20 de julho de 2008

QUE SOLDADOS SÃO ESSES QUE FORMAMOS?

Difícil acrescentar algo de original aos debates sobre o trágico assassinato de um menino de 3 anos numa rua da Tijuca, bairro do Rio de Janeiro em que eu também resido. Estava ouvindo a rádio Bandnews quando Ricardo Boechat ordenou que o repórter franqueasse o microfone ao pai da criança assassinada pela polícia, no momento em que o mesmo tomava conhecimento da morte cerebral de seu filho. Naquele instante, a dor daquele indivíduo era a dor de todos nós e não contive as lágrimas comovido com aquela perda brutal.

Desde então a mídia explora o assunto à exaustão, obscurecendo por vezes até mesmo a reflexão tão necessária em momentos como esse, em que é preciso vencer o luto para continuar sobrevivendo. Talvez uma boa chave de leitura para este episódio esteja numa recente reportagem de Raphael Gomide, da Folha de S. Paulo, publicada em 18 de maio de 2008, no caderno Mais.

A matéria intitulada “PM por dentro” é capaz de explicar – sem jamais justificar, evidentemente – porque policiais militares do Rio de Janeiro fuzilaram um carro com uma mulher e duas crianças, supostamente apostando que combatiam ladrões em fuga pelo bairro. O repórter fez um trabalho minucioso de investigação sobre como se forma um policial nesta cidade. Inscreveu-se num processo de seleção ainda em julho de 2007, passou por todas as etapas e em janeiro de 2008 ingressou na escola de formação de soldados da PM, no bairro de Sulacap.

Gomide permaneceu na condição de recruta ao longo de algumas semanas e assim teve condições de observar detalhadamente como se “constrói” um integrante da PM antes de ir para as ruas portando uma arma. Na verdade o repórter revelou a grande farsa que é esse processo de formação, extremamente precário e que em nada prepara um indivíduo para o exercício de função tão nobre quanto esta.

Ou seja, naquelas páginas foi possível perceber que um policial não passa por nenhum tipo de formação ou treinamento que o qualifique adequadamente. Sua escola ... é a rua! Some-se a isso salários indigentes e um governador que instiga seus policiais a agir como verdadeiros cães de guerra, teremos então mais alguns elementos para compreender as raízes da tragédia em questão.

Vivemos numa sociedade em que os princípios neoliberais estão profundamente disseminados e daí advém a lógica de que cada um pague pelo que quiser ou puder ter. Assim privatizamos ao máximo a saúde, a educação e até mesmo... a segurança pública. Desta forma abandonamos a educação ao sabor dos interesses econômicos tipicamente capitalistas, donde não se espera outra coisa senão extrair lucros. E de que forma é possível lucrar educando e formando policiais? Sai mais barato deixá-los morrer à míngua, sob a mira de armas que jamais poderão usar, completamente despreparados, sobrevivendo na base do “matar ou morrer”. E então eles matam até mesmo crianças de 3 anos de idade...

Não existem soluções rápidas para sair do abismo em que mergulhamos. E nele estaremos condenados a perecer caso não sejamos capazes de reconhecer a importância da educação – seja de policiais, seja de quem for – como a principal ferramenta capaz de construir uma nova realidade. O valor do salário que hoje se paga a um policial ou a um professor serve bem para medir o valor de nossas vidas: é quase nada...

Por Denilson Botelho

17.07.2008 - WWW.FAZENDOMEDIA.COM

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