27 de agosto de 2009

"O Corte": um retrato do neoliberalismo em que vivemos



“O corte”: vítimas do próprio veneno

No cinema os símbolos costumam representar mais do que as situações reais. Eles aparecem nas formas mais singelas, para expor significados que às vezes nos escapam. Em “O corte”, último filme do grego radicado na França, Constantin Costa-Gavras, eles estão enfeixados na pistola usada por Bruno Davert (José Garcia) para executar seu maquiavélico plano. Não é uma arma qualquer, mas uma velha pistola usada pelos nazistas durante a Guerra Mundial. Pesada, de design ultrapassado, ela provoca dores em seu braço, a cada disparo. Grande e barulhenta para os padrões atuais, ela é, no entanto, mortal. Nenhuma de suas vítimas escapa às suas balas. É uma arma, portanto, perigosa em todos os sentidos.

Trata-se, de qualquer forma, de um instrumento que deveria ter sido soterrado, mas que permanece entre nós. A pistola usada por Davert é o símbolo do nazismo, assim como são nazistas seus métodos. Davert é ex-executivo da Arcádia, conglomerado produtor de papel e derivados, que, demitido, devido à reestruturação da empresa, após uma fusão, decide retomar seu emprego. O esquema por ele armado tem a “pistola nazista” como principal instrumento para que possa atingir seus fins. Pouco importa que Davert não o tenha feito de caso pensado ou que não tenha tido condições de comprar uma arma moderna, menos pesada ou barulhenta. O que vale é que ele o faz, com eficiência.

A arma, no entanto, é o símbolo que se expande por toda uma estrutura à qual pertenceu Davert e para a qual ele quer voltar. Davert é um executivo moderno, que usa todos os métodos possíveis para manter o sistema formado pelas empresas que sustentam a globalização e o neoliberalismo. E com isto conserva seu emprego e alimenta a cadeia de lucros dos acionistas. Entre as ações que lhe permitem continuar servindo ao sistema estão as chamadas “reestruturações produtivas”. Estas nada mais são que reduzir custos conquistar fatias de mercado, a partir da implantação de novas tecnologias de produção (aquisição de máquinas modernas), redução de salários, de direitos trabalhistas e sociais (aposentadorias, seguros, etc.) e, principalmente, demissões de pessoal em todos os níveis, inclusive, de altos executivos.

Numa das cenas que ajudam a compreender esta estrutura, Davert discute com uma de suas vítimas potenciais os métodos usados pelos conglomerados. Descarregam sobre si mesmos todo o fel disponível: de que, eles, altos executivos, quando estão empregados fazem o diabo para satisfazer ao voraz apetite dos acionistas por lucros colossais. Não importa a que custo, eles, os executivos sempre conseguem atender a essas “entidades sem rosto”, formadas também pelos investidores (especuladores), que muitas vezes atendem pelo nome de mercado. São elas, as “entidades sem rosto”, que se reúnem no final de ano, quando se materializam nos conselhos dos conglomerados e nos integrantes das assembléias de acionistas para examinar os balanços das empresas em que colocaram seus dólares e euros.

Enquanto aguardam o resultado das assembléias de acionistas, esses altos executivos suam. Estão em jogo seus bônus e, porque não, seus empregos. E, como num jogo de carteado, podem perder tudo que conquistaram com a intervenção do representante do grupo de acionistas, exigindo mudanças na gestão do conglomerado. Se escapam, no máximo, podem prometer em troca a “reestruturação produtiva”, com todas as conseqüências que isto implica. É cíclico. Davert, que viveu estas situações, sabe como elas são. A pistola, símbolo maior de “O corte”, é a extensão dos conglomerados que usam métodos nazistas para manter seu lucro e poder. Davert é fruto dessa estrutura. Depois de ficar mais de dois anos desempregado, vítima da fusão do conglomerado Arcádia e sua posterior reestruturação, decide retomar seu emprego. Porém, para fazê-lo precisa enfrentar seus concorrentes – entre eles o atual ocupante de seu antigo cargo: Raymond Mâchefer (Olivier Gourmet), um competente executivo.

