18 de setembro de 2010

História para ler, não para aprender

A Folha de S. Paulo nos apresenta hoje, no seu caderno Ilustrada, uma esclarecedora matéria sobre os "Magos da história" do Brasil (textos reproduzidos abaixo). Fantástico! Esses gênios fizeram com a história o que um bando de pesquisadores da academia não consegue fazer: popularizar esse campo do conhecimento! Será?

Em primeiro lugar, é bom deixar claro que o blog não é contra a leitura. Seria um contra-senso fazer isto nesta Bruzundanga. Defendemos que se leia e se leia de tudo, ainda que o autor do blog não consiga fazer certas leituras, vá lá. Tá, é uma limitação insuperável! Depois de me aventurar pelas páginas de Veja e de Eduardo Bueno, adquiri uma certa alergia a ambos.

Mas admita-se, não há nenhum problema em fazer da história um best-seller. Só não devemos confundir esses textos que primam pelo pitoresco com o que se faz na academia: historiografia. Bueno e Gomes não produzem historiografia. Escrevem "de olho no mercado" e talvez por isso a USP não os convida para uma palestra. É, deve ser por isso!

Pelo menos os "magos" reconhecem que não dá para fazer história com neutralidade e isenção, sem ideologia. Ufa! Deixemos isso para a Folha e a grade mídia, sempre muito neutras, não é mesmo? Ou você seria capaz de apontar quais são os candidatos que Folha, O Globo, Estadão, Veja, Época e similares estão apoiando? Impossível, não é mesmo? Haja vista a imparcialidade que pauta aquelas redações.

Bom, para não cansar o digníssimo leitor que insiste em frequentar a Bruzundanga, acho que Bueno resumiu tudo na sua frase lapidar: "O meu é um livro de história para ler, não para aprender!" É isso! E você leitor, não vá depois reclamar que não aprendeu nada lendo Bueno. Ele avisou...

Nota do Blog.
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Magos da história


Best-sellers de história, autores Laurentino Gomes e Eduardo Bueno defendem obras mais acessíveis

MARCOS FLAMÍNIO PERES
DE SÃO PAULO

Eles não são nem ricos nem bonitos nem elegantes. Mas são pop stars a seu modo -dão entrevistas por toda parte, têm sessões de autógrafo concorridas e conseguem viver do que fazem: contar a história do Brasil.

Laurentino Gomes, 54, e Eduardo Bueno, 52, formam o jet set de um gênero que vem se consolidando rapidamente no país, o de livros de divulgação de história.

Basta dar uma espiada na lista dos mais vendidos desta semana, com cinco obras da área (leia mais na pág. E4).

Gomes, que lidera o ranking, esgotou em duas semanas os 100 mil exemplares iniciais de seu "1822". Com outros 100 mil no prelo, essa apetitosa história da Independência tem grande potencial de superar sua obra anterior, "1808" -que, em três anos, vendeu mais de 400 mil exemplares.

Já Bueno está indo para a terceira edição de seu "Brasil - Uma História". Com números mais modestos, mas ainda assim respeitáveis, já zerou os primeiros 20 mil exemplares e outros 20 mil já estão a caminho. Formados em jornalismo, dizem fazer sobretudo reportagem. "Poderia estar fazendo isso em medicina ou astronomia", diz Gomes, que trabalhou em "O Estado de S. Paulo" e foi diretor da editora Abril.

Mas que história é essa? "Tento combinar dados pitorescos, análises mais profundas e perfis das pessoas", diz.

Para ele, o pitoresco é a informação de que José Bonifácio, o patriarca da Independência, escondia seu rabicho sob a casaca nas cerimônias oficiais. "Esses detalhes são uma isca para o leitor", diz.

Bueno partilha dessa visão e admite que têm muito em comum. "Mas que fique claro que minha obra veio antes!" A primeira edição de "Brasil -Uma História" é de 1997".

ELITE E POVO

Pela ênfase no detalhe, sobra pouco espaço, na bibliografia de "1822", para a historiografia de esquerda. Os marxistas, diz o autor, fazem uma "história asséptica, sem pessoas ou personagens".

Sua narrativa sobre a Independência se apoia nas figuras carimbadas e passa ao largo de tendências recentes, como a história do cotidiano.

"As vidas de d. Pedro 1º ou da marquesa de Santos estão muito mais bem documentadas do que a de um cidadão que morasse no Rio à época."

Sem citarem números, dizem levar uma vida confortável com os dividendos de seus produtos. "Hoje conquistei meu espaço, tenho adiantamentos e tiragens diferenciadas", diz Bueno.

Ambos negam simplificar a história e defendem livros mais acessíveis. "A formação de leitores começa por "Harry Potter'", diz Gomes.

Entusiasta das novas tecnologias, Laurentino lança seu best-seller em formato de e-book em dezembro -"o mundo será multimídia!".

