27 de setembro de 2009

A principal missão da literatura

Antes de descobrir Lima Barreto, conheci João Antônio. Foi João Antônio quem me ensinou a apreciar Lima Barreto e mais: desenvolveu em mim um gosto pela literatura engajada, militante.

Então compartilho abaixo um pouco do que pensava João Antônio sobre literatura:

“Precisamos de uma literatura? Precisamos. Mas de uma arte literária, como de um teatro, de um cinema, de um jornalismo que firam, penetrem, compreendam, exponham, descarnem as nossas áreas de vida. Não será o futebol o nosso maior traço de cultura, o mais nacional e o mais internacional, tão importante quanto o couro brasileiro ou o café of Brazil? A umbanda não será a nossa mais eloqüente religião, tropical e desconcertante, luso-afro-tupiniquim por excelência, maldita e ingênua, malemolente e terrível, que gosta de sangue e gosta de flores? A desconhecida vida de nossas favelas, local onde mais se canta e onde mais existe um espírito comunitário; a inédita vida industrial; os nossos subúrbios escondendo quase sempre setenta e cinco por cento de nossas populações urbanas; os nossos interiores – os nossos intestinos, enfim, onde estão em nossa literatura? (...) O caminho é claro e, também por isso, difícil – sem grandes mistérios e escolas. Um corpo-a-corpo com a vida brasileira. Uma literatura que se rale nos fatos e não que rale neles. Nisso, a sua principal missão – ser a estratificação da vida de um povo e participar da melhoria e da modificação desse povo. Corpo-a-corpo. A briga é essa. Ou nenhuma.”

João Antônio. Corpo-a-corpo com a vida. Revista Ficção, nº 4, abril de 1976.

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