26 de setembro de 2010

Imprensa independente??? Ou seria empresa independente?

O Editorial da Folha de S. Paulo de hoje, domingo, 26 de setembro de 2010, é uma pérola discursiva que merece leitura e análise. Sobretudo porque estamos a uma semana da eleição presidencial e porque sua irmã congênere, de periodicidade semanal, a nefasta Veja, também invoca na capa o princípio da liberdade de imprensa.

Em 2007, num artigo para o jornal O Globo, Ali Kamel defendia o prinicípio da imparcialidade na grande imprensa. Agora vemos o editorial da Folha e a Veja também. Dessa forma, a academia não pode negligenciar o tema. Enquanto os oligopólios de mídia insistirem em anunciar que são neutros, independentes e imparciais, nós, pesquisadores, temos pela frente a tarefa de desnudar o rei, de mostrar o quanto esses veículos defendem interesses e candidaturas específicas, funcionando como indiscutíveis aparelhos ideológicos privados.

No mais, degustem o tal editorial e reflitam, com senso crítico e situando tudo isso na história. Vale lembrar que Folha apoiou abertamente a ditadura militar e tem sido um fiel escudeiro do PSDBismo neoliberal nas últimas décadas. Olho vivo!

Em tempo, os sublinhados são meus, para chamar a atenção do leitor. E é claro, todo poder tem limite. A Folha que se cuide!

Todo poder tem limite


Os altos índices de aprovação popular do presidente Lula não são fortuitos. Refletem o ambiente internacional favorável aos países em desenvolvimento, apesar da crise que atinge o mundo desenvolvido. Refletem,em especial, os acertos do atual chefe do Estado.

Lula teve o discernimento de manter a política econômica sensata de seu antecessor. Seu governo conduziu à retomada do crescimento e ampliou uma antes incipiente política de transferências de renda aos estratos sociais mais carentes.A desigualdade social, ainda imensa, começa a se reduzir. Ninguém lhe contesta seriamente esses méritos.

Nem por isso seu governo pode julgar-se acima de críticas.O direito de inquirir,duvidar e divergir da autoridade pública é o cerne da democracia, que não se resume apenas à preponderância da vontade da maioria.

Vai longe, aliás, o tempo em que não se respeitavam maiorias no Brasil. As eleições são livres e diretas, as apurações, confiáveis -e ninguém questiona que o vencedor toma posse e governa.

Se existe risco à vista, é de enfraquecimento do sistema de freios e contrapesos que protege as liberdades públicas e o direito ao dissenso quando se formam ondas eleitorais avassaladoras, ainda que passageiras. Nesses períodos, é a imprensa independente quem emite o primeiro alarme, não sendo outro o motivo do nervosismo presidencial em relação a jornais e revistas nesta altura da campanha eleitoral.

Pois foi a imprensa quem revelou ao país que uma agência da Receita Federal plantada no berço político do PT, no ABC paulista, fora convertida em órgão de espionagem clandestina contra adversários.

Foi a imprensa quem mostrou que o principal gabinete do governo, a assessoria imediata de Lula e de sua candidata Dilma Rousseff, estava minado por espantosa infiltração de interesses particulares. É de calcular o grau de desleixo para com o dinheiro e os direitos do contribuinte ao longo da vasta extensão do Estado federal.

Esta Folha procura manter uma orientação de independência, pluralidade e apartidarismo editoriais, o que redunda em questionamentos incisivos durante períodos de polarização eleitoral.

Quem acompanha a trajetória do jornal sabe o quanto essa mesma orientação foi incômoda ao governo tucano. Basta lembrar que Fernando Henrique Cardoso, na entrevista em que se despediu da Presidência, acusou a Folha de haver tentado insuflar seu impeachment.

Lula e a candidata oficial têm-se limitado até aqui a vituperar a imprensa, exercendo seu próprio direito à livre expressão, embora em termos incompatíveis com a serenidade requerida no exercício do cargo que pretendem intercambiar.

Fiquem ambos advertidos, porém, de que tais bravatas somente redobram a confiança na utilidade pública do jornalismo livre. Fiquem advertidos de que tentativas de controle da imprensa serão repudiadas -e qualquer governo terá de violar cláusulas pétreas da Constituição na aventura temerária de implantá-lo.

Editorial da Folha de S. Paulo de 26 de setembro de 2010.

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