20 de julho de 2008

Como valorizar a educação sem salários atraentes?

Na edição de hoje, dia 20 de julho de 2008, a Folha de S. Paulo publicou mais um daqueles artigos de Antônio Ermírio de Moraes "falando" sobre a necessária valorização do ensino. O que acho interessante é malabarismo do digníssimo mega-empresário para desassociar qualidade de ensino e salário. É sempre o mesmo argumento: para que a educação melhore, não basta melhorar o salário.

O sujeito chega ao cinismo de afirmar que é do tempo em que professora e gerente do banco do brasil eram profissões promissoras, bom partido para casar. Será que não era por causa do salário também, doutor Ermírio?

Eu sempre leio esses artigos e me dá vontade de vomitar, tamanha a desfaçatez com que o autor exibe sempre o mesmo argumento escroto: precisamos melhorar a educação, mas não necessariamente com salários. Eis o bom e velho capitalismo que assegurou a gigantesca acumulação de capital de Antônio Ermírio de Moraes.

Leia e examine com os seus próprios olhos:

Merecido apoio aos professores

VOLTO AO ASSUNTO da educação. Chamaram-me a atenção os dados publicados pela Folha no dia 9 de junho, segundo os quais o corpo docente brasileiro está atraindo jovens de baixa qualificação: os bons alunos do ensino médio fogem do magistério, que, infelizmente, tornou-se uma profissão desprestigiada. Bem diferente foi o quadro da minha juventude, no qual a professora e o gerente do Banco do Brasil gozavam do mais alto prestígio nas comunidades em que atuavam. Eram carreiras disputadas, até para casamento...

Por curiosidade, busquei os detalhes das pesquisas citadas pela Folha, em especial a que analisa as medidas que vêm sendo tomadas pelos países que têm sucesso na educação. Neles encontrei surpresas e obviedades.

No campo das surpresas, verifiquei que, mesmo nas nações ricas, os adicionais de investimento em educação não produzem necessariamente bons resultados na aprendizagem. Isso é intrigante e, ao mesmo tempo, instrutivo. Só dinheiro não resolve o problema. Outra surpresa é que a redução do tamanho das classes tem um efeito desprezível sobre a melhoria do desempenho dos alunos.

No campo das obviedades, está a importância crucial da competência e da dedicação dos professores. Há ali uma frase impactante: "A qualidade da educação não pode ser melhor do que a qualidade dos professores" (Estudo da McKinsey, apresentado pela Fundação Lemann).
Aqui está a solução do quebra-cabeça da educação. Podem-se aumentar os recursos e diminuir as classes, mas nada vai acontecer de bom se o professor não for bem preparado, comprometido e estimulado. Daí a importância de revalorizarmos a carreira de professor.

Na Coréia do Sul, na Finlândia, em Cingapura e em Hong Kong -onde os alunos obtêm as melhores classificações nos testes aplicados-, os docentes vêm do topo da pirâmide em termos de preparação. Não é para menos.

Voltando às surpresas, a referida pesquisa mostrou que os países que se destacam em matéria de educação pagam bons salários aos professores -sem serem espetaculares. Isso significa que, além de uma remuneração condigna, o que atrai professores de qualidade é um bom ambiente de trabalho, a atualização contínua, o trabalho com diretores líderes e, sobretudo, o respeito à sua profissão.

Ou seja, o diagnóstico está feito. Precisamos da terapia. Os planos do MEC são meritórios. Oxalá eles se transformem em realidade para formar um clima de entusiasmar jovens bem formados a entrar no magistério.

ANTÔNIO ERMÍRIO DE MORAES escreve aos domingos nesta coluna.