É então que Davert põe seu maquiavélico plano em prática:matar todos os pretendentes a seu antigo cargo. Para isso usa a pistola-símbolo do nazismo. O encadeado dessa trama, baseado na novela “AX”, de Donald Westlake, é ampliado a tal ponto que a torna fantástica. Tal é a quantidade de concorrentes que separa Davert de seu intento que ele não os encara mais como pessoas, mas como obstáculos a serem superados. Suas ações vão se exacerbando, os cadáveres se acumulando, enquanto ele, paranóico, apenas conta os que restam para atingir seu objetivo. Nada em volta lhe interessa; nem mulher nem filhos, tão só os meios a usar para ter seu emprego de volta.

Às vezes aquele número de cadáveres nos faz compreender a magnitude da tarefa do ex-executivo: o sangue que terá de derramar, as variantes de vítimas que surgem, os riscos que ele corre e, por fim, a situação em que sua família é colocada. O painel que vai se formando a cada tentativa de eliminação é assustador. O clima se adensa, como a se demonstrar o absurdo da tarefa a que Davert se propôs. Seu plano difere da doentia compulsão do assassino em série, cuja ação encerra-se no ato em si. O plano de Davert vai para além da eliminação; sua ação é conseqüência de uma prática comum: a de eliminar pessoas, tirando-lhes o emprego que lhes dá sustento. Para isto, manipula números, estatísticas, valores, que podem ser apagados e recuperados lá na frente, com simples digitar de teclas. Sua relação com os trabalhadores se reduz a isto. Faz parte do reduzido segmento social acostumado a mandar, ter poder, fazer rolar cabeças, que já nem sentem o que fazem. Mas que, ao perderem o emprego; se transformam em seres deprimidos, rancorosos, frustrados, insatisfeitos com a situação a que foram reduzidos.

Costa-Gavras os mostra do outro lado da estrutura à qual um dia pertenceram. De algozes são agora vítimas. Um deles sucumbe aos prantos aos pés de Davert, o outro, balconista de fim de semana, destila rancor entre risos e cinismo. O tempo que estão fora do mercado de trabalho os desatualizou, não conseguirão mais competir; ficaram defasados. A tecnologia os fez sucata. Justo eles, que, como Davert, buscam ter como ponto forte a sucessiva renovação tecnológica. O quadro que sai de “O corte” é esclarecedor. Executivos que, quando nos altos cargos, comportam-se como deuses, ao estarem desempregados, na visão de Costa-Gavras, seu co-roteirista Jean-Claude Grumberg, e o novelista Westlake, perdem todo o senso de realidade. Têm que oferecer sua mão-de-obra como qualquer operário ou trabalhador comum. É o único bem que têm a oferecer, embora morem em verdadeiros palacetes, localizados em bairros nobres de alta classe média.

É como se fossem mendigos bem vestidos, morando em palacetes. Sofrem, no entanto, dos mesmos percalços do trabalhador comum. Davert, tomado pela compulsão de eliminar seus concorrentes, um a um, vê seu castelo desmoronar. Sua mulher, Marlene (Karin Viard), o vê como estranho, perde com ele a ligação, o filho Máxime (Geordy Monfils) passa a assaltar lojas de equipamentos de computação, e a filha Betty (Christa Theret) tem acessos de exibicionismo. Ele mesmo, Davert une sua compulsão à paranóia, usa seu carro como arma. As situações se complicam a tal ponto que ele delira, não há mais distância entre os corpos que tem de eliminar e a luta pela reconquista do emprego. A originalidade de “O corte” é que é difícil de se simpatizar com Davert: é um crápula, feito com extrema competência pelo ator José Garcia. Espera-se, a todo momento, que ele se dê mal.

