27 de agosto de 2010

Gilberto Freyre conta o que achou da Flip

Em saborosa crônica de Helena Bocayuva, Freyre dá suas impressões de Paraty - e do que FHC, Scliar e outros disseram sobre a sua obra:

"Paraty, aqui estou novamente, quase oitenta anos depois da primeira visita…Desta vez escapei das agruras infringidas aos aventureiros que seguem os conselhos de Paulo Prado (1869-1943) e embarcam no famigerado vapor Irati." (Freyre, G. LXXV, Prefácio à primeira edição de Casa-Grande & Senzala, Rio de Janeiro, Record, 1998). À época, eu quis me aproximar até geograficamente daquele passado que se estuda “tocando em nervos”. Paraty foi o segundo porto mais importante do país, nos séculos XVII e XVIII – quando uma trilha ligava Minas, São Paulo e Rio de Janeiro – e aqui desembocava para embarcar ouro, açúcar e aguardente rumo a Portugal. Depois, caiu no esquecimento até os anos 70 do século passado, com a construção da Estrada Rio-Santos. Igrejas centenárias, sobrados e fazendas, “caminho do ouro”, tudo parecia estar parado no tempo quando aqui pisei pela primeira vez, nos anos 30 do século passado. Hoje são meus todos esses aplausos. A 8ª FLIP – Festa Literária de Paraty – homenageia minha obra. Por minha causa veio gente de todas as partes, falar e ouvir. A conferência de abertura, “Casa-Grande & Senzala: um livro perene”, foi proferida por um ex-Presidente da República, o sociólogo da Universidade do Estado de São Paulo-USP chamado Fernando Henrique Cardoso. O mediador é o titular da cadeira de História do Brasil na Sorbonne, o historiador Luiz Felipe Alencastro. A palestra foi aplaudida de pé, embora não tenha me agradado. Meu velho amigo Edson Nery da Fonseca, na platéia, também parecia insatisfeito com as críticas que eu recebia! FHC é muito fluente, ótimo orador, mas como se sabe entre a USP e o meu pensamento sempre correram rios de distância. Dizem até que me recusei a fazer parte da banca dele de doutourado e agora ele me daria sua resposta. Outros ainda dizem que sendo vaidoso como eu, meu brilho lhe causaria inveja. Não deixou de louvar o método que inventei. A riqueza de fontes que utilizei no meu trabalho foi tida como inovadora: anúncios de jornais, cartas, e os documentos da Inquisição. Foram justamente os documentos da Inquisição que forneceram a fresta mais fecunda para a observação da “vida íntima” da sociedade colonial, com destaque para o território da sexualidade – categoria com a qual FHC não trabalha. Ele reconheceu também meu imenso conhecimento dos principais antropólogos do meu tempo, como meu mestre Boas (1858-1942) e Herskovitz (1895-1963). Não pude deixar de perceber que tudo que poderia ser considerado um comentário positivo era dito em tom condescendente. O professor-ex-Presidente gastou muito tempo e saliva avançando na discussão mais bizantina possível: minha escrita seria científica ou literária? Contrapõe ensaio e ciência, sempre constatando que não concluo meus parágrafos! Enumero oposições sem entretanto chegar à uma síntese – eu fujo da dialética, disse FHC, se bem entendi. Ora, ao aprender o meu ofício, aprendi a relativizar, palavra chave para a antropologia! Saudades das análises de um Antonio Cândido, pioneiro na construção de caminhos para o entendimento da minha obra, que classificava como pertinente ora ao campo da literatura, ora ao campo da ciência: “…sua sociologia, sendo rigoroso estudo é também visão: a este título a expressão literária se crava no seu cerne, tornando-se um recurso de elucidação e pesquisa” (Cândido, 1962: 120 citado por Bocayuva, 2000). Assim, meu livro dito perene, Casa-Grande & Senzala, estaria distante dos cânones acadêmicos preconizados pela USP no tempo que o ex-Presidente proferia suas aulas, sempre de guarda-pó branco, como fazem aqueles que trabalham em laboratórios. Cabe também notar que o sociólogo FHC se declarou um não especialista na minha obra. Mencionou que foi a partir do prefácio que ele escreveu para a edição de 2003 de Casa-Grande que surgem convites para falar sobre mim, Gilberto Freyre. Na manhã do dia 7, a mesa 1, “Ao correr da pena”, reúne Moacyr Scliar, Ricardo Benzaquém e o criítico literário Edson Nery da Fonseca, com mediação de Angél Gurria Quintana. Moacyr Scliar retomou a discussão bizantina sobre o antagonismo entre ciência e narrativa literária. Chegou a fazer uma associação entre o uso de números e a ciência. Leu também um famoso parágrafo sempre citado quando se quer apontar o anti-semitismo em Casa-Grande (Freyre, G: 226, 1998). No parágrafo em questão há uma quase atribuição de especialização biológica aos judeus, as mãos transformadas em garras decorrentes da prática intensiva de contar dinheiro. Os críticos mais generosos argumentam o embalo da retórica, já que em outras páginas as contribuições positivas dos judeus ganham primazia. Deve-se também mencionar que, como outros textos de autores da época, há oscilação entre os pressupostos da cultura e os biológicos – no trecho mencionado um há um escorregão no biológico. Edson Nery da Fonseca declamou o poema “Bahia de todos os santos e todos os pecados”, emocionando a plateia: “Bahia Um dia voltarei com vagar ao teu seio brasileiro Ao teu quente seio brasileiro Ãs tuas Igrejas cheirando inscenso Aos teus tabuleiros escancarados em X (esse X é o futuro do Brasil) e cheirando a mingau e a angu”. A proposta da mesa 7, que contou com mediação da historiadora Lilia Schwarcz, era discutir outras obras minhas menos conhecidas. Nordeste é o tema de Alberto Costa e Silva, a historiadora Maria Lúcia Pallares-Burke ficou com Os ingleses no Brasil e Angela Alonso se dedicou a Ordem e Progresso. Alberto Costa e Silva destacou a atualidade das análises de Nordeste, um dos meus livros favoritos, se me permitem a confissão; Maria Lúcia Pallares-Burkes ressaltou a profusão de fontes, inclusive anúncios de jornais, utilizadas em Ingleses no Brasil e Angela Alonso lembrou que pesquisa que desenvolvi em Ordem e Progresso, um imenso survey, segue metodologia contemporânea…ora vejam só. Faço 110 anos esse ano, cansei… vou voltar ao sono eterno deixando a edição do artigo com a pesquisadora Helena Bocayuva, que passa a se responsabilizar pelo presente. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOCAYUVA, Helena – 2001. Erotismo à Brasileira. O excesso sexual na obra de Gilberto Freyre . Rio de Janeiro: Garamond. FREYRE, Gilberto -1948. Os Ingleses no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. José Olympio. _____________ 1990(1959). Ordem e Progresso: processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime do trabalho livre: aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre e da monarquia para a república. Rio de Janeiro: Record. _____________1997 (1939). Acúcar - uma sociologia do doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil. São Paulo: Cia das Letras. _____________1998 (1933). Casa-Grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. Rio de Janeiro: Record. _____________2006 (1974). Tempo morto e outros tempos: trechos de um diário de adolescência e primeira mocidade - 1915-1930. São Paulo:Global; Recife, Pe: Fundação Gilberto Freyre. MAGALHÃES JR., Raimundo (org.) (1957). Antologia de humorismo e sátira. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira.

Extraído do site da Editora Garamond: http://www.garamond.com.br

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