15 de abril de 2010

Que aspirante à Presidência do Brasil anunciaria a desistência em fazer a Copa e a Olimpíada no país?

Coragem, candidatos!


PRIMEIRO , foi São Paulo que submergiu sob as chuvas de verão. Depois, o Rio, devastado pelas águas do outono.

A fragilidade de nossas duas principais cidades, e do seu entorno, ficou, mais uma vez, dolorosa e dramaticamente evidenciada.

Faz sentido investir em estádios para a Copa do Mundo?

Faz sentido investir em estádios e acomodações para a Olimpíada?

Sim, sabemos que não investir no supérfluo não garante o investimento no essencial.

E que já houve experiências lucrativas em países que receberam tanto um quanto outro evento.

Mas um país que permite, e estimula, o surgimento de favelas sobre lixões, e de bairros sobre pântanos, está apto a ser olímpico?

Teria José Serra a coragem de dizer que entre as suas prioridades não estão a Copa do Mundo e a Olimpíada e que desiste delas?

E Dilma Rousseff? Viria a público, mesmo que lamentando, para dizer que o país deve abrir mão dos dois eventos porque ainda não é a nossa hora de fazê-los?

Marina Silva seria a candidata a botar o dedo nessa ferida?

Ninguém nega a importância que eventos desse porte têm para um país emergente. Ninguém nega.

Mas e num país submergente? Dá para encarar?

Esqueça o refrão da corrupção, faça de conta que tudo será feito com lisura. Ainda assim, depois de tudo que passou o eixo Rio-São Paulo, o mais rico e influente do Brasil, faz sentido Copa ou Olimpíada?

Desnecessário repetir que houve um terremoto no Chile e em seguida se fez a Copa do Mundo de 1962 no país andino. Ou a mesma coisa em relação ao México, em 1986.

Porque, se catástrofes naturais são o que são, o fato é que não se pode comparar a magnitude do que houve lá com o que as chuvas, por fortíssimas que tenham sido, e foram mesmo, causaram por aqui.

Esperar que os céus nos poupem em 2014 e 2016 porque, afinal, as festas esportivas se darão em meses de estiagem, será confiar demais no destino.

Como confiaram os desgraçados do Morro do Bumba, no Rio de Janeiro, ou do Jardim Pantanal, em São Paulo.

A situação em que ficaram as piscinas do São Paulo Futebol Clube e o Maracanã e o Maracanãzinho deveria servir para convencer até os mais teimosos sobre a aventura em que estamos entrando e que ainda podemos evitar.

O que aconteceria com um candidato que anunciasse ao Brasil que, se eleito, abriria mão dos dois eventos e poria o dinheiro, por exemplo, na erradicação das favelas?

E no saneamento básico.

E na educação.

E na saúde.

Perderia votos? Ou ganharia?

Eis aí uma boa pergunta para as pesquisas que todos os candidatos fazem em seus comitês. Suspeito que o resultado venha a ser positivo.

Sim, você dirá que sou um sonhador ou um ingênuo, até porque vou ainda mais longe: afirmo que, mesmo que uma pesquisa revelasse perda de votos, ainda assim, um verdadeiro líder, destemidamente a favor do Brasil, bancaria a decisão. E, então, alguém se habilita?

O meu voto, ao menos, ganharia.

Por Juca Kfouri

Publicado na Folha de S. Paulo em 15/04/2010.

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