6 de julho de 2009

Veias abertas à democratização da mídia

O livro “A batalha da mídia – governos progressistas e políticas de comunicação na América Latina e outros ensaios” não poderia ter sido publicado em momento mais oportuno. A partir da compreensão do poder que a mídia exerce sobre a vida das pessoas – e também nas políticas de Estado – Denis de Morais traz a comunicação para o centro do debate e escancara a sua urgência, enquanto boa parte da esquerda segue ignorando a centralidade da luta pela democratização dos meios de comunicação.

A mídia, hoje, é a instituição com maior capacidade de forjar consensos, moldar opiniões e reproduzir subjetividades. Isso significa estabelecer formas de pensar e agir das pessoas, das instituições e, consequentemente, do próprio país. Enquanto as outras instituições de controle – família, escola, exército etc. – estão restritas a determinadas áreas de atuação, a mídia atravessa todas elas.

Por isso é dramática a concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucas empresas privadas, como é o caso brasileiro. Um pequeno exemplo disso é citado nas páginas 112 e 113: “Seis empresas de mídia controlam o mercado de TV no Brasil, um mercado que gira mais de U$3 bilhões por ano. A rede Globo detém aproximadamente metade deste mercado, num total de U$ 1,59 bilhão. Estas seis principais empresas de mídia controlam, em conjunto com seus 138 grupos afiliados, um total de 668 veículos midiáticos (TVs, rádios e jornais) e 92% da audiência televisiva; a Globo, sozinha, detém 54% da audiência da TV”.

Para além do caso brasileiro, o autor traça um panorama bastante amplo da comunicação na América Latina e indica as diferenças das políticas implementadas pelos principais países da região. O Brasil é um dos países mais atrasados, tanto em termos de concentração quanto ao que diz respeito à legislação para o setor – cujo arcabouço é oriundo da ditadura civil-militar de 1964. Apesar do notório avanço do atual governo em relação ao anterior em diversas áreas, no que tange à comunicação o que se tem são políticas mínimas, geralmente localizadas no Ministério da Cultura, enquanto as diretrizes gerais são determinadas pelo cartel privado que se apossou do Ministério das Comunicações sem encontrar resistência do presidente Lula.

Por outro lado, os governos mais progressistas da região têm investido pesado para recolocar o sistema de comunicação a serviço do povo. “Mesmo acossados nas guerras audiovisuais e impressas que lhes são movidas, os presidentes Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa têm mantido a determinação de modificar os sistemas de comunicação”, esclarece o autor.

E exemplifica: “Bolívia e Venezuela reestatizaram as empresas de telecomunicações. Em maio de 2007, Hugo Chávez nacionalizou a CANTV, garantindo a soberania nacional em matéria de telefonia pública. A empresa já responde por 80% da telefonia móvel, 18% da telefonia fixa e 20% do acesso a internet. O programa da Venezuela para o qüinqüênio 2010-2012, com investimento inicial de U$ 1,8 bilhão, inclui uma lei de regulação das telecomunicações; a integração das redes de fibra ótica do Estado; a colocação em órbita do satélite Simon Bolívar; a criação da empresa mista de telecomunicações Grannacional; a instalação de cabo submarino Cuba-Venezuela; o funcionamento da fábrica de celulares e o desenvolvimento da televisão pública” (página 118).

A leitura de “A batalha da mídia” também ajuda na compreensão do atual momento político latinoamericano. Conhecer a estrutura comunicacional no continente facilita, por exemplo, o entendimento do recente golpe de Estado em Honduras. Certamente uma pessoa informada pela TV Globo terá uma opinião muito diferente de outra que ficou sabendo da história pela Telesul – a TV multiestatal de Venezuela, Cuba, Argentina, Uruguai, Bolívia, Equador e Nicarágua. Segundo Denis, “a emissora propõe-se a pluralizar as interpretação dos fatos e refletir posicionamentos dos movimentos sociais, geralmente tratados com desconfiança pela mídia tradicional, como acontece com o MST.

Assim, enquanto a Globo mostra apenas as manifestações favoráveis aos golpistas, a Telesul exibe imagens de protestos e abre espaço para o presidente deposto, além de destacar a relação do movimento golpista com os interesses estadunidenses – fato omitido pela TV Globo.

Se o Brasil quer avançar no campo da comunicação, professores de todo o país devem usar “A Batalha da Mídia” em sala de aula. Jornalistas, com ou sem diploma, devem decorá-lo. Médicos e juízes devem conhecê-lo. Garis e porteiros devem tê-lo. Desempregados devem encontrá-lo. Todos precisam ler esse livro, especialmente os participantes da I Conferência Nacional de Comunicação, que agora têm uma nova arma para o encontro que será realizado em dezembro deste ano, em Brasília.

Lutar pela democratização da mídia em nosso continente, conclui Dênis de Moraes, “Significa viabilizar uma América Latina de veias abertas à recuperação e à multiplicidade de bens e sonhos que lhe foram historicamente usurpados”.

Por Marcelo Salles

Extraído do www.fazendomedia.com

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