22 de dezembro de 2008

A bicicleta e o voto

Há muitos anos, escrevi uma carta ao Papai Noel pedindo uma bicicleta. E ganhei. Miro, que morava num casebre ao lado da minha casa, não recebeu. Escrevi outra carta ao Papai Noel, pedindo uma bicicleta para ele. Hoje, não pediria uma bicicleta, pediria uma boa escola.

Seria um presente para ele, para seus filhos e o Brasil inteiro.

Tantos anos depois, este é o pedido que faria ao Papai Noel dos adultos, caso ele existisse: que, no dia 25 de dezembro, nossa população acordasse educada, com um imenso conhecimento coletivo de geografia, matemática, filosofia, história; sabendo usar computadores, lendo e escrevendo bom português, falando idiomas estrangeiros, conversando sobre literatura, conhecendo arte, tendo dezenas de milhares de doutores e cientistas.

Acordasse com tanto conhecimento coletivo quanto temos de habilidade para o futebol.

Com a soma desse conhecimento, a população educada faria uma economia potente e moderna, por causa do alto conteúdo de inteligência em cada produto da ciência e da tecnologia.

A riqueza seria mais bem distribuída entre as pessoas e regiões, as cidades seriam pacíficas; o meio ambiente, equilibrado.

Mas esse conhecimento não chega de repente, no dia de Natal. Nem é transportável no saco vermelho de um velhinho que carrega presentes.

Por isso, desejo 200 mil escolas bonitas, com espaço suficiente para todos os alunos. Todas com os equipamentos necessários, laboratórios, computadores, televisões, DVDs, antenas parabólicas, quadras esportivas, bibliotecas, teatros e cinemas. Sem isso, os prédios não seriam considerados escolas, e o conhecimento não seria criado ou espalhado. Desejo que nenhuma criança saia da escola antes de completar o ensino médio. E que sejam alfabetizados os 15 milhões de adultos que ainda não sabem ler.

O Brasil seria um celeiro de cientistas, escritores, filósofos, intelectuais, doutores, engenheiros, professores, como somos o celeiro dos melhores futebolistas do mundo.

Sobretudo, se tivesse a quem pedir, escreveria solicitando que o Brasil recebesse, de presente, dois milhões de professores, todos eles muito bem preparados, com muitos anos de estudos, dedicação, vontade de trabalhar, amor à profissão e aos alunos. Porque são eles que constroem o conhecimento.

Mas para isso é preciso que esses professores - bem preparados e dedicados - sejam também muito, muito bem remunerados, queridos e respeitados pela população.

Pode parecer que a idade me deixou ambicioso: em vez de uma bicicleta para o vizinho, peço um presente complicado para o Brasil todo.

Mas Papai Noel vem da Finlândia. Naquele país - eu tive a chance de ver - foi possível fazer a revolução educacional, garantir a qualidade de suas escolas, tratar bem os professores, aprimorar o cuidado com as crianças. Descobri que, na terra do Papai Noel, a educação construiu um país rico em cultura, ciência, tecnologia e economia. Por isso, sinto-me no direito de desejar o mesmo para meu país.

Mas sei que não é possível receber conhecimento coletivo - nem escolas com seus equipamentos e professores - do exterior. A revolução educacional só pode ser feita pelo próprio povo e por seus líderes.

Por isso, neste Natal, gostaria de pedir uma nova geração de líderes, como o melhor presente para o Brasil. Líderes que tenham o compromisso de transformar o país, educando nosso povo. Mas isso tampouco vai nos chegar sob a forma de presente. Não há presentes na política e na condução dos países.

Ainda menos vindos do exterior.

A cada povo cabe encontrar seu próprio caminho, definir que futuro deseja, decidir como usar seus recursos. E os líderes são eleitos pelo povo.

Portanto, desejo que cada brasileiro seja o Papai Noel do Brasil, elegendo os líderes de que o país precisa para fazer a revolução educacional que mudará o Brasil. Que, graças ao voto, não seja mais preciso que uma criança peça uma bicicleta para o vizinho pobre.

O presente que peço é que a lucidez e o patriotismo tomem conta do eleitorado.

Por CRISTOVAM BUARQUE, Senador (PT-DF).

Artigo publicado no jornal O Globo em 20/12/2008

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Em meio à orgia consumista que a muitos arrebata nesses dias, deixo aqui o artigo do Cristovam como mensagem natalina...

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