5 de julho de 2009

Diploma de jornalista: o buraco é mais embaixo

“...sambista não tem valor nessa terra de doutor e seu doutor o meu pai tinha razão”, canta Paulinho da Viola, no samba intitulado “14 anos”.

Acrescento ao sambistas sem valor os pedreiros, carpinteiros, maquinistas, estivadores, lixeiros, lavradores, camponeses, cortadores de cana, peão de fazenda e de obra, barrageiros, bóias frias, ascensoristas, cobradores, motoristas, carregadores, domésticas, faxineiras e pescadores. A lista é imensa. Esses milhões, a ninguenzada, como dizia o saudoso Darcy Ribeiro, que construíram e constroem o Brasil, têm um traço em comum: exercem profissões de trabalho manual. E é aqui que a cousa pega. Nesse nosso país de doutores, trabalho manual, braçal, é quase indigno. Vale pouco e ganha pouco, herança terrível de 400 anos de escravidão, que pesa sobre nossos ombros.
Vejam que exemplo histórico: José Thomaz Nabuco, filho do intelectual e abolicionista Joaquim Nabuco, no livro “Um médico do Brasil Colônia”, editora Nova Fronteira, 1986, às tantas narra que nosso antepassado comum, Manoel Fernandez Nabuco, chegado à Bahia em 1763, vindo da Vila de Escalhão, Portugal, era médico, naquela época chamado cirurgião, e para ter seu diploma reconhecido pelo cirurgião mor da corte e a licença de “el rei” para exercer sua profissão precisou provar que seus pais e avós paternos e maternos viviam de “suas fazendas”, ou seja: das suas rendas, o que significava não terem exercido trabalhos manuais ou braçais.

Que carga pesada herdamos. Para limpar essa marca ignóbil, que vem de muito longe, ter um diploma universitário é uma das formas mais buscadas e aceitas. Então dá-lhe abertura de faculdades de fachada, arapucas pra tomar dinheiro basicamente dos filhos dessa “ninguenzada” que listei antes. O cidadão, a cida-dã, vai continuar feirante, mecânico, manicure, vendedora, auxiliar administrativo, mas poderá, com orgulho, dizer “eu tenho um diploma da faculdade”, ou melhor e mais bonito, “eu sou doutor”.

Todos os bacharéis e licenciados formados no ensino superior são doutores sem ter feito mestrado e muito menos doutorado. São os advo-gados, médicos, dentistas, engenheiros, procu-radores, juízes, deputados... até os delegados de polícia. Os bacharéis que são doutores.


Como titulei, o buraco é mais embaixo. O que precisamos, de fato, é tratar dignamente, principalmente remunerar dignamente todo esse povo, esses milhões que fazem nosso país. Se assim fizéssemos, não haveria essa pressão violenta para conseguir o diploma universitário. Uma boa formação, um bom ensino de segundo grau, um bom salário bastariam para uma vida digna e cidadã.

A profissão de jornalista é muito importante, fundamental mesmo para se construir sociedades democráticas, plurais, mais justas e igualitárias. Seu reconhecimento e regulamentação não deve se limitar à obrigatoriedade do diploma universitário. Deve ser bem remunerada, prote-gida nos seus direitos e benefícios e admirada pela qualidade da sua produção, independência, senso crítico e ético e não apenas por um diploma que, no mais das vezes, veio de faculdades nascidas para aplacar a mancha horrenda de não sermos doutores.

Com essa visão, me pergunto por que precisamos de advogados, que obrigatoriamente precisam de diplomas de faculdades de direito, geralmente de baixíssima qualidade. Deveríamos também poder defender nossos direitos de cidadãos frente a qualquer arbitrariedade, seja da esfera pública ou da privada, com ou sem advogados, mas sim protegidos por uma vivência democrática, a constituição federal e um conjunto de leis conhecidas e respeitadas. Assim fosse e esse imenso cartório, essa reservona de mercado seria menor e menos nociva. Nada contra os advogados, penso que isso vale para muitas outras profissões que poderão ser exercidas sem a obrigatoriedade do diploma universitário específico. Claro que a sofisticação e diversidade das atividades econômicas exigem formação especializada, inclusive bons advogados. Mas insisto: não é apenas a obrigatoriedade do diploma que a possibilita.

Essas reservonas não interessam aos jornalistas, às suas lutas e reconhecimento. Penso que eles precisam trazer para esse nobre ofício um número cada vez maior de gentes com talento, com ou sem o diploma, inclusive os milhares de jovens que hoje lutam para dar voz à suas comunidades através de rádios comunitárias, jornais, revistas, blogs e outros variados meios por todo esse nosso Brasil.

Wagner Nabuco é historiador, diretor-geral da Caros Amigos, sem diploma de administrador de empresas.

Extraído do Correio Caros Amigos, boletim enviado por e-mail.

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