6 de dezembro de 2009

País de todos

A MORTE dessas crianças soterradas, ou arrastadas em deslizamentos e levadas e afogadas e sumidas nas águas lamacentas, as mortes de crianças, não posso dizer menos, me abalam como poucas coisas podem fazê-lo -para ser ainda mais franco: me enfurecerem como quase nada mais o conseguiria. Meu ímpeto autêntico é investir com todos os urros escritos e vociferados, com tudo o que devesse ser dito sobre a criminalidade alienada, indiferente, utilitária e inabalável que se instala sob o nome de governos, mas tem a cara de pessoas, de muita gente, gente antes e depois de gente.


Se quiser, continue a leitura, mas advertido: este não é um escrito sincero, é uma contrafação feita de bons modos ou modos toleráveis.

As falsas justificativas são sempre as mesmas, repetidas sem conta pelo país afora, ano a ano, década a década. "Estavam em área de risco", "aqui foi invasão, não podiam fazer casa aqui", "os técnicos da prefeitura estiveram aqui e avisaram do risco, mas eles não saíram".

O diálogo posterior ao desastre antevisto é sempre o mesmo, repórter e sobrevivente. "Vocês não foram avisados do perigo?", "Eles vieram aí e falaram que era perigoso, mas ir pra onde?", "E vocês ainda vão ficar aqui, mesmo depois disso?", "Ir pra onde, a gente só tem aqui, não tem pra onde ir". "E se houver outro deslizamento?". Silêncio. Fim do diálogo. O câmera enquadra os dedos grossos e enlameados afastando lágrimas no rosto desgraçado, para que desfrutemos dessa imagem por um segundo, porque a finalidade produtiva dos minutos e das suas horas é o anúncio da cerveja, do carro, do banco, das realizações municipais, estaduais e federais no "Brasil país de todos".

A causa é sempre a mesma, e não está na área de risco, na aceitação inelutável do perigo, na advertência desconsiderada. De quantos bilhões você já ouviu falar para a organização da Copa do Mundo em meio às áreas de risco, às áreas humildes em que as enchentes vão buscar nos cômodos mínimos, e de uma só vez, o que a pobreza conseguiu juntar na vida toda? Quanto, 20 bilhões, 40 bilhões? Incluídos, ou não, os 4 bilhões que o BNDES, apesar daquele Social pendurado em seu nome, vai conceder para obras nos estádios? E de quantos bilhões você ouviu falar para os Rodoaneis vizinhos às áreas de riscos, e dos outros bilhões para novas paisagens litorâneas, dezenas para submarino nuclear, para aviões de combate? Isso tudo e o mais, como logo se vê, muito comprometido com a prioridade humana ao humano.

Não só os atuais prefeitos e governadores das áreas suscetíveis de tragédias climáticas, mas também os respectivos antecessores, quantas vezes você os soube sobrevoando ou inspecionando áreas de risco, para prover mais segurança ou providenciar as retiradas e as novas localizações de moradores, com alguma parcela dos montantes destinados àqueles objetivos mencionados ali atrás?

A tragédia do sofrimento evitável é a pior das tragédias. É o que faz o horror das guerras, o que fez o horror do Holocausto, do gulag, está na fome africana -está no não ter para onde ir, na espera da desgraça maior com esse sentimento de fatalidade, que as crianças soterradas e afogadas e desaparecidas não tiveram, nem isso tiveram.
 
Por Janio de Freitas
 
Publicado na Folha de S. Paulo em 6 de dezembro de 2009.
 
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Como utilizo este espaço também para compartilhar leituras, ressalto que Janio de Freitas é sempre uma leitura indispensável para quem insiste em não se tornar cínico e não desiste jamais da indignação diante do descalabro dos sucessivos governos que temos tido ao longo da história...
 
Denilson Botelho

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