7 de agosto de 2009

O José que não é comum

"O mal de certos políticos não é a falta de persistência:
é a persistência na falta"

(Barão de Itararé)

O José que preside (ainda) o Senado da República não é um José comum: é uma figura pública e, por isso, exposta ao permanente crivo crítico da população. Esmerado escritor, sabe, mais que seu escudeiro Lula, que sua autobiografia, que já está redigindo, só terminará quando acabarem seus dias sobre a Terra. É assim com todos os que se dispõem a mandatos de representação e função de liderança: perdem o sossego da vida exclusivamente privada. Arrumam, voluntariamente, sarna para se coçar.

José Sarney pertence a uma saga de políticos que tem longa história na vida nacional: esses que se firmaram com base na dominação oligárquica, no patrimonialismo, no clientelismo e no empreguismo, inclusive em sua forma familiar, o nepotismo. Portanto, Sarney, símbolo da mistura nefasta entre interesses particulares e públicos, é mais que Sarney. Sarney, como Renan Calheiros, Jader Barbalho, Collor e tantos outros chefes partidários, representa uma forma atrasada de fazer política.

O Brasil foi formado sem cidadania e com muita "estadania". O Poder absolutista e mercantil que nos colonizou definiu uma sociedade subordinada ao Estado, cheio de negócios privados em seu interior. O combate, hoje, é aos políticos-donatários que repetem, no século XXI republicano, o regime de capitanias hereditárias. Os "homens bons", donos de gado e gente, únicos que podiam ser eleitos para as Câmaras Municipais da colônia, seguem ativos, comprando votos, influência e consciências. O acadêmico José Sarney, da ABL, autor de "O Dono do Mar", é tido como dono do Mar...anhão. E, há três mandatos, senador pelo Amapá. O mapa da influência coronelista tem amplas fronteiras.

Não é por falta de aviso que a política no Brasil mantém essas estruturas de voto de cabresto, currais eleitorais, toma-lá-dá-cá e, como conseqüência, corrupção. Aristóteles, bem antes de Cristo, já definia política como a elevada atividade de assegurar o bem de todos, o bem comum, como a finalidade da medicina era prover a saúde de todos os humanos. Em nossas terras, mais que com a sociedade, houve encontro com a "suciedade", isto é, súcia, máfia, quadrilhas de malfeitores voltados para seus próprios benefícios, que usam o Poder Público para locupletar-se à saciedade... Foi assim no Império e é assim na República, velha, nova, novíssima, com as interrupções autoritárias, como a da ditadura mais recente de 1964 a 1985, retrocesso histórico em uma dinâmica democrática lenta e nem sempre substantiva.

E você, eleitor desatento, também é cúmplice desta marcha à ré pública. Com exceções que alinhavam esperança, muitos consideram que "é assim mesmo", que é "bobo" quem não tira vantagem do prestígio que, com lábia, dinheiro e votos, se consegue. Depois o eleitor desinformado reclama, faz que não é com ele. Às vezes esconde, envergonhado, que ajudou a eleger o bandido que agora execra.

Vai passar? Vai. Nada melhor para o continuísmo das formas arcaicas de se fazer política, isto é, politicagem, que o desinteresse da população. Mas depende da boa luta que se trave agora, contra todas as podridões que os escândalos revelam, produzindo, pedagogicamente, uma nova visão, um resgate da boa política. Depende da capacidade da cidadania, ainda em formação, em especial da juventude, de não ceder ao jogo do desencanto, da desilusão, da despolitização.

Agradeço a atenção,
Sala das Sessões, 4 de agosto de 2009.

Chico Alencar
Deputado Federal, PSOL/RJ

Pronunciamento feito na Câmara dos Deputados

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