontade fui remetido para o Rio de maneira bastante desagradável."

"Percorri vários lugares estranhos e conheci de perto vagabundos, malandros, operários, soldados, jornalistas, médicos, engenheiros e professores da universidade. Só não conheci o delegado de polícia, porque se esqueceram de interrogar-me."

Graciliano também fala da falta de emprego a que acabou condenado, já que seus algozes o tiraram de Maceió e, depois de soltá-lo, não lhe arrumaram nova colocação.

"Até hoje ignoro por que se deu semelhante desastre". E despede-se com elogios: "Apresento-lhe os meus respeitos, senhor presidente, e confesso-me admirador de Vossa Excelência".

O rascunho foi guardado por James Amado, irmão de Jorge Amado, casado com a filha de Graciliano, Luiza Ramos. Hoje existem duas cópias. Uma na Casa Museu Graciliano Ramos, em Palmeira dos Índios, e outra em poder do pesquisador Wander de Melo Miranda, diretor da Editora UFMG.

"Acho que ele nunca teve a intenção de enviar a carta. Foi um desabafo íntimo, uma necessidade de expressar sua revolta através da ironia", diz Miranda.

Um ano depois de tê-la escrito, Graciliano foi nomeado inspetor federal de ensino secundário do Rio de Janeiro, cargo que recebeu de Gustavo Capanema, então ministro da Educação do próprio governo Vargas.

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Talento de escritor foi descoberto em relatórios de gestão


O escritor Graciliano Ramos deve muito à sua experiência como prefeito da pequena cidade de Palmeira dos Índios, em Alagoas.

Foi depois de ler relatórios nos quais ele prestava contas da gestão que o editor Augusto Frederico Schmidt descobriu sua veia literária e apostou na publicação de seu primeiro romance, "Caetés".

Nestes relatórios, publicados após sua morte no livro "Viventes das Alagoas", Graciliano usa de ironia e talento ao lamentar, por exemplo, o contrato do prefeito anterior com a concessionária de energia: "Apesar de ser o negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras".

O município, por sua vez, também deve muito ao prefeito. Embora tenha renunciado dois anos após sua posse, em 1928, Graciliano governou com preceitos de um administrador moderno.

Ele saneou as contas públicas, enxugou o quadro de funcionários, baniu a prática de criar galinhas e porcos nas ruas, construiu estradas e escolas, reformou o código tributário municipal e passou a cobrar os impostos de forma rigorosa.

Com o choque de ordem, ganhou inimigos e foi alvo de um atentado a tiros em 1929.

Candidato único, Graciliano elegeu-se com 433 votos, quando a cidade tinha cerca de 10 mil habitantes e o voto não era obrigatório.

Havia um clima político conturbado. Seu antecessor, Lauro de Almeida Lima, tinha sido assassinado por um fiscal de impostos enviado pelo governador do Estado.

Para substituí-lo, os coronéis da política local precisavam de um nome inatacável do ponto de vista ético. Aos 35 anos, Graciliano, pai de quatro filhos (dos oito que viria a ter), era um comerciante bem sucedido, dono da loja Sincera, que vendia tecido.

"Ele era conhecido por sua postura honesta e organizada, que cumpria com horários e compromissos", diz Sônia Jaconi, autora de pesquisa sobre ele na Universidade Metodista de SP.

Candidatou-se pelo Partido Democrata, um detalhe desconfortável na vida do escritor que seria conhecido pela militância comunista.

Eleito, anunciou que não iria compactuar com o clientelismo vigente num município onde, segundo ele, "cada pedaço tinha sua administração particular".

Seu código tributário estabelecia para os mais ricos carga de impostos maior. Ele próprio fazia a contabilidade do município. Por vezes entregava as cobranças pessoalmente.

Sua austeridade incomodou muita gente, inclusive seu pai, o coronel Sebastião Ramos de Oliveira. Certa vez, ao recusar o pagamento do tributo, ele ouviu do filho a frase: "Prefeito não tem pai".

Em 1930, Graciliano renunciou ao cargo, diante do convite para ser diretor da Imprensa Oficial de Alagoas, com salário melhor e possibilidade de morar na capital.

Publicado na Folha de S. Paulo em 12/09/2010.

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