A cada seqüência, essa parábola amoral torna o absurdo, o quase inverossímil, um jogo de coincidências. Cada peça se encaixa, pois os adversários de Davert estão desestruturados, não são mais seres humanos de alto nível, mas zumbis que perambulam por escaninhos na forma de currículos oferecendo sua mão-de-obra a qualquer preço. Costa-Gavras não os quer punir; só mostrar o quanto ele, Davert, e seus concorrentes são vítimas da estrutura que ajudaram a construir – viraram pedras descartáveis, como lenços de papel que se pega, enxuga o rosto e se descarta no lixo. Os cadáveres que vão se empilhando ao longo do filme são iguais àqueles que Davert e demais executivos espalham quando ocupantes de altos cargos, com direito a bônus pelos lucros proporcionados aos acionistas dos conglomerados que dirigem.

Não importa o número de vítimas que fazem em suas “reestruturações produtivas” ou na já superada “reengenharia empresarial” – a empresa para sobreviver na desenfreada competição precisa delas para sobreviver. São elas, as vítimas, que lhes dão sobrevida. Fazem parte, como já dizia Marx, do exército de reserva do capital. Davert não pode mais afastar aqueles que podem lhe tirar a chance de recuperar seu emprego, demitindo-os, precisa usar a “pistola nazista” para eliminá-los. Poder-se-ia substituí-la por outra arma, um míssil, por exemplo; não importa. O que importa é que o método não é o diálogo, a competição, que Davert quer usar, mas a eliminação. Há algo mais simbólico para a globalização do que a eliminação, via “arma-nazista?”

Costa-Gavras atrai o espectador para o cruel redemoinho do hiper-capitalismo, que transformou sonhos, desejos, ações humanas em produtos. O diálogo entre Davert e um de seus concorrentes ao antigo cargo, mostra que estão atinados ao que pretendem os conglomerados. Divagam sobre o que poderia ser feito aos aposentados para ir eliminando-os aos poucos. Não se trata, na verdade, de divagação, mas de projeção. Elimina-se a assistência social e se reduz os salários; eles, os aposentados, não terão mais com o que se sustentar – irão morrer um atrás do outro. Surge, com isto, a imagem dos crematórios, dos comboios se encaminhando para as câmaras de gás. Eles já não contam, passaram da fase produtiva, só trazem despesas, encargos. Chegam a falar nos costumes dos esquimós, que antes deixavam seus queridos congelarem até a morte, para livrar-se deles.

Há algo de programado nisto. Junto com os aposentados, figuram os quarentões, os cinqüentões, todos que ultrapassaram a barreiras dos que não mais interessam ao sistema. Sua produtividade e consumo não evoluem numa escala progressiva, eles decrescem à medida que os encargos com eles crescem. Principalmente na transição da maturidade para a velhice. Há, assim, um cálculo da idade média que atende ao ditame dos conglomerados para a manutenção do emprego e da progressão do consumo. Ocorre que na outra ponta estão os jovens, que por inexperiência não chegam ao mercado de trabalho. Têm, desta forma, seu “status-consumista” bloqueado, pois quem os sustenta não pode fazê-lo. As duas pontas (maturidade/velhice e juventude) terminam por se tornar vítimas do hiper-capitalismo. Costa-Gavras não desce a esses detalhes, embora os incorpore em “O corte” através de Máxime que parte para o roubo, Betty que se aliena, e Davert que vê como saída a eliminação pura e simples de seus adversários – só Marlene, sua mulher, luta para manter a sanidade.

Essa projeção do hiper-capitalismo como ameaça à estabilidade do trabalhador e de sua família, seja em que cargo ele estiver, está mais clara em “Em Boa Companhia”, do norte-americano Chris Weitz. É a história do executivo, Dan Foreman (Dennis Quaid), que perde o cargo para o jovem inexperiente, Carter (Topher Grace), devido à fusão da editora em que trabalha com um conglomerado da mídia. Seus colegas de diretoria vão perdendo o emprego, um a um, enquanto ele se vê com a espada sobre a cabeça a todo instante. Chega a ver sua família ameaçada, e ele sem condições de sustentar a filha na faculdade. Ao contrário de Davert, é o herói clássico, que se insurge contra seu novo empregador, desmascarando-o diante de todos seus empregados, no momento em que visitava a nova empresa.

Foreman surge diante do chairman, feito com inusitada ironia por Malcon McDowell (“Laranja Mecânica”), no instante em que este expunha toda sua verve de trapaceiro. Sem rodeios, chama atenção para as conseqüências das tramóias do “nobre homem”, que objetiva tão somente o lucro. Mas não o faz no sentido transformador, sua intervenção é solitária, acaba naquele mesmo instante. Mesmo porque, como executivo, colabora para as regras do jogo, ainda que coloque menos cadáveres pelo caminho e seja querido pelos colegas de trabalho. Seu comportamento, mesmo que ao estilo americano, não deixa de ser contundente. Ainda assim contribui para o entendimento desta etapa de desenvolvimento do hiper-capitalismo.

De qualquer forma, Foreman é diferente de Davert. É o herói positivo. Seu contraponto francês, Davert, é mais corrosivo, individualista. Tem perfil mais adequado à concorrência feroz estabelecida entre os próprios trabalhadores, nos mais diversos escalões – da produção ao trabalho intelectual -. Está completamente isolado de sua categoria, que age por si, não em conjunto. Sua única aliada é a pistola, que é símbolo daquilo que pode ser usado para eliminar a concorrência. Ele, Davert, a utiliza para atingir seus fins, enquanto o conglomerado e a empresa capitalista moderna o fazem através da fusão, do cartel, do monopólio ou da simples compra do concorrente. O fim, no entanto, é o mesmo: acabar com a concorrência.

Trata-se do exagero do individualismo e da concorrência elevada à enésima potência, uma vez que não vê mais o oponente como corrente, mas como obstáculo que deve ser eliminado com um disparo certeiro. A cena em que Davert chega a Mâchefer, oponente derradeiro, é engenhosa pelo que tem de cômico, suspense e tensão. Mâchefer, falastrão, autoconfiante, divide-se diante dele entre a arma, que aponta para o desconhecido Davert, e a tentativa de entender o que se passa. Só que está bêbado, mal se mantêm de pé. Davert tenta contornar a situação sem perder de vista seu intento. Vão discutindo a situação da empresa e as conseqüências da fusão. São pessoas do mesmo segmento social, acostumadas a situações-limites, a tomar decisões sob pressão, e vão se enrolando, trazendo o espectador ao humor ácido, cujo resultado não se prevê. São dois seres ladeira abaixo, presos a engrenagens que controlam só quando estão no leme, quando dela se distanciam, nenhuma reação digna conseguem ter.

Um filme com esse perfil não chega às massas. Acaba nas diminutas salas do circuito de arte. Precisa ser descoberto por aqueles que se interessa por temas polêmicos e os enfrenta. Costa-Gavras, diretor dos polêmicos “Z”, sobre a ditadura grega, e “Estado de Sítio”, sobre a ditadura uruguaia, sabe onde pisa. Seu filme é ambientado na França, país em convulsão política, social e econômica. “O corte” abre várias vertentes para a discussão de temas atuais, inclusive aqueles relacionados à segurança. Sobra, em suas críticas à globalização e ao neoliberalismo, farpas para a polícia que, ao estar diante de Davert não o vê como suspeito, mas alguém a alertar para não ser vítima do assassino em série de altos executivos. A investigação por ela empreendida não avança para os caminhos percorridos por ele. Pelo contrário, reforça a certeza de que a própria estrutura cria álibis que o protegem da punição. Não é diferente do que ocorre na realidade. É só olhar em volta.

Autor: Cloves Geraldo, Jornalista e cineasta, dirigiu os documentários "TerraMãe", "O Mestre do Cidadão" e "Paulão, Líder Popular". Escreveu novelas infantis, "Os Grilos" e "Também os Galos não Cantam", além de poesias.

Publicado no Portal Vermelho em 19/05/2006.
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“O corte” (Le Couperet)Produção: França, Bélgica, Espanha, 2005. Direção: Constantin Costa-Gavras. Elenco: José Garcia, Karin Viard, Geordy Monfils, Christa Theret, Olivier Gourmet

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