16 de setembro de 2009

Bonito, gostoso e prático


Um dos temas mais momentosos da Bienal do Livro, em cartaz no Riocentro, é se o livro impresso, de papel, corre o risco de desaparecer, fulminado pelas novas tecnologias. Eu próprio, zanzando entre os stands no último domingo, fui perguntado várias vezes sobre isso.

Curiosamente, quem olhasse ao redor diria que a pergunta não fazia sentido e que a indústria do livro nunca esteve tão robusta neste país. Era um domingo de escandaloso azul, com as praias, os passeios e todas as formas de lazer grátis no Rio convidando o povo a estar em qualquer lugar, menos ali, num conjunto de pavilhões em Jacarepaguá, a mais de uma hora de Ipanema, e tendo de comprar ingresso para entrar.

Pois essa pergunta estava sendo feita em meio a montanhas de livros expostos e 125 mil pessoas, número de visitantes que, segundo a Bienal, compareceu no fim de semana. Gente que não pagou para ver malabaristas, engolidores de fogo ou artistas globais, mas romancistas, biógrafos, poetas ou autores de livros para crianças.

Respondi que, como formato, o livro é difícil de ser superado -porque já nasceu perfeito, e não é de hoje. Ele é bonito, gostoso e prático. É também portátil: pode ser levado na mão, na mochila ou na bolsa, e lido no sofá, na cama, no banheiro, na mesa do jantar, no bonde, no ônibus, no jardim, na praia, na banheira, onde você quiser. É também barato: quem não tiver dinheiro para comprar livros novos, encontrará farta escolha nos sebos e até na calçada da rua. Um livro pode nos alimentar por uma semana, um mês ou o resto da vida. E, ao contrário do CD e do DVD, não precisa de uma máquina para tocar. Basta ser aberto para poder ser lido.

Na verdade, o livro só precisa de nós.Neste momento, mais do que nunca, talvez.

Por Ruy Castro

Extraído da Folha de S. Paulo de 16 de setembro de 2009
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Em 25 de agosto reproduzi aqui a sentença de morte do livro decretada por André Forastieri. Hoje é Ruy Castro quem coloca o dedo nessa prosa, em tempos de Bienal do Livro no Rio de Janeiro.

Particularmente, eu fico com Ruy Castro, que veio trazer novos argumentos para eu insistir no que já havia dito naquela ocasião: não consigo me imaginar vivendo num mundo sem livros, até porque são bonitos, gostosos e práticos.

Denilson Botelho

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