21 de março de 2009

Conflitos na escola

Li em uma reportagem que Gloria Perez, autora da novela "Caminho das Índias", não se interessa em retratar pessoas reais. Mas retrata situações bem reais, como as do núcleo que se reúne em torno da escola: alunos, seus pais, a professora e a diretora.

Para quem nunca assistiu à novela, resumo essa parte da trama: um grupo de jovens de uma sala se comporta de forma desrespeitosa e até violenta dentro e fora da escola. Eles intimidam colegas e os agridem verbal e fisicamente, destratam a professora, cometem furtos e desrespeitam todas as normas de uma convivência civilizada.

A professora e a diretora se mostram impotentes diante dos acontecimentos, o que contamina todos os colegas da classe. Os pais são continuamente convocados pela escola para ouvir reclamações a respeito do comportamento de seus filhos.

Há pais prepotentes que invadem a sala de aula e aceitam o comportamento do filho e pais submissos que repassam as reclamações da escola aos filhos em forma de ameaça. Enfim, um instantâneo das relações entre pais e escola muito real.Por isso mesmo, serve como pretexto para voltarmos a esse assunto, já que essa parte da novela tem acirrado as relações entre pais e professores.

A escola e os pais dos alunos, de modo geral, têm se estranhado faz um bom tempo. Os motivos são vários e diferentes entre si, mas todos concorrem para promover um grande desgaste em alguns componentes importantes dessa relação.

Restaram, então, a desconfiança mútua e a reclamação. Pais reclamam da conduta da escola, professores reclamam de alunos e de seus pais; pais desconfiam que a escola não cumpre seu papel a contento, professores desconfiam que os pais não educam bem seus filhos.

Sabemos que as escolas poderiam fazer bem mais e melhor do que fazem por seus alunos, mas estão submetidas em demasia aos valores e ideais que a sociedade tem valorizado e, por isso, hesitam na experimentação de novas formas de organização e ensino, não incluem o rigor como parte constituinte de seu trabalho e, principalmente, não sabem como instituir uma autoridade democrática com os alunos, tampouco com os professores. Estes compõem atualmente uma categoria subestimada pela sociedade e que se subestima em sua capacidade de intervir nas situações problemáticas que enfrenta cotidianamente.

Por outro lado, sabemos que a educação familiar está em declínio principalmente porque os pais, sujeitados a valores contemporâneos, notadamente o da manutenção da juventude e o da busca incessante da felicidade, mostram-se incertos quanto à necessidade de estabelecer uma relação de autoridade afetiva com os filhos.

A guerra instalada entre pais e professores por vezes corre solta e ruidosa, mas também pode ocorrer em silêncio, quase em segredo. Pois bem, se queremos bem às novas gerações, precisamos de uma trégua.

Vamos dar férias a esse comportamento belicoso que tem sido estimulado pela trama da novela. Esse tempo é necessário para que a confiança seja (re)estabelecida com reciprocidade e, então, cada escola tente construir com os pais de seus alunos uma relação que renda bons frutos para os mais novos.

Por Rosely Sayão

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