18 de setembro de 2008

O rei está morto

Estão ouvindo Coldplay em Wall Street: “I used to rule the world / Seas would rise when I gave the word / Now in the morning I sleep alone / Sweep the streets I used to own” (Eu costumava mandar no mundo / Os mares subiam ao meu comando / Agora, durmo sozinho / Varro as ruas que já foram minhas). A festa financeira acabou para os mestres do universo. Quando se troca pedaços de papel por outros pedaços de papel em vez de trocá-los por coisas reais, um dia alguém vai acordar e se dar conta de que os papéis não valem nada. E o Lehman Brothers, após 158 anos, virou pó da noite para o dia.

Estamos testemunhando mais do que a morte de uma firma tradicional. Estamos vendo a morte de uma cultura.

Durante anos, contadores, agências de rating e executivos de Wall Street decidiram enfeitar o pavão. Os reguladores, inspirados no distraído presidente Bush, também tiraram uma soneca. E o dinheiro e o ego também se tornaram o espírito da época, e danem-se as guerras distantes.

A maior queda diária da bolsa desde o 11 de setembro me lembrou que, quando os mercados reabriram no dia 17 de setembro de 2001, e o Dow Jones perdeu 684,81 pontos, alguns executivos atrasaram as datas de suas opções para obter um novo preço na queda pós-ataque, aumentando o potencial de ganhos. É isso que significa assassinato financeiro. Não há exemplo melhor de uma cultura em que o ganho privado superou o bem público, o serviço público e até mesmo a decência pública. E também em que o culto da individualidade oprimiu o bem comum.

É essa a cultura em que temos vivido. Mas ela acabou. Um novo começo americano é preciso.

Quando ensinei jornalismo em Princeton, há cerca de dois anos, fiquei fascinado pelas mentes brilhantes e curiosas de meus alunos. Mas quando perguntei a eles o que queriam fazer, a resposta avassaladora era: “Bem, acho que acabarei em i-banking”. Não porque amassem bancos de investimentos, ou pensassem que as suas mentes seriam melhor desenvolvidas em Wall Street, debruçadas sobre planilhas. Mas era o dinheiro e o fato de que todos estavam nessa.

Eles deveriam pensar duas vezes. Barack Obama levantou o problema em maio na Universidade de Wesleyan: cuidado com a “pobreza de ambição” numa cultura de “grandes casas com suítes”.

Afinal, eles estão ouvindo Coldplay em Wall Street: Now the old king is dead! / Long live the king! (Agora, o velho rei está morto / Vida longa ao rei!).

Sim, a morte do velho é igualmente o nascimento do novo. No meu fim está o meu começo. E é hora dos melhores e mais brilhantes assumirem a dianteira e redescobrir a esfera pública.

Autor: Roger Cohen, colunista do The New York Times.
Publicado no The New York Times em 17 de setembro de 2008.

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Quando os problemas do neoliberalismo apresentam-se incontornáveis, só resta apelar para... o Estado!!! "É hora de redescobrir a esfera pública"...