29 de março de 2010

Bestializados ou bilontras?

Nada se compara ao prazer de reler um bom livro. Já nem sei quantas vezes fiz isso com Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi, de José Murilo de Carvalho. Ossos do ofício: toda vez que leciono uma disciplina sobre Primeira República, essa é uma leitura obrigatória. Aliás, é uma leitura obrigatória para quem se interessa pela história da Primeira República, mas também pela história do Brasil de modo geral. É um livro instigante que provoca reflexões sobre o tempo que vivemos também. Sim, o livro continua extremamente atual.

O pressuposto básico a partir do qual o autor desenvolve o seu argumento é esclarecedor até hoje: ao analisar as relações entre o cidadão e o Estado, o cidadão e o sistema político ou  o cidadão e a própria atividade política, José Murilo de Carvalho defende que não cabe dicotomia ou maniqueísmo de espécie alguma. Ou seja, não é possível separar os dois lados da mesma moeda (cidadão/Estado). Não existe um Estado vilão, sempre pronto a maltratar os cidadãos que, por sua vez, apresentam-se como vítimas nessa relação. Não se trata de uma relação entre um Estado/algoz e uma socidedade/vítima indefesa. Afinal, é justamente esta forma de encarar os fatos que vitimiza e bestializa o povo, quando na verdade esse povo não pode ser visto de forma tão passiva, ele também age e constrói suas próprias formas de atuação política. Antes de ser bestializado, o povo comporta-se como bilontra. Mas o olhar míope das elites insiste em tratá-lo desde sempre como bestializado.

Para não tomar o tempo alheio que pode ser dedicado à valiosa leitura deste clássico de José Murilo de Carvalho, encerro esta breve nota citando um trecho da Introdução que dá bem uma noção do livro:

"O maniqueísmo inviabiliza mesmo qualquer noção de cidadania, pois ou se aceita o Estado como um mal necessário, à maneira agostiniana, ou se o nega totalmente, à moda anarquista. Na prática, ele acaba por revelar uma atitude paternalista em relação ao povo, ao considerá-lo vítima impotente diante das maquinações do poder do Estado ou de grupos dominantes. Acaba por bestializar o povo. Parece-nos ao contrário que, exceto em casos muito excepcionais e passageiros de sistemas baseados totalmente na repressão, é mais fecundo ver as relações entre o cidadão e o Estado como uma via de mão dupla, embora não necessariamente equilibrada. Todo sistema de dominação, para sobreviver, terá de desenvolver uma base qualquer de legitimidade, ainda que seja a apatia dos cidadãos". (pp. 10-11)


Vale a pena repetir:

"Todo sistema de dominação, para sobreviver, terá de desenvolver uma base qualquer de legitimidade, ainda que seja a apatia dos cidadãos".

Um comentário:

Silvana Bahia disse...

Gosto muito deste livro! Aprendi com você!
Obrigada!