5 de setembro de 2010

"Nunca Lima Barreto foi tão atual. Nunca esteve tão vivo. Nunca foi tão urgente".

A fênix republicana


Lima Barreto atual e urgente



RESUMO

Nova edição dos contos de Lima Barreto, a ser lançada em outubro, com notas, estudo crítico e textos inéditos, consagra o escritor como nome central na cultura brasileira, por seu valor literário, histórico e social. A peça "Policarpo Quaresma", em cartaz em São Paulo, também confirma a atualidade e a ousadia de sua obra.

Por NICOLAU SEVCENKO

NO DIA DE TODOS OS SANTOS, 1º de novembro de 1922, sob uma chuva fina e renitente, que corria solta enlameando a ladeira íngreme, de terra batida, da rua Major Mascarenhas, no subúrbio de Todos os Santos, Rio de Janeiro, saía o enterro de Lima Barreto, diretamente de sua casa, por ele mesmo denominada Vila Quilombo.

Eram poucos os amigos que seguravam as alças do caixão, em passo lento e vacilante sobre o barro escorregadio, descendo em direção à estação local, onde o corpo ficaria na plataforma, à espera do vagão funerário da Central do Brasil, que o levaria ao cemitério São João Batista, em Botafogo, onde Lima pedira para ser enterrado. Um percurso que ele fizera em vida quase todos os dias, cruzando a cidade da sua periferia profunda até o centro distinto.

O jovem escritor Eneias Ferraz, que se referia a Lima como "o Mestre", um dos poucos amigos presentes, relatou assim a procissão que desceu a ladeira, silenciosa, sob chuva inclemente: "À tarde, o enterro saiu, levado lentamente pelas mãos dos raros amigos que lá foram. Mas, ao longo das ruas suburbanas, de dentro dos jardins modestos, às esquinas, à porta dos botequins, surgia, a cada momento, toda uma multidão anônima e vária que se ia incorporando atrás do seu caixão, silenciosamente. Eram pretos em mangas de camisa, rapazes estudantes, um bando de crianças das vizinhanças (muitos eram afilhados do escritor), comerciantes do bairro, carregadores em tamancos, empregados da estrada, botequineiros e até borrachos..." (citado na excelente biografia de Francisco de Assis Barbosa, "A Vida de Lima Barreto", Edusp/Itatiaia, 1988).

DITADURA DO SILÊNCIO

Impossível não lembrar do gênio poético inigualável de Cruz e Souza, morto 20 anos antes e enterrado pela caridade dos poucos amigos, sob idênticas circunstâncias da mais constrangedora miséria e indiferença pública. Ambos praticamente só queridos e homenageados pelos humildes dentre os quais viveram. Ambos eram negros, por certo, mas o que em definitivo selou seu destino foi sua integridade intelectual e independência de espírito, sua determinação em não ceder às modas, aos grupos literários dominantes, às hierarquias e lideranças postiças, aos maquinismos promocionais que fazem e desfazem reputações.

Pagaram um preço alto, muito alto. Foram vítimas de um boicote sistemático ao seu talento superior, às suas obras e às suas mais que legítimas aspirações ao reconhecimento público. A simples menção de seus nomes, por escrito ou em sociedade, era considerada tabu. Foram estigmatizados pelo mais cruel dos métodos de anulação do mérito artístico e intelectual, o que Lima Barreto chamava de "a ditadura do silêncio".

Essa ditadura tem sido longa e especialmente perversa no caso de Lima. Embora colaborasse em inúmeros jornais e revistas de seu tempo, teve apenas cinco de seus livros publicados em vida, boa parte com seus pobres e limitados recursos, em pequenas edições, simples e malcuidadas, com escassa repercussão. Claro, os grandes de seu tempo, que por serem realmente talentosos eram independentes como ele, sempre o louvaram, reconhecendo sua verve satírica, a lucidez crítica e sua sofisticada versatilidade literária: José Veríssimo, Capistrano de Abreu, João Ribeiro, Amadeu Amaral, Ribeiro Couto, Manuel Bandeira, Di Cavalcanti, Monteiro Lobato, Jackson de Figueiredo, Graciliano Ramos, Sérgio Buarque de Holanda, entre tantos outros.

