31 de março de 2009

Jarbas Passarinho: "O Brasil foi salvo de virar uma imensa Cuba"

Passados 45 anos do Golpe de 1964, mais uma voz dos porões da Ditadura se levanta. Desta vez é Jarbas Passarinho, orgulhoso ("participei de dois golpes de Estado"), no Jornal do Brasil de 31 de março de 2009:

1964, o Brasil e o golpe preventivo

Jarbas Passarinho

EX-MINISTRO DO GOVERNO MILITAR

Participei de dois golpes de Estado: um como tenente, cumprindo ordem superior, e outro coordenando-o como tenente-coronel, no Pará. No primeiro, depusemos o ditador Getúlio Vargas, em 1945. O general José Pessoa, em nome do Exército, foi à casa do ministro José Linhares, presidente do Supremo Tribunal Federal, e, em nome das Forças Armadas, convidou-o a assumir o governo e convocar eleições, que logo se realizaram.

O segundo golpe proveio do "apelo dos civis à consciência dos militares", para com os desmandos do governo e uma ameaça, em plena guerra fria, de aliança do governo com os comunistas. No Pará, onde eu servia, havia-nos preparado para prevenir um autogolpe de Jango, aliado a Prestes, intentando o estado de sítio e a reforma arbitrária da Constituição, enquanto, paralelamente, Leonel Brizola pregava o fechamento do Congresso. A aliança com o PCB, do qual Prestes era o primeiro-secretário, conta-a Luiz Carlos Prestes no livro Prestes, lutas e autocríticas, por ele ditado a Dênis de Moraes, revela, ademais, que Goulart, em plena expansão do comunismo internacional, "até já compreendia o papel que exercia a União Soviética". Fixamo-nos no plano de resistência ao que um comunista, que não deforma a história, denominou de pré-revolução, com apoio dos líderes sindicais e dos sargentos. Em Brasília, sargentos da Aeronáutica e da Marinha, armados, tomaram, em setembro de 1963, o quartel dos fuzileiros, ocuparam os ministérios e os órgãos de comunicação. Travaram luta com tropas do Exército, com mortes, até se renderem. Em março de 64, outro motim. O dos marinheiros no Rio de Janeiro. Os fuzileiros navais que, de ordem do ministro da Marinha, foram mandados prendê-os, solidarizaram-se com os amotinados. O presidente aceitou a demissão do ministro e o substituiu por outro simpático aos revoltosos. A disciplina e a hierarquia, pilares de qualquer força armada, desmoronadas, transformaram os amotinados em bandos armados prestigiados pelo próprio presidente da República. No livro de Prestes, há uma passagem em que Jango quis apresentar-lhe uma dezena de generais que lhe seriam leais. Prestes diz que nunca foi apresentado aos generais, mas que "Jango se enganava com eles, pois lhe conhecia a postura anticomunista".

A desordem civil e a amotinação dos militares graduados já eram parte da disputa pelo tomada do poder. Que mais faltava para conquistá-lo? A imprensa, com a única exceção da Última Hora, clamou pelo afastamento do presidente Goulart. No Rio de Janeiro, o Correio da Manhã, no dia 30 de março, clamava, na primeira página: "O Brasil já sofreu demasiado com o governo atual. Agora Basta!". No dia seguinte: "Só há uma coisa a dizer ao senhor João Goulart: saia!". O Correio não estava só. O Jornal do Brasil, em editorial, levanta a suspeita de ameaça comunista: "Quem quisesse preparar um Brasil nitidamente comunista não agiria de maneira tão fulminante quanto a do Sr. João Goulart a partir do comício de 13 de março". Da mesma ameaça trataram editoriais de O Globo. A Folha de S.Paulo, em face do comício, em que as bandeiras da foice e martelo desfilavam na frente do palanque de Goulart. A Folha desafiava: "Resta saber se as Forças Armadas ficarão com o presidente, traindo a Constituição, ou defenderão as instituições e a Pátria". O prestigioso jornal Estado de Minas se antecipara. A 18 de março, alertava: "A sorte está lançada. Ninguém tem mais o direito de iludir-se. Abrem-se agora dois caminhos ao Brasil: a democracia e o comunismo". Em São Paulo, a passeata Com Deus e pela Liberdade, liderada pelas mulheres, contou com quase 1 milhão de civis e religiosos. Goulart, no auge da agitação e da falência da disciplina militar, proferiu, dia 30 de março, exaltado discurso no encontro com um milhar de sargentos, que o homenageavam no Automóvel Clube do Rio de Janeiro. Prestes comenta no livro: "Qual é o oficial do Exército que vai ficar tranquilo sabendo que o presidente da República se dirige, naquela linguagem, aos sargentos?". Jango detonou a contra-revolução, apoiada maciçamente pelo povo. Não houve um só tiro disparado.

São passados 45 anos. A contra-propaganda da esquerda ousa negar provas indesmentíveis. A verdade incomoda e a isso não voltarei. É inútil convencer mitômanos. O Brasil foi salvo de virar uma imensa Cuba.

Jornal do Brasil, Terça-feira, 31 de Março de 2009

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