10 de outubro de 2009

Como se manipula a informação

A TV Globo está dando, diariamente, exemplos grosseiros de manipulação da informação. O último caso diz respeito à plantação de laranja da empresa Sucocítrico Cutrale, onde, para chamar a atenção da opinião pública, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) promoveu uma ação. A Globo, que é associada ao agronegócio, conforme pode ser comprovado no site desse setor, está fazendo um escarcéu, mas esconde um fato importante: a Cotrale ocupa ilegalmente a área e, além disso, a empresa está sendo investigada pelo Ministério Público do Estado de São Paulo pela formação de cartel no ramo da produção de sucos, prejudicando assim os pequenos produtores. Tem mais: a Receita Federal detectou que a Cutrale contabiliza parte dos seus lucros através de uma empresa sediada no paraíso fiscal das ilhas Caimã e, com isso, consegue realizar uma manobra contábil pagando menos imposto de renda.

Agora, cerca de 250 famílias do MST permanecem acampadas desde o dia 28 de setembro, na fazenda Capim, que abrange os municípios de Iaras, Lençóis Paulista e Borebi, região central do Estado de São Paulo. A área possui mais de 2,7 mil hectares, utilizadas ilegalmente pela Sucocítrico Cutrale para a monocultura de laranja, que demonstra o aumento da concentração de terras no país, como apontou o censo agropecuário do IBGE.

Ainda segundo a denúncia, também não divulgada pela Rede Globo – porque se fosse anularia o escarcéu contra o MST – a Cutrale também já foi autuada inúmeras vezes por causar impactos ao ecossistema, poluindo o meio ambiente ao despejar esgoto sem tratamento em diversos rios. Mas com a proteção e o silêncio da mídia, nenhuma medida foi tomada contra a empresa.

Por estas e muitas outras, em vez de criminalizar o MST com o visível objetivo de fazer o jogo do agronegócio, a Rede Globo deve ser denunciada diante da opinião pública por estar fazendo um jornalismo manipulativo e que serve a interesses escusos. É assim em todas as editorias. Naquela empresa jornalística o que importa é o lucro fácil.

Com raras e honrosas exceções, os espaços midiáticos nacionais aceitam o jogo das Organizações Globo, como se tudo o que é divulgado pelo grupo fosse considerado uma verdade absoluta. Afinal, que poder tem este grupo jornalístico que raramente é contestado? De fato, o que acontece na área midiática hegemônica destas bandas está longe de ser democrático. Na hora em que alguém contesta esse poder, imediatamente os proprietários e diretores sabujos saem em campo para denunciar uma campanha contra a liberdade de imprensa.

Na verdade, os barões midiáticos misturam alhos com bugalhos, ou seja, confundem liberdade de imprensa com liberdade de empresa, uma estratégia que ajuda a escamotear e alcançar o lucro fácil. E para enganar os incautos, ainda por cima aparecem como justiceiros e até mesmo benfeitores em comunidades carentes.

Pauta para os presidenciáveis

É hora, portanto, de a sociedade brasileira refletir e começar a ser informada sobre o que está acontecendo no setor midiático. Em poucos meses começará para valer no Brasil a corrida eleitoral para a sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva. É preciso que os candidatos a Presidente da República se posicionem e sejam perguntados pelos jornalistas sobre o mundo da mídia.

A mídia hegemônica, seja Rede Globo, Record, Bandeirantes e outras menos votadas, tentará de todas as formas evitar que o tema entre na pauta das discussões dos presidenciáveis. Como nem só de mídia hegemônica vive uma campanha política, se o tema for colocado nos mais diversos espaços midiáticos, nos blogs, em sites progressistas, em TVs e rádios comunitárias, o tema acaba entrando na pauta e obrigará os candidatos a emitirem alguma opinião. É assim que se poderá furar o bloqueio do silêncio sobre o tema, até que em alguma hora algum repórter mais ousado decida, talvez até por conta própria, fazer alguma pergunta sobre isto aos candidatos.

A sociedade brasileira, em suma, precisa ser informada, afinal de contas, no mundo encantado da televisão, é obrigação informar que os canais eletromagnéticos não pertencem a particulares, mas sim ao Estado brasileiro. Portanto, a renovação do canal não pode ser automática, sem que seja exigido um relatório sobre o tipo de atividade que a empresa concessionária do canal realiza. Isso faz parte do jogo democrático, quer queiram ou não os barões da mídia, que se reúnem periodicamente para denunciar quem questiona o poder midiático manipulativo.
Publicado no Fazendo Media em 08.10.2009

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