Mas para os grupos que condicionam a crítica oficial ou institucional, Lima ficaria rotulado como um "raté", um "loser": sua prosa seria deficiente, gramaticalmente incorreta, vulgar, seu estilo seria inconsistente, suas personagens e histórias rasas e sua sátira grosseira. Enfim, ele seria um escritor menor, de um período literariamente fraco e obscuro, entre o declínio de Machado e a Semana de Arte Moderna (1922).

Da mesma forma que sua vida causava certa piedade e uma mal contida repugnância (subúrbio, pobreza, solidão, alcoolismo, esquizofrenia, desasseio, doença, morte precoce), sua literatura recenderia a frustração, inveja, ressentimento, amargor e vergonha do fracasso. Como se vê, a ditadura do silêncio que o flagelou em vida, após a morte descambou para a distorção, resvalando para a detração e a aleivosia.

TESOURO

A sorte literária de Lima Barreto só começou a mudar em meados dos anos 40, quando o editor Zélio Valverde decidiu resgatar o que havia do espólio de Lima Barreto e publicar tudo numa coleção em vários volumes. Para isso, nomeou seu jovem assistente Francisco de Assis Barbosa, encarregando-o, em paralelo, de escrever uma ampla e sólida biografia do escritor. No processo da pesquisa, Assis Barbosa fez o levantamento de todos os originais, papéis e documentos remanescentes do espólio e convenceu Rubens Borba de Morais, diretor da Biblioteca Nacional, a comprar todo o acervo dos herdeiros, incorporando o conjunto como um dos tesouros da sessão de manuscritos.

O momento decisivo, porém, foi quando, em 1955, Caio Prado Jr. (que definia Lima como "o mais importante escritor brasileiro de todos os tempos") resolveu comprar os direitos da família, encarregando Francisco de Assis, Raymundo Magalhães Jr. e Antonio Houaiss de estabelecer os textos e publicar a obra completa de Lima Barreto pela editora Brasiliense. Do projeto resultou uma coleção em 17 volumes, prefaciados por um grupo de intelectuais do mais alto calibre, que veio a público em 1956.

Infelizmente, porém, as provas finais da coleção não foram repassadas aos organizadores, o que deu margem a uma série de deslizes e incorreções. De qualquer modo, com a biografia escrita por Francisco de Assis e publicada em 1952, esse conjunto deu ensejo a uma nova visão e a um reconhecimento, ainda que tardio, do valor singular e exponencial da obra de Lima Barreto.

Em 1981, no centenário de nascimento do escritor, a Biblioteca Nacional organizou a exposição "O Rio de Janeiro de Lima Barreto", baseada no acervo da seção de manuscritos e em novas fontes de material fotográfico sobre a cidade, projetando a importância da sua obra para toda uma nova geração de pesquisadores acadêmicos. Os estudos começaram a proliferar a partir de então e a cada dia ficava mais e mais evidente o caráter multifário e a riqueza dessa obra, não apenas para os estudos literários, mas para a história da cultura como um todo.

CONSAGRAÇÃO

A nova edição dos "Contos Completos de Lima Barreto" [Companhia das Letras, 336 págs., preço a definir], que será lançada em outubro com organização, apresentação, estabelecimento de texto e notas da professora na USP Lilia Moritz Schwarcz, é um manifesto clamoroso não só do fim da "ditadura do silêncio", mas sobretudo da consagração do escritor como uma das figuras seminais da cultura brasileira. A coletânea, que contou com a colaboração da pesquisadora Lúcia Garcia para o confronto de textos originais e de diferentes publicações e a elaboração das notas, propicia uma prodigiosa visão de conjunto dos contos, antes dispersos em diferentes edições, sob diferentes critérios e sem um gabarito que lhes desse articulação literária e editorial.

Baseada na coleção de manuscritos da Biblioteca Nacional e contendo uma preciosa seção de textos e anotações inéditas do autor, a pesquisa é mais que oportuna para que se possa penetrar numa dimensão ainda mal avaliada e mal assimilada do universo imaginário de Lima Barreto. Uma dimensão em particular onde ele destila o melhor de sua crítica lancinante, sua mordacidade implacável e seu humor corrosivo.

A apresentação de Lilia Schwarcz é um ensaio erudito e de grande valor heurístico: não apenas recompõe as circunstâncias que envolvem inextricavelmente a vida e a obra de Lima Barreto, mas procede a uma ampla revisão da sua fortuna crítica, pondo em perspectiva as linhas mais salientes de estudos e interpretações de sua trajetória e de seus escritos.

A partir de sua competência híbrida de historiadora e antropóloga, ela repõe o percurso atribulado e as ousadias de Lima, como escritor, jornalista e tribuno da justiça social, na senda dos intelectuais negros da diáspora nas Américas (Estados Unidos, Caribe, Brasil), inspirada nas reflexões de W.E.B. Du Bois e Paul Gilroy, por um lado, e de Frederik Bath e Manuela Carneiro da Cunha, de outro. Horizontes ainda incipientes, mas prodigiosamente promissores para a configuração da complexa história do Atlântico afro-americano.

CAMISA DE FORÇA

A definição da coletânea sob a categoria geral de contos poderá surpreender alguns leitores desprevenidos, já que, como Lilia Schwarcz adverte, para Lima quaisquer rigores formais eram camisas de força que ele se recusava terminantemente a vestir. Seu objetivo fundamental era a comunicabilidade direta com o maior público leitor possível, num país travado pelo analfabetismo em suas diferentes versões.

Nesse sentido, sua literatura assume múltiplas formas simultaneamente, num impulso proteico de tudo assimilar e tudo irradiar. Impossível dizer de seus romances se são "romans à clef", sátiras, alegorias, comédias ou tragicomédias. Assim como suas novelas não se distinguem dos contos ou os contos das crônicas, das parábolas, dos epigramas ou dos registros autobiográficos.

Os contos, ademais, concebidos nessa ampla matriz formal, imprecisa e imprevisível, constituíam para ele uma espécie de campo experimental, em que ele podia ter rédeas livres para exprimir a mais rica polifonia de vozes urbanas e suburbanas. Nos diálogos, protestos e sussurros da babel carioca, ele cristaliza com rara eficácia os quadros de valores e de preconceitos dos diferentes extratos sociais, difundidos numa geografia dialógica que constitui o próprio front das tensões e disputas, tanto do espaço quanto da esfera pública. Esses contos expõem as mazelas congênitas da jovem República, os desmandos dos poderosos, as misérias, humilhações e esperanças das gentes mantidas fora ou à margem da cidadania.

RIGOR E CRUEZA

A acuidade crítica de Lima Barreto é de um rigor e uma crueza implacáveis. Ele é provavelmente o único intelectual que manifestou uma compreensão sistemática da mecânica política corrompida e corruptora do regime republicano desde suas origens. Costumava chamar o regime de "societas sceleris", sociedade criminal ou, mais singelamente, de "república dos velhacos". Denunciava as eleições manipuladas, em que o sucessor da Presidência era decidido no próprio palácio presidencial. Denunciava o clientelismo generalizado, através do qual não apenas o Legislativo e o Judiciário eram controlados pelo Executivo, como também a população em geral era submetida, pela violência quando necessário e pelo assistencialismo oportunista sempre que possível.

Ele expunha claramente como a República se compunha em duas oligarquias complementares: a oligarquia dominante e a alternativa. Eram basicamente as mesmas estruturas, aliadas do mandonismo regional mais retrógrado, mas cada qual se pretendia mais "progressista" que a outra.

Ambas manipulavam o câmbio, controlavam os sindicatos, patrocinavam a imprensa, orquestravam a opinião pública, gerenciavam partidos de massa, catalisando as aspirações arrivistas pelos cargos, pelas oportunidades, pelos privilégios, ao mesmo tempo que administravam a penúria dos miseráveis pelos impostos, pelas regulamentações e pelas tutelas. Entre si, se juravam de morte, mas eram as duas faces da mesma República, que ora se revezavam no poder, ora se solapavam pela calúnia, pela difamação, pelo golpismo. Alguma semelhança com o panorama atual, passados quase que cem anos?

POLICARPO

Pois é, se essa coletânea de contos é um marco na recuperação da relevância, contundência e atualidade da obra de Lima Barreto, outro marco é, sem dúvida, a montagem do "Policarpo Quaresma" pelo Centro de Pesquisa Teatral do SESC, sob a direção de Antunes Filho [SESC Consolação, de sexta a domingo, até 31/10, de R$5 a R$20]. Ambos vieram a calhar e são imperdíveis. O que a "Carta de Caminha" é para o "descobrimento" do Brasil, assim o "Policarpo" é como o atestado de nascimento da República no país. A mesma candura, o mesmo frescor, os mesmos presságios.