Bueno não pensa assim. "O público de internet não é afeito à leitura." E arremata: "O Twitter é o meio de expressão ideal para quem não tem o que dizer".
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Frases


"O sucesso me assustou; fiz um trabalho de redesenho interno para me manter humilde e não subir no salto alto".
LAURENTINO GOMES
jornalista

"O meu é um livro de história para ler, não para aprender!"
EDUARDO BUENO
jornalista
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"Eu adoraria dar uma palestra na USP"


Laurentino Gomes diz que mercado editorial ainda é amador e que "1822" é "candidato natural a minissérie"

Autor prepara agora obra "1889" e revela ter planos de escrever sobre a escravidão e a Guerra do Paraguai

Sucesso no papel, Laurentino Gomes diz acalentar o ideia de ver "1808" e "1822" serem vertidos para a TV. "São candidatos naturais a minisséries." Já o próximo livro será sobre "1889", para "fechar a trilogia das datas ícones da formação do Brasil". Mas Gomes pensa em escrever sobre a escravidão e a Guerra do Paraguai -"sempre no século 19". (MARCOS FLAMÍNIO PERES)

Folha - O sucesso o espanta?

Laurentino Gomes - Sim. Ainda não me acostumei com a ideia de ser um best-seller. Porque o livro tem uma coisa misteriosa: a resposta imediata do leitor, que procura contato com o autor -por e-mails, bate-papos, sessões de autógrafo...

Como organiza a massa de informações?

Tendo a fazer uma edição sutil. Pesquiso sozinho, porque às vezes há informações que mudam toda a forma de organização do texto.

Sua obra enfatiza mais pessoas que processos - social, econômico, cultural... Isso também vem do jornalismo?

Sim, mas também é uma fórmula narrativa comum nos EUA e no Reino Unido. O personagem se torna um avalista de uma informação de caráter mais sociológico.

Um livro sobre história pode ser ideologicamente neutro?

Não acredito nisso. Algo fascinante nessa disciplina é que ela pode justamente ser manipulada o tempo todo -seja por quem está no poder ou na oposição.

Como reage às críticas de que livros de divulgação banalizam a história?

Já foram mais fortes; hoje os historiadores sérios já aceitam a ideia de que sou um divulgador e não um banalizador.

O mercado editorial no Brasil ainda é muito amador?

Sim, por não conseguir criar fórmulas para ampliar o público leitor. É preciso fazer livros com linguagem mais acessível! É um erro dizer que o problema da falta de leitura no Brasil é apenas devido à falta de renda e escolaridade. A formação de leitores começa por "Harry Potter" [de J.K. Rowling] e "Crepúsculo" [de Stephenie Meyer], não pela literatura "nobre".

Você gostaria de ser convidado para dar uma aula ou palestra na USP, que é o ícone da academia no Brasil?

Gostaria muito! Em primeiro lugar, porque é um lugar que identifica novos fenômenos e os analisa com profundidade. E também para eu poder entender como a academia -que respeito muito, como a USP- interpreta o meu fenômeno.
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"Sempre defendi uma produção editorial voltada ao mercado"


"Há demanda reprimida para obras de divulgação", diz Bueno

O jornalista Eduardo Bueno diz que sempre defendeu uma produção voltada para o mercado. Bueno, que é apresentador do History Channel, acaba de receber convite da matriz americana para desenvolver um quadro sobre o Brasil. (MFP)

Folha - Para quem você escreve?

Eduardo Bueno - Sempre escrevi meus livros com olhos voltados para o mercado. Já havia à época [1997] uma demanda reprimida, apontada por Jorge Caldeira (com "Mauá"), Fernando Morais (com "Olga" e "Chatô") e por Ruy Castro. A diferença é que passei a tratar do período colonial.

Você é um desbravador?

Acho que sim.

Conhece o trabalho de Laurentino Gomes?

Sim. Li "1808" e acho que cumpre muito bem seu propósito. Nossas obras... uma puxa a outra.

Qual o grande personagem da história do Brasil?

Sou fascinado por dois personagens do período colonial: Américo Vespúcio e Maurício de Nassau. Mas, no conjunto da história do país, o "cara" é o Visconde de Mauá.

Como reage à crítica de que livros de divulgação banalizam a história?

Acho que esse tipo de crítica revelou mais sobre os defeitos da produção acadêmica do que sobre os defeitos dos livros de divulgação.

Nestes 13 anos desde a primeira edição de seu livro, como a internet o modificou?

Hoje eu me tornei inteiramente dependente dela. Na área de microhistória, ela se tornou um campo quase inesgotável.

E do ponto de vista da divulgação? A internet ajudou?

Ela não adianta nada! Concordo com o [cartunista] Ziraldo quando diz que a internet está repleta de imbecis.

Um comentário:

Anônimo disse...

Bom, se a história se resume a saber que José Bonifácio usava um rabicho ou que D. Pedro I tinha amantes,esse cara podia dar palestra até no Departamento de História da UFF que eu não ia assistir.
E ainda vem com umas tiradas inúteis do tipo "historiografia asséptica", fala sério, sabe nada de "Teoria da História" esse cara.