6 de abril de 2010

As enchentes do Rio e a atualidade de Lima Barreto

As enchentes

As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro, inundações desastrosas.

Além da suspensão total do tráfego, com uma prejudicial interrupção das comunicações entre os vários pontos da cidade, essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis, muitas perdas de haveres e destruição de imóveis.

De há muito que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos.

Uma arte tão ousada e quase tão perfeita, como é a engenharia, não deve julgar irresolvível tão simples problema.

O Rio de Janeiro, da avenida, dos squares, dos freios elétricos, não pode estar à mercê de chuvaradas, mais ou menos violentas, para viver a sua vida integral.

Como está acontecendo atualmente, ele é função da chuva. Uma vergonha!

Não sei nada de engenharia, mas, pelo que me dizem os entendidos, o problema não é tão difícil de resolver como parece fazerem constar os engenheiros municipais, procrastinando a solução da questão.

O Prefeito Passos, que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio.

Cidade cercada de montanhas e entre montanhas, que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas, o seu principal defeito a vencer era esse acidente das inundações.

Infelizmente, porém, nos preocupamos muito com os aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social.

Por Lima Barreto

Publicado originalmente no jornal Correio da Noite, em 19 de janeiro de 1915.

Posteriormente a crônica acima foi publicada em:
LIMA BARRETO. Vida Urbana. São Paulo: Brasiliense, 1956. p. 77
LIMA BARETO. Toda crônica. Rio de Janeiro: Agir, 2004. Volume I, p. 159.

Nota do Blog:

A crônica acima, publicada em 1915 por Lima Barreto, continua assustadoramente atual depois de quase 100 anos. O que o autor observava em relação ao prefeito Pereira Passos vale também para todos os seus sucessores e desnuda o cinismo de Cabral, Paes e seus consortes.

“Como está acontecendo atualmente, ele [o Rio de Janeiro] é função da chuva. Uma vergonha!”

2 comentários:

Juliana Pires disse...

Que triste tudo isso. Quando não é em um Estado é em outro, hoje foi a vez do Rio de Janeiro, onde vamos parar com tanta tragédia?

Beijos

Jorge dos Santos Valpaços disse...

Pois bem, Denilson. Estranhos tempos em que vivemos. "Choques de ordem" pra lá e pra cá, as chuvaradas persistem, reformas no Porto do Rio para ampliar o escoamento de mercadorias e grandes reformas urbanas na Rio Branco podem retornar... Observe esse projeto: http://g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,MUL1557777-5606,00-CRIACAO+DE+PARQUE+NA+AVENIDA+RIO+BRANCO+DIVIDE+CARIOCAS.html