20 de outubro de 2009

O centenário de Isaías Caminha: uma voz do “quilombo” desmascarando a imprensa


Ao descobrir que palavras são também ações, muita gente passa a cultivar o sonho de fazer das letras seu ofício, sua profissão. É desta forma que nascem, muitas vezes, vocações para o jornalismo e a literatura. Escrever apresenta-se como uma forma de intervir no mundo, participar, interferir na realidade. É ao mesmo tempo o exercício da cidadania e da paixão.

Tudo indica que o fascínio pela liberdade de expressão, tanto no jornalismo como na literatura, atravessa o tempo e constitui um território pelo qual nota-se um sempre vivo e renovado interesse, especialmente para os jovens de todas as idades. Esta é uma possível explicação para a efervescência que tomou conta da internet, através da qual temos conhecido uma vigorosa mídia alternativa e contra-hegemônica, blogs e outros.

Nada melhor para celebrar esse fascínio do que lembrar o centenário da publicação de Recordações do escrivão Isaías Caminha, um romance que sintetiza esses anseios literários e retrata as históricas frustrações que temos vivido nesse campo da informação e do jornalismo. Ao publicá-lo, em dezembro de 1909, Lima Barreto estreava na literatura brasileira e sacudia a imprensa carioca do início do século XX, abalando reputações e desmascarando as redações farsescas que naquele período fabricavam celebridades.

Quem se dispuser a conhecer as desventuras de Isaías Caminha, certamente há de se perguntar: o que de fato mudou de ontem para hoje? É notável a atualidade de Lima Barreto! E não pense o leitor incauto que a redação d’O Globo a que o escritor se refere era a do jornal impresso de mesmo nome que hoje circula entre nós. Esse bem pode ser um caso em que a realidade imitou a ficção, pois embora o jornal de Irineu Marinho tenha nascido somente em 1925, também especializou-se – hoje com o auxílio da TV e outras mídias – em fabricar falsas celebridades e defender certa plêiade de políticos e banqueiros, a serviço do capitalismo perverso que sempre nos vilipendiou – estratégia que Lima Barreto insistia em denunciar.

Os “intestinos” do jornal retratado naquele romance eram na verdade do Correio da Manhã, dirigido então por Edmundo Bittencourt. Ainda que desprezado pela crítica literária da época, a força de Recordações pode ser percebida através do próprio veto que o livro sofreu. Com a publicação do livro, o nome de Lima Barreto foi proscrito das páginas do jornal de Bittencourt. Isso não impediu, como relata o biógrafo Francisco de Assis Barbosa, que a tentativa de adivinhar quem tinha servido de inspiração para cada personagem se tornasse assunto freqüentado animadamente nas rodas intelectuais e nos bares da capital republicana nos meses seguintes ao lançamento.

Mal comparando, seria como imaginar um romance de um jovem e estreante escritor que ousasse ambientar sua trama desmascarando as engrenagens internas e ocultas que regem o funcionamento das organizações Globo, do grupo Abril ou outro oligopólio qualquer da mídia tupiniquim. Quem ousaria ao menos comentar o livro? Que espaço ele teria na mídia?

A força de Isaías Caminha está na temática que aborda – o mundo das letras e do jornalismo – mas também no seu criador. Lima Barreto viveu boa parte de sua vida na periferia, no subúrbio do Rio de Janeiro, o qual talvez nenhum outro escritor dessa época conhecesse tão bem quanto ele. Apelidara sua casa de “Vila Quilombo”, afirmando em seu diário que isso era uma forma de implicar com Copacabana. Mas em plena era pós-abolição, o apelido sugere a concepção do lar como um distante refúgio a partir do qual realizou com coragem e liberdade o sonho de tornar-se um literato. Sugere ainda que os subúrbios, mesmo diante da extinção formal da escravidão, insistiram e insistem em abrigar a população brasileira mais pobre e negra, que fez e faz das periferias um vasto “quilombo” fora de época.

Assim como deu vida a Isaías Caminha, Lima Barreto ainda ecoa, cem anos depois, o mesmo fascínio capaz de fazer surgir muitos outros jovens talentos negros das periferias desse Brasil, que ninguém conseguirá jamais calar.
Por Denilson Botelho
Publicado no Fazendo Media em 16/10/2009.

Nenhum comentário: