15 de abril de 2010

Intensificação do trabalho nas universidades massacra docentes

Ser professor nas universidades fede­rais tornou-se um desafio perigoso em virtude da atual conjuntura brasileira e internacional de supervalorização da produção acadêmica. Para ter reconhe­cimento profissional e avançar na car­reira, é obrigado a se sujeitar às piores rotinas de trabalho e assim complemen­tar os seus rendimentos financeiros. O prof. Dr. João dos Reis Silva Júnior, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), concedeu uma entrevista para a ADUFPA onde revelou as graves conseqüências advindas desta realida­de que afeta de forma extremamente negativa a vida profissional e até pesso­al dos professores. A ADUFPI reproduz a entrevista com o pesquisador. Leia mais:


- Como as universidades chega­ram a esta rotina de trabalho tão intensa?

Eu diria que o trabalho teve a sua in­tensificação, a sua precarização e sua extensificação. O que eu chamo de ex­tensificação: ao contrário do trabalho material, o nosso trabalho é imaterial e carregamos o nosso trabalho para casa. Nós trabalhamos à noite, no sábado, no domingo e nós não temos o ponto de parada em que o trabalho é ainda sau­dável. Passamos dele por nossa própria vontade. Esse fenômeno que compõe estas três dimensões não é, infelizmen­te, um privilégio da esfera da educação e particularmente da educação superior e menos do subsistema das federais. Ele é uma coisa que aconteceu com todo o trabalho e no mundo todo. Muito se estudou sobre a intensificação a preca­rização e a extensificação do trabalho. E muito se sabe a respeito com con­sistência. Uma das pessoas que mais sabe, que puxa as pesquisas, orienta e milita nesta temática é o Ricardo Antu­nes, especialmente. De outra parte, es­sas pesquisas são datadas obviamente e não conversaram muito com a socio­logia política. Se tivessem conversado no âmbito do curso das duas últimas décadas, talvez conseguissem formular a questão, sobre a qual eu falo agora, que é a intensificação, a precarização e a extensificação do trabalho da outra face do sequestro do fundo público exe­cutado pelo capital e possível em face da reforma do estado. Pra mim, esta questão central que dá unidade, mais do que unidade, a dois presidentes da Re­pública: Fernando Henrique Cardoso e Lula. Eu diria que o Fernando conseguiu montar as instituições republicanas para uma grande reforma estrutural no Brasil com o início da reforma do estado brasi­leiro em 1995. É possível compreender então a questão ligada ao trabalho se compreendemos isso e vice e versa. O que a reforma do estado brasileiro possi­bilitou? Como se chega primeiro à refor­ma do estado? Nunca tivemos, de fato, um estado de bem-estar social no Brasil, mas tivemos um estado de mal-estar no Brasil, como diria Chico de Oliveira, mas mesmo para os países de economia central, nós sempre tivemos um estado de bem-estar genuíno, original em que as políticas econômicas e produtivas eram universais e as políticas para o so­cial, onde aí se encontram a previdên­cia, os direitos do trabalho, a educação, também eram políticas universais, que financiava tanto as políticas produtivas como as sociais um determinado fundo público, até que ele fica muito restrito. E nós temos a reforma que chamamos de neoliberalismo e ele segue os mesmos princípios do neoliberalismo das eco­nomias centrais. No Brasil, nós temos pegamos as coisas a La Macunaína, ou seja, o que nós passamos a ter com a ampliação de um dos setores do estado, que é o setor de serviços não exclusivos ou competitivos, é a inclusão de todas as atividades sociais neste setor, inclusive a educação e, especialmente, a superior.

- E com isso nós produzimos esta cultura de supervalorização da produção acadêmica e científi­ca dentro da universidade...

Com esta questão, as políticas de bem-estar para todos os trabalhadores, in­clusive para professores da educação superior, deixam de acontecer. Cria-se uma comissão para se intensificar o tra­balho dos professores, especialmente para os professores pequisadores em nome de uma certa produtividade e de uma necessidade economico-social para o Brasil. Temos um novo paradig­ma político que são políticas universais para as políticas produtivas ligadas ao capital e portanto financiadas pelo fundo público e, para que o trabalhador conti­nuasse a sobreviver como vivia antes, ele tem de intensificar o seu trabalho, senão ele não vai ter o mesmo poder aquisitivo quando o estado entrava com as políticas de bem-estar social para lhe prover transporte, saúde e educação, seguridade social, seguro-desemprego. Isso vai acontecer nas universidades públicas principalmente, mediadas por duas instituições do estado: o CNPQ e a Capes. O CNPQ, por meio dos editais de pesquisa e por meio das famosas bolsas de produtividade, induz a um tipo de pesquisa de resultados imediatos que agregam valor ao capital. As pesquisas, na sua grande maioria desenvolvidas nas universidades, são pesquisas volta­das para o setor produtivo, que buscam aumentar a produtividade do capital. E como o salário do professor está re­duzido, ele é obrigado para a sua ne­cessária sobrevivência a aderir a esse novo modelo. Ele tem de dar conta de todas as atividades que já vinha dando na universidade, além disto fazer traba­lhos extras como consultoria, dois, três projetos de pesquisa, formar cada vez mais mestrandos e doutorandos e isso intensifica o trabalho. A precarização se dá quando todos os direitos sociais do trabalho do professor pesquisador desa­parecem quando ele faz uso da parceria com o público-privado, da Lei de Inova­ção Tecnológica e assim por diante. No âmbito da universidade é a Capes que mais interfere porque com o seu modelo de avaliação, ela obriga o professor pes­quisador, se quiser fazer parte da pós-graduação, a aderir a esses editais.

- Há conivência do professor com esta realidade? Qual a razão do profissional da educação aca­bar aderindo a este modelo de tra­balho? Ele realmente poderia ter uma atitude diferente?

Existem vários segmentos dentro da universidade dentro desta questão. Primeiro aqueles que estão dentro do âmbito do produtivismo acadêmico, que estão arrebentando com a sua vida pri­vada, perdendo família, se estressando, sofrendo, adoecendo, se tornando indivi­dualistas, competitivos e assim por dian­te. Existe uma faixa pequena que usufrui disto. Existe outro grupo de professores que não usufrui, apoia este modelo e fica no vácuo desses professores para quem sabe ocupar o lugar deles. Exis­tem aqueles outros que criticam este modelo e são desqualificados, dizendo que são improdutivos, desqualificados e incompetentes. Há outros que apóiam o modelo, no entanto não conseguem en­trar na pós-graduação e não conseguem editais. Existe também a questão da vai­dade. Ela pode ser positiva ou negativa. Ela é humana e não larga da gente. A vaidade positiva nos faz ir a determinado ponto. A vaidade negativa passa deste ponto e faz mal para nós e semeia um clima de guerra, concorrência e compe­titividade nos programas de pós-gradua­ção, nas instituições e nas próprias as­sociações científicas, principalmente na Comissão de Avaliação da Capes.

- Qual será o futuro das univer­sidades?

Como eu sou otimista, acredito nas soluções para uma mudança da univer­sidade que retome a sua identidade, para que faça o seu papel de sedimentar e consolidar o pacto social e ao mesmo tempo promover e produzir o conheci­mento. Que ela volte e resgate o quórum crítico da sua identidade, critique o seu tempo histórico e, sobretudo, criticar a si mesmo, os seus próprios objetivos. Eu sou otimista que nós conseguiremos fa­zer isso

Extraído do site da ADUFPI

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