28 de dezembro de 2008

Juventude


Será coincidência o fato de estrear no dia de Natal? Eu gostava muito do Natal na minha juventude. Nas festas, depois da meia-noite, tinham mais de cem pessoas na minha casa imbuídas de fúria natalina. A idéia de estar comemorando o aniversário do Cristo depois do terceiro uísque me emocionava às lágrimas. Afinal, o amor cristão é uma beleza. Por mais que isso hoje soe estranho. O amor pelo outro, seja quem for, único e insubstituível, o que não devemos fazer porque não queremos que nos façam, a identidade do um com o outro, emocionava ao limite minha alma jovem. Depois esse meu gosto arrefeceu. Não sei se a festa evidenciou demais seu propósito consumista ou se passei a amar menos meus semelhantes, não sei. Hoje em dia se quero fazer uma ceia de Natal, encontro duas ou quatro pessoas, no máximo, para convidar. Todas um pouco entristecidas por não acreditarem mais em Papai Noel. Não se abre mais a árvore.

Lembro também de três rapazes representando uma peça no colégio com dez ou doze anos, fantasiados de Cardeais, com muito talco na cabeça. O meu personagem tinha 72 anos, o outro 69 e o terceiro 77. Eram inacreditavelmente velhos. Enquanto nós éramos inacreditavelmente jovens.

Um deles tornou-se um advogado internacional e ganha muito dinheiro.

O outro, que dentre nós era o que mais agradava as mulheres, foi ser neurologista em São Paulo e não ganhou tanto dinheiro assim.

E esse seu criado Domingos Oliveira tornou-se um Artista porque não tinha talento para mais nada e fazer arte é melhor do que trabalhar. Apesar de que depois a arte o envolveu e possuiu. Mas não conseguiu economizar quase dinheiro nenhum. Tudo o que teve colocou nas peças e nos filmes. E não se arrepende por nem um minuto. Plagia Sócrates e costuma pensar “não admito que alguém diga que teve uma vida melhor que a minha”.

“Juventude” narra o encontro desses três meninos / velhos e da juventude que nunca nos larga. A Juventude, para quem tem a mínima humildade, é um sentimento persistente. A vida passa como um rato na sala e nós continuamos a achar que tudo foi ontem. Não, não pensem que o filme é saudosista. Não se tem muita saudade daquilo que aconteceu ontem. É uma comédia talvez comovente sobre essa amizade e a perplexidade. Perplexidade sobre o significado de um mundo deslumbrante onde viemos parar sem saber por que e de onde teremos de sair em breve. Muito antes de entendê-lo. “A libido morre bem depois da esperança”, diz uma personagem.

Há certas coisas que tenho dificuldade de confessar. Poucas. Uma delas é que não gosto muito de jazz nem acredito muito nos lançamentos. Se um filme tem que pegar, ele pega, tem garras pra isso. De modo que eu lanço esse meu 13º longa quase sem dinheiro nenhum. Ou seja, dependendo do entusiasmo que o filme pode suscitar. Dependendo decisivamente de um fértil boca-a-boca.

Mas como criar esse bochicho sem que muita gente o veja? Como fazer com que muita gente o veja se a concorrência do cinema é enorme e tiram teu filme de cartaz na semana seguinte, a não ser que muita gente o veja? Lançando com centenas de cópias como os blockbusters. Quem sou eu? Não tenho nem a cópia em película. É um lindo digital. Só resta um recurso. Pedir aos amigos, admiradores, fãs, empregados, patrões e colegas que vejam o filme na primeira semana, caracterizando assim o “sucesso”.

Me pergunto por que as platéias que viram o filme acham emocionante, choram e tudo. E riem muito. Sabia que era um filme inteligente e até curioso. Mas emocionante, nunca pensei. Até ver cinemas cheios de pessoas de olhos molhados aplaudindo com entusiasmo. O filme ganhou prêmio em vários festivais. Por que essa genuína emoção? O filme não tem grandes aventuras, não tem mulheres bonitas, somente três velhos conversando durante uma madrugada. Se os assuntos são interessantes? Muito. Eles falam sério. Mas assim mesmo, é difícil compreender as lágrimas. Tenho a impressão que funciona do seguinte modo: Os velhos se emocionam porque encontram uma voz, porque se identificam. Os mais jovens se emocionam em ver aquilo que lhes espera... Por constatar que a velhice não estabiliza ninguém, que continuamos com os mesmos problemas vida afora. Dinheiro, mulher, filho, e a citada perplexidade. Sempre presente. Enfim, temos todos a mesma idade, todos carneirinhos à espera do corte, como se dizia na Rússia de Dostoievski.

Os amigos agora são Paulo José e Aderbal. Aderbal está um verdadeiro galã, nosso George Clooney. Nunca tinha feito cinema e, diretor consagrado que é, vive agora pelas esquinas oferecendo-se para papéis entre 40 e 80 anos. Paulo José, o príncipe que sempre foi. Um pouco menos o sol do meio-dia, talvez. Porém sempre grande ator. Conheci Paulo no Teatro de Arena em 1960. Fazíamos, durante o verão escaldante, um show de carnaval intitulado “Carnaval para Principiantes” e ele apareceu como diretor. Boa turma, o diretor musical era o Paulinho da Viola. O espetáculo foi um retumbante fracasso mas nossa amizade floresceu como o correspondente fragor. Eu, Aderbal e Paulo, posso dizer, somos como irmãos. Também a arte é uma família e nos divertimos muito jogando o nosso estilo pessoal um sobre o outro durante exaustivas porém agradabilíssimas três semanas de filmagem. Creio que o filme emociona porque nossa amizade aparece na tela. Emociona também por desmistificar a velhice. Qualquer elogio da velhice é pura demagogia. Deveríamos ser jovens eternos de corpo como somos de alma. A platéia do filme, para surpresa minha, é predominantemente constituída por jovens. Eles gostam de ouvir os mais velhos sabendo que somos todos da mesma idade.

Enfim, fizemos sem querer, um filme de Natal.

Por Domingos de Oliveira

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