19 de julho de 2010

Veja que coisa asquerosa

Quando era menino lá na Passagem, uma onda de boatos atrás da outra aterrorizava a gurizada, e até seus pais, dizendo que ia passar em nossa cidade "uns russos chupando o sangue das crianças". Eram espécie de gente vermelha metida a monstro. Teco-teco vermelho cortando o horizonte e nem mais um menino nas ruas e quintais: corríamos ligeiro para dentro de casa.

Ironia: também apareciam por lá uns loirões de olhos verdes e colete com grandes estandartes vermelhos correndo pelas ruas e chegávamos a achar que poderiam ser os tais russos chegando. Era a TFP ...

Agora é 2010, 40 ou 50 anos decorridos desde esse tempo rememorado, e eis que a Veja sai com matéria de capa divulgando idêntico tipo de lixo ideológico, nesta véspera de eleição, mantendo reacendido na classe média nativa, incrivelmente tendente a recaídas reacionárias, o furor do mais torpe preconceito contra o PT e afins.


Veja (10/07/10, p.65): "Afinal, Dilma, se eleita, conseguirá repetir o feito de Lula e impedir que os radicais do PT transformem o Brasil em uma república socialista, de economia planejada e centralizada, e sem garantias de liberdade de expressão? Lula teve de cortar a cabeça dessa hidra em diversas oportunidades. [...]. O episódio da semana passada mostra que Dilma está sendo desafiada pelo monstro do atraso com suas múltiplas cabeças ágrafas, ignorantes, passadistas e liberticidas".

Essa "hidra" aparece vermelha na capa da revista com múltiplas cabeças vomitando asneiras panfletosas do tipo que o PT vai acabar com a "liberdade de expressão" no Brasil. Trata-se de voz e imagem arrancados dos escombros da mais cruel direita nativa, estúpida, anticomunista, vendida aos estratos reacionários mais obscurantistas de dentro e de fora do Brasil.

Será que você vai acreditar que o PT é esse "monstro ágrafo e liberticida"? Acreditar que Lula e o PT estão acabando com a "liberdade de expressão"? Nem eles, o dono e escribas, que fazem esse panfletário ridículo.

Talvez Getulio e Jango entre os presidentes, além de Brizola e Prestes, ninguém, quanto Lula, foi e é, de má fé, mais covardemente atacado pela "imprensa livre", que, aliás, jamais respeitou os mandatos que alcançou, conseguidos dentro das regras. No caso de Lula, por sua origem de nascido entre os pobres, contra si a "imprensa livre" tem tentado despertar, e movido, os mais torpes preconceitos que jamais se viu. E contra Dilma, idem, um prato farto em que está se refestelando a direita reacionária que, claro, é machista visceral. Por estes dias -já a mil está- troa forte contra ela tal vozerio, este sim, insidioso, parcial, inimigo da liberdade de expressão.

Haveria coisa mais parcial que essas acusações da revista paulista? É essa a "liberdade de expressão"? Expressiva maioria das notícias veiculadas nesta parte do mundo e no Brasil é gerada e circulada por não mais que seis a oito grandes empresas do mercado de mídia, de forma monopolizada, isto sim, o atestado de que não vivemos num ambiente de livre circulação de opiniões.

Essa mídia-empresa é necessariamente parcial. Ela tem um lado, o lado e a ideologia de seu dono. E isto é errado no mundo da livre iniciativa? Não, é próprio de sua dinâmica. De má fé é a sua militância fundada numa única concepção de organização da vida social, pretendendo ser "a verdade".

Essa matéria contra o PT -e o viés acusador de todos os jornalões- chama atenção para algo que merece reflexão: por que esse partido é mais atacado por tais setores radicais reacionários pelo que é e faz de positivo do que por seus defeitos, que são muitos?

O Brasil teria um sinal de avanço se sua meia dúzia de empresas de imprensa fizesse editorial assumindo o apoio a Serra. Isto sim daria uma chance ao debate de idéias e forjaria outra liberdade de criar e fazer circular notícias. E por que não assumem? Por que não querem a democracia real, o povo se governando: sua democracia tem dono.

"Artigo ideológico" este, dirão. É, sem hipocrisia. E deixe de ingenuidade de supor que há algum que não seja.

Por Fonseca Neto, Professor de História da UFPI.

Extraído do Diário do Povo (Teresina), dia 19 de julho de 2010.
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Nota do Blog:
 
A reprodução da capa de Veja a que o autor se refere foi inserida por mim e não consta originalmente do artigo.
 
Vale lembrar que eu e o Prof. Fonseca Neto estaremos coordenando um Simpósio Temático na Anpuh-PI, cujo tema central é História e Imprensa. Trata-se de assunto da maior relevância - evidenciada neste artigo - e que mobiliza a atenção dos coordenadores desse simpósio. Para participar do evento, acesse: http://www.anpuhpi.org.br/congresso/simposio

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