8 de maio de 2010

"Que Wikipédia que nada. Bibliotecas digitalizadas? Esqueça. Kindle, iPad, nada disso parece ameaçar o negócio frenético da salinha onde as copiadoras trabalham sem cessar".

A vida que cabe num cubículo


Fila da xerox. Como mais de duas décadas se passaram, eu esperava por impressões mais relevantes na minha volta aos bancos universitários. Mas tudo o que consigo pensar, em relação à pós-graduação iniciada na PUC, é na fila da xerox. Antes da aula, depois da aula, na hora do lanche, é preciso enfrentar o tumulto semiorganizado no qual estudantes brigam por capítulos impressos on demand. Igualzinho aos meus tempos de ECO/UFRJ, embora as lembranças estivessem enfurnadas em algum daqueles compartimentos inteligentes da memória que engavetam o que deverá ser inútil para sempre.

É assim que vou retocando, com tons em preto e branco (xerox colorida é mais cara), a imagem construída por mim em torno do conhecimento acadêmico, que se contrapunha à superficialidade do jornalismo que me permitiu deslizar com tanta velocidade por todos estes anos. Pois tinha esquecido o quanto podemos ficar mais sábios lendo capítulos ― não necessariamente livros.

Talvez influenciada pela redescoberta dos capítulos avulsos, em vez de me aprofundar na questão acadêmica minha atenção se voltou ao cubículo onde todo o saber é organizado, reproduzido e distribuído na universidade. Que Wikipédia que nada. Bibliotecas digitalizadas? Esqueça. Kindle, iPad, nada disso parece ameaçar o negócio frenético da salinha onde as copiadoras trabalham sem cessar, onde o máximo de tecnologia é a ordenação automática por páginas, onde arquivos de ferro com pastas suspensas guardam todo o conteúdo necessário para a próxima aula, o ponto de partida de monografias, dissertações e teses que serão aprovadas com louvor.

A fila só fazia aumentar, e imaginei que outros pontos para fotocópias no campus também estariam lotados naquele horário. Pensei no gargalo da infraestrutura no país, para rir sozinha da comparação que ninguém entenderia. Não estava mais entre jornalistas econômicos. Acabara de fazer uma matéria sobre investimentos em infraestrutura e agora precisava xerocar dois contos de Machado de Assis; que vida interessante ando levando, pensei. A senhora que opera a copiadora confirmou que não, eles não podem xerocar um livro inteiro, a estudante de saia comprida não insistiu, e descobri com alguma surpresa que o conceito de direito autoral ainda vinga por ali. Capítulos sim, livros não ― a mesma regra que se tenta emplacar na Web em relação a degustações (sim) e obras inteiras (não). Sem muito sucesso.

Finalmente encostei no balcão, e me vi impactada pela claustrofobia que não deveria ser minha, mas dos três funcionários que se contorciam dentro do cubículo. No ritmo das copiadoras, eles encontravam as pastas, apertavam botões, entregavam calhamaços de papel, recolhiam dinheiro, devolviam moedas. No entanto, pareciam bem. Não propriamente felizes, mas acostumados. Talvez, depois do horário de pico entre um turno e outro da faculdade, a vida tivesse outra mecânica, e a única claustrofóbica ali fosse eu.

Uma pessoa pode se acostumar a passar seis horas diárias dentro de um elevador, como já observei atentamente no prédio em que trabalho. Tentei, em certa ocasião, puxar assunto com o ascensorista mais simpático, inexplicavelmente alegre, mas percebi minha total incapacidade de compreender o seu ponto de vista. O ponto de vista de quem está dentro, não do lado de fora do balcão, esperando impaciente porque já está atrasado para a aula.

Foi esta perspectiva, nova para mim, que me proporcionou o cineasta francês Alain Cavalier quando fui assistir aos cinco retratos de mulheres apresentados por ele durante a mostra de documentários "É tudo verdade", que aconteceu no Rio e em São Paulo durante o mês de abril. Com uma generosidade e uma delicadeza na abordagem que me fizeram lembrar o brasileiro Eduardo Coutinho (que filmou seus melhores documentários depois desses Retratos de Cavalier, de 1987), o francês consegue descobrir poemas inesperados dentro de pastas suspensas, escondidas em arquivos de ferro que habitam cubículos claustrofóbicos apenas aos desacostumados. Como na sala de xerox da faculdade de Letras. Começando por suas mãos calejadas, ele desnuda a poesia contida na vida de mulheres que há décadas se dedicam aos ofícios de fazer colchões, limpar banheiros, montar vitrais, escrever romances e examinar olhos. Tudo artesanalmente. Tudo de dentro de seus claustros repletos da vida que cabe neles.

O olhar privilegiado de Cavalier nos mostra que a luz artificial é suficiente para a senhora que há vinte anos toma conta de um banheiro no subsolo de um restaurante parisiense. Em uma mesinha, ao lado da caixa das gorjetas, uma planta consegue crescer em um pequeno vaso. Sem reclamar. Acostumada. Imediatamente lembrei de meu espanto ao encostar os dedos em outra planta improvável, também em um subsolo. Não era de plástico. A costureira, que tinha uma feição parecida à daquelas mulheres francesas, como elas não chegou a se orgulhar. Apenas regava todo dia, e a planta crescia.

E assim percebo que a minha vida interessante, entre o jornalismo e as letras, não tem um significado maior ou menor por não caber dentro de um cubículo. Guardadas as proporções, cada qual conhece a dor e a delícia de ser o que é.

Por Marta Barcellos

Rio de Janeiro, 7/5/2010
 
Extraído do Digestivo Cultural

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