25 de maio de 2010

Emir Sader em Curitiba: vitória de Dilma significará derrota de uma geração de direita



“Às vezes, preferimos ficar com a elaboração teórica e dar as costas à realidade”, afirma Sader. “Reaproximar o pensamento teórico da prática política é um desafio.”

Doutor em Ciência Política pela USP e secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais, Emir Sader fez na noite da última quinta-feira (15) uma palestra na UFPR, na qual lançou o livro “Brasil, entre o passado e o futuro”, do qual é um dos organizadores. A publicação, segundo ele, pretende analisar os obstáculos do governo federal e, ao mesmo tempo, chamar os intelectuais ao debate.

Na palestra, que lotou o Anfiteatro 100 da universidade, o professor fez um balanço do governo Lula e da conjuntura dos demais países da América Latina. Observou que a gestão do atual presidente da República registra “grandes avanços” em algumas áreas, e “estancamento”, em outras.

“O governo anterior [de Fernando Henrique Cardoso] consolidou a política neoliberal, privatizou, desregulou, precarizou as relações de trabalho”, enumerou Sader. “O tema do desenvolvimento foi abolido em nome da estabilização monetária.”

O pesquisador criticou a hegemonia do capital financeiro e do estilo de vida norte-americano, “de shopping center”, no qual o consumidor, e não o cidadão, é privilegiado. “[O shopping] É a deterioração dos espaços públicos, onde não há janela, não há pobres e nada é de graça, tudo é voltado ao consumo.”

Sader comentou que a América Latina, ao longo da década de 1990, foi a região do planeta com mais governos de orientação neoliberal. “A Argentina, por exemplo, que, no passado, muito antes do Brasil, tornou-se autossuficiente em petróleo, hoje fica mendigando por energia, um retrocesso”, disse. “Vivemos uma espécie de ressaca do neoliberalismo.”

Na avaliação do professor, o governo Lula tem, entre seus méritos, a opção pela priorização das políticas sociais e uma política externa que enfatizou alianças Sul-Sul e rejeitou a Alca (Área de Livre Comércio das Américas). “Por que saímos antes da crise mundial? Porque diversificamos nossas exportações, intensificamos o comércio regional com nossos vizinhos e expandimos o mercado interno de consumo popular.”

Por outro lado, a gestão do presidente petista não atacou a hegemonia do capital financeiro (“O Banco Central é de fato independente do governo”), nem tampouco contrariou interesses como o do agronegócio, por exemplo.

Eleições

A respeito da disputa presidencial de outubro, Emir Sader avalia que uma eventual vitória da ex-ministra Dilma Rousseff significaria a derrota de toda uma geração da direita brasileira.

“Não existe terceira via [além da petista Dilma e do tucano José Serra]“, declarou. “Se ela ganhar, poderá desenhar a cara do país na primeira metade deste século.”

O pesquisador observou que vários presidentes sul-americanos declararam, de forma velada ou não, apoio à pré-candidata do PT, entre eles Evo Morales (Bolívia), José Pepe Mujica (Uruguai), Hugo Chávez (Venezuela) e Rafael Correa (Equador). “Tomara que a gente politize a campanha.”
Mídia

O professor da Uerj fez ainda duras críticas à imprensa brasileira, classificada por ele como “ditadura da mídia privada”, em que “quatro ou cinco famílias” forjariam uma opinião pública.

“Empresas de oligarquias familiares querem dizer o que é democrático”, apontou. “Colocam em pauta temas que não são essenciais, e deslocam os temas de fato essenciais.”

Sader elogiou a realização, no último mês de dezembro, da 1ª Conferência Nacional de Comunicação. “Apesar da sabotagem [de parte dos empresários que não participou dela], foi uma vitória, uma primeira plataforma alternativa para a área.”

Promovida pelos programas de Pós-Graduação em Sociologia e em Ciência Política da UFPR, em conjunto com o Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, a palestra, seguida de um breve debate, durou cerca de duas horas.

Da Assessoria de Comunicação da UFPR

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