23 de abril de 2008

PELA PEDAGOGIA DO ÓBVIO NO ENSINO DE JORNALISMO

Diante da cobertura do assassinato de Isabela Nardoni, quem leciona num curso de jornalismo como eu, fica se perguntando sobre quão árdua é a tarefa de formar novos jornalistas. Ainda que eu não seja jornalista e ministre apenas disciplinas da área de ciências humanas cursadas no início da graduação, usualmente freqüentamos na sala de aula os temas em pauta na grande mídia.

No início deste semestre letivo, tivemos uma aula inaugural na unidade Tijuca da Universidade Candido Mendes com o repórter da TV Globo, Eduardo Tchao. Iniciativas como essa fazem parte de um esforço louvável no sentido de aproximar os alunos da realidade do mercado de trabalho. Servem também para estimular uma reflexão sobre o que queremos e o que temos em termos de mídia por aí. Afinal, poucos, pouquíssimos conseguirão emprego numa grande emissora de TV – e Nadja Haddad, apresentadora da TV Bandeirantes é um exemplo disto, que saiu exatamente deste curso e foi minha aluna. Portanto a tarefa que se coloca a todos os demais é a de transformar esse mercado em algo diferente do que ele é hoje e não apenas adquirir uma formação que permita enquadrar-se no jornalismo que já temos nas grandes empresas.

Sobre a exposição feita por Tchao destaco aqui apenas dois pontos. O repórter - que diz ser algumas vezes temido pelo jornalismo investigativo que desenvolve - defendeu que o jornalista deve sempre buscar o furo, pois é isto que vai lhe dar a possibilidade de se diferenciar dos demais coleguinhas. De imediato me veio à lembrança o caso da Escola Base e tudo mais que ele representa nessa “ética do furo” apregoada por Tchao. Assim sendo, fiz questão de lembrar o referido caso e pedir a opinião do palestrante, que se posicionou argumentando que “o erro acontece, mas buscamos cada vez mais estar atentos e conscientes da nossa responsabilidade. Ainda mais em veículos como a TV, que possui uma repercussão avassaladora e quase que imediata”. E mais não disse...

Não muito tempo depois sobreveio o caso Isabela, cuja cobertura todos têm acompanhado pelos mais diferentes veículos, em especial a TV. Noutro dia mesmo, meu pai, embora sensibilizado com a tragédia, queixava-se comigo ao telefone de que não agüentava mais assistir ao noticiário sobre o caso, pois mesmo mudando de canal era só isso que se via. E o que se pode acrescentar a tudo isso que já foi veiculado? Nada além do óbvio! Perguntas que todos nós nos fazemos, mas que a grande imprensa parece desprezar solenemente, servindo-nos uma longa e enfadonha aula sobre como não se deve fazer jornalismo.

Por que a insistência em reproduzir uma única fonte – a polícia – tal como se fez equivocadamente no caso da Escola Base? Por que não se coloca em prática o bom e velho jornalismo, diversificando as fontes e cotejando-as com a investigação policial? O que o leitor ou espectador um pouco mais inteligente do que o Hommer Simpson – para o qual se faz o Jornal Nacional da Globo, por exemplo – quer saber é: por que Isabela foi assassinada? Ou quem teria interesse em assassiná-la? E que interesses seriam esses? Afinal, esse é o fato a ser investigado tanto pela polícia, quanto pela imprensa. A mídia esqueceu o assassinato de Isabela e resolveu julgar e condenar os seus supostos assassinos.

Ao contrário disso, o que temos assistido de forma inquietante é um julgamento prévio do casal Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá. A grande mídia já os condenou e discute apenas porque ambos teriam assassinado a menina, desvirtuando completamente a abordagem do fato. Independentemente do seu desfecho, a imprensa já promoveu o linchamento público e antecipado do casal, subvertendo até mesmo o Estado de Direito em que supostamente vivemos. É a cobertura midiática do caso que tem insuflado pessoas a se aglomerarem nas ruas para fazer justiça na base do “olho por olho, dente por dente”. E depois de insuflar as massas, ainda as transforma em personagem de suas reportagens.

Para embasar o linchamento público, lançam a