6 de junho de 2010

Para que servem as redes sociais na web?

Badoo

Muito cedo na vida aprendi o risco que a palavra nunca encerra: nunca farei, nunca direi, nunca voltarei, nunca perdoarei, nunca trairei, e assim vai… Muito cedo na vida aprendi que é sempre tempo para acertos e erros. É sempre tempo para viver novas experiências. E foi assim que eu, sempre arisca até as conversas via messenger, com ou sem web câmara, alegando falta de tempo e, sobretudo, falta de paciência, de repente, diante de dois fatos decisivos – o sucesso do Badoo por estas bandas e a solidão – me vejo, com cara e alma, vivendo minha primeira experiência em redes sociais.

Longe de eufemismos: em sites de relacionamentos. Muito cedo, aprendi que somos vítimas de nossas próprias palavras. E foi assim que eu, sempre consciente da passagem do tempo e decidida a jamais negar meus anos bem vividos entre alegrias e dores, de imediato, fraquejei. Como sou extrema, não consigo fazer nada pouco, e lá estou eu em duas fotos num rosto imaculadamente virgem de plástica e num perfil de mulher de 10 anos a menos, ou seja, 52, que busca conhecer pessoas com mais de 45 anos para amizade e companhia a um cinema ou a um café. Muito cedo, descobri que Badoo, apesar de se identificar, formalmente, como um sistema de comunidade virtual em nível mundial que permite aos usuários se aproximar de pessoas com perfis semelhantes em seu entorno, como inevitável, é um reduto de preconceitos, de todos os tipos: gêneros, faixa etária, cor, nacionalidade etc.etc. Para os homens, tudo é permitido. Para os jovens, idem. A raça branca prevalece. Europeus e americanos são mais bem vistos, como se detalhes como estes fossem certidão de dignidade.

Muito cedo, descobri que os maiores, expressão suave da língua espanhola para designar os mais maduros ou os velhos, desejam interlocutores jovens. Eis o primeiro contato, 54 anos declarados. Diante da resposta de minha instância na Espanha para fins de estudo- pesquisa, a primeira e grande surpresa transcrita literalmente:“e se estuda a esta idade!?” Assim mesmo, com ponto de interrogação e de exclamação. Minha resposta imediata: “Qual a idade para se deixar de estudar?” Pedidos de desculpa, um pouco mais de conversa para disfarçar o encanto desfeito antes de ter se feito. Muito cedo, descobri que faria do Badoo um laboratório de experiência para testar minhas premissas iniciais. Assim, em vez de deletar, de imediato, meu perfil e dar fim à brincadeira, permaneci umas duas semanas para descobrir as nuances de uma rede social, como esta. Como previsto em teoria, o anonimato e as mentiras correm livres e serelepes.

No palco do Badoo, há quem recorra, com freqüência a fotos borradas ou de artistas ou de outras pessoas, confessando, em tom angelical, que são casados e precisam recorrer a subterfúgios distintos. Há jovens, muitos jovens, aficionados por mulheres mais velhas: alguns verdadeiramente sinceros, confessam que gostariam de conhecer Salamanca; outros, mais astutos, entre risos intercalados nas mensagens tecladas, alegam complexo de Édipo, que lhes faz manter inclinação erótica por “supostas” mães.

Muito cedo, descobri que não teria paciência para os “ricos” diálogos de sempre, que derrapam para a mesmice das velhas conversas de viagem de avião, agora, na linguagem internês e ainda mais superficialidade. De fato, o anonimato se assemelha a um diálogo “sem cara”, em que a chance de voz falseada é bem maior. Por tudo isto, reforço minha rejeição inicial às redes sociais, mas não maldigo a experiência vivenciada: ela confirma a riqueza dos contatos cara a cara, olho no olho, mão sobre a mão. O resto é pura solidão.

Por Maria das Graças Targino

Artigo publicado no jornal O Dia (Teresina, PI) em 26/5/2010.

Nota do Blog:
Continuo ausente das redes sociais, pelo menos até que eu tenha um bom motivo para delas participar. Continuo preferindo o contato cara a cara, olho no olho, ou pelo menos por e-mail.
Continuo aqui na Bruzundanga.

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