11 de dezembro de 2009

Cidadãos entre o labor e o narrar

Participei hoje como examinador da banca da monografia de Débora Silva Viana, que está se formando em História na UFPI. Sob o título “Entre o labor e o narrar: processo de modernização de Teresina na visão de seus construtores na década de 1970”, o trabalho foi para mim uma leitura prazerosa. Aprendi um pouco mais sobre a história desta cidade em que hoje vivo, especialmente sobre as transformações urbanas que autora examinou sob a orientação do Prof. Dr. Francisco Alcides do Nascimento.

Um capítulo em especial dessa monografia muito me encantou. É um capítulo em que, através de alguns depoimentos colhidos de acordo com a metodologia da história oral, Débora apresenta um pouco do modo como os trabalhadores da construção civil vivenciaram as diversas obras de modernização pelas quais a capital do Piauí passou ao longo da década de 70. Trata-se de um rico repertório de histórias de vida de anônimos operários que ergueram com as suas mãos alguns ícones da cidade.

Exatamente por isso, o título desse capítulo evoca uma música que tem tudo a ver com o processo histórico que ela pesquisou: “Tá vendo aquele edifício moço? Ajudei a levantar... pus a massa fiz cimento...” são versos da música Cidadão, cuja letra você pode conferir abaixo, assistindo a interpretação de Zé Geraldo. Com sua monografia, Débora, uma jovem historiadora piauiense, nos brinda com um pouco disto que nós chamamos de uma história vista de baixo.

Cidadão
Composição: Lucio Barbosa

Tá vendo aquele edifício moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Eram quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar
Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me chega um cidadão
E me diz desconfiado, tu tá aí admirado
Ou tá querendo roubar?
Meu domingo tá perdido
Vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar o meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que eu ajudei a fazer

Tá vendo aquele colégio moço?
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Pus a massa fiz cimento
Ajudei a rebocar
Minha filha inocente
Vem pra mim toda contente
Pai vou me matricular
Mas me diz um cidadão
Criança de pé no chão
Aqui não pode estudar
Esta dor doeu mais forte
Por que que eu deixei o norte
Eu me pus a me dizer
Lá a seca castigava mas o pouco que eu plantava
Tinha direito a comer

Tá vendo aquela igreja moço?
Onde o padre diz amém
Pus o sino e o badalo
Enchi minha mão de calo
Lá eu trabalhei também
Lá sim valeu a pena
Tem quermesse, tem novena
E o padre me deixa entrar
Foi lá que cristo me disse
Rapaz deixe de tolice
Não se deixe amedrontar

Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar

Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio fiz a serra
Não deixei nada faltar

Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar



Um comentário:

Dayse Botelho disse...

que bonito isso, meu irmão ! obrigada pelo prazer da leitura.
um beijo