31 de maio de 2010

O nó da qualificação docente

Escandalize-se: no "país de bacharéis", ninguém quer ser professor. Atenue-se: alguns até querem, desde que em escolas básicas vendedoras de vaga na universidade pública, ou nas próprias universidades. A vocação maior ainda é ser filho da folha.

Não estou falando de novidade. E ficar lembrando isso resolve alguma coisa?

Entre os dias 24 e 26 de maio reuniram-se em Teresina, em Fórum, 22 Conselhos Estaduais de Educação, além do CNE. Pauta: a) a formação de professores no Brasil; b) o ensino à distância. Tratemos da primeira.

Contemplando nossa história da educação, abundam os registros da falta de professores qualificados, particularmente para a escola pública. No Piauí, já governadores falam desse entrave em 1790 e tanto. Nos dois séculos seguintes, idem.

Qual o nó? Há uma estrutura mental deformada na sociedade brasileira, fundada em vil preconceito elitista, que condenou a escola pública ao fracasso. As classes abastadas, e médias, jamais viram na experiência de escola estatal o caminho para a educação de seus filhos. Antes, e ainda hoje, bastam-lhes as escolas de padres e outras do ensino particular. Jamais consentiu seus filhos nas públicas junto aos filhos dos trabalhadores. São ainda insistentes as sombras desabonadoras da casa-grande sobre a senzala. Um exemplo? A mídia branca acaba de boicotar a Conferência Nacional de Educação porque sentiu nela cheiro de base e pobreza.

Assim desrespeitada, explica-se porque a escola pública é pouco atrativa, não se lhe conferindo expressão social e reconhecimento como fonte de valoração humana e produtora essencial na vida econômica, daí ser tida por aquele senso comum elitista tal um lugar dos fracassados na vida: "lixem-se". Piorou nas duas últimas décadas com a prática neoliberal infundindo a perversão ideológica de que tudo que é público é feio, ruim e ineficiente; e tudo que é privado é ótimo.

Salários pífios, ela não seduz os reconhecidamente qualificados; ambiência em geral degradada e degradante; muito baixa a estima. Como romper tanta negatividade?

Certo desapreço social e a desvalorização profissional docente, mais esta que aquele, foram objeto no Fórum. Uma conclusão aponta que a formação de docentes -inicial ou continuada- há que se dar em contexto de valorização também do ponto de vista de sua remuneração. Uma vincula a outra. (E aí se volta ao círculo de fogo: as rendas públicas são também o mimo da ordem privada parasita e do bacharelado burocrático de dentes cravados na folha: pagar para Zé povim estudar, ser professor?).

Mais: é preciso rever o modo de se fazer a qualificação para o magistério. Consagrou-se a perspectiva da graduação superior licenciada -e até pós-graduada- como espécie de condição salvadora da educação pública básica. E se pergunta: os cursos de licenciatura estão fazendo a sua parte? Não como parece ser o necessário. Aparentemente neles não se consegue fazer empatar a criação/aquisição de conteúdos, base de tudo, com o treino dos modos como devam ser eles partilhados com os estudantes. Uma conteudização e um pedagogês infecundos não confluentes entre si marcam os licenciandos de desamor pela docência.

Agora até a nata empresária está falando em educação para os que ela sempre desprezou como "arraia miúda". Nenhum valor de humanidade a mover-lhe a alma; seus negócios é que estão ameaçados ante o atraso reiterado. O que fazer? Há iniciativas, até verbas. O governo central busca pactuações com estados e municípios para implementá-las. É um sinal. Mas é preciso o engajamento social amplo, que, por agora, fomenta é a mercantilização do ensino, embora de há muito se tenha a Educação e a Vida como bens fora de comércio.

Esta é a 750ª coluna, na semana dos 15 anos de sua publicação ininterrupta, sempre às segundas-feiras, aqui na página 2. O agradecimento ao Diário do Povo, que acolhe a presente colaboração com zelo, e aos leitores, destinatários dessas apreciações que o fazemos sobre os modos de como o tempo se faz e flui em histórias.

Por Fonseca Neto
Professor da UFPI

Publicado no Diário do Povo em 31 de maio de 2010.

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