Por outro lado, quase todos os comentadores do "Policarpo" propõem uma analogia com o "Dom Quixote". Tal como o personagem de Cervantes, Policarpo Quaresma também remete a um mundo ideal, um universo idílico do nacionalismo romântico, em que todo brasileiro é um cruzado em luta pela emancipação do Brasil, plenamente realizado na riqueza ingente de seu prodigioso patrimônio natural, na bondade intrínseca e alegria espontânea de seu povo e na clarividência e generosidade desinteressada de sua liderança política.

Construída essa magia pela pena chocarreira de Lima Barreto, começa o desmoronamento. Embora todo o discurso legitimador do regime republicano se baseie nesse conto de fadas verbal, de modo que o golpe contra o Império se justificaria então por essa nova perspectiva emancipadora, próspera, liberal, democratizante, a realidade por trás da bela fábula é a da "societas sceleris", da "república dos velhacos".

A graça da história é que essa ficha demora para cair na consciência do bom e honesto Policarpo. A aflição dos leitores vai se intensificando à medida que, frustração após frustração, ele reluta em admitir que o problema decisivo da corrupção geral provém da liderança mesmo do regime. Apenas seu confronto direto com o patrono tutelar da oligarquia "dissidente", na figura sinistra de Floriano Peixoto, faz caírem todas as ilusões. A ingenuidade de Policarpo, porém, tal como a de uma criança, lhe permite expor a realidade crua do regime como o menino da lenda, alardeando que o rei estava nu.

ABSURDISMO

A montagem de Antunes desse autêntico documento fundador da República é estarrecedora. Ele concentra no palco como que um sumário das artes cênicas do século 20. Desde as origens do teatro e do cinema modernos, do "Ubu Rei", de Alfred Jarry, ao Carlitos de Charles Chaplin, passando por Pirandello, Samuel Beckett, Peter Brook e Leni Riefenstahl (em revisão paródica), desfila situações absurdistas em que a promessa da modernidade se configura como a mais atualizada versão do velho inferno. O desejo obstinado de acreditar num ideal retórico e farsesco, por mais que a realidade lhe imponha decepções e desencantos, por mais que seus líderes se revelem deslavados crápulas, o arrasta para um fim tão trágico como inevitável.

O que mais encanta e hipnotiza é que Antunes é um mestre do coro. Há diretores que se exprimem sobretudo através da força dos personagens. Outros introduzem sua visão mais pessoal pelo encaminhamento da trama dramática. Antunes se comunica predominantemente pela energia flamejante do coro, suas montagens são literalmente coreográficas. Essa é a fonte mais original do teatro. Na encenação grega, os protagonistas são cruciais para desencadear o enredo dramático, mas é o coro que realiza o mistério da transubstanciação dionisíaca. É assimilada no coletivo que se dá a ressurreição de Dioniso em cena, não na circunstância particular vivida pelos atores.

Na montagem do "Policarpo Quaresma", Antunes realizou esse ritual com uma eficácia sublime. O coro, ora travestido em camisolões de loucos do hospício, ora fardado como recrutas do Exército, ora como fiéis devotos do grande líder carismático, ora como militantes agitando bandeiras cegamente, como no "Triunfo da Vontade", de tão trágica memória, fornecem o retrato mais cru e realista que se possa imaginar da República brasileira, desde a fundação até esse ano da graça de 2010.

A certa altura as formigas surgem como o bode expiatório, o inimigo público que deve ser destruído sob as botas para desentravar a prosperidade geral. O coro é tomado de um transe unânime e agressivo, pisando e gritando compulsivamente, como num culto de exorcismo. Policarpo conclui a cena com um sapateado mortífero, acompanhando os acordes do Hino à República. Nunca Lima Barreto foi tão atual. Nunca esteve tão vivo. Nunca foi tão urgente.

Publicado na Folha de S. Paulo, em 5 de setembro de 2010.

Um comentário:

Chico Arruda disse...

Excelente texto parabéns pela postagem e por, assim como eu, gostar tanto deste nosso mulato brasileiro que fora e talvez ainda seja tão incompreendido. Sou Mestrando em Literatura Brasileira pela UERJ e trabalho justamente Lima Barreto como intelectual orgânico na obra Os Bruzundangas, gostei muito do texto, emocionante e incisivo como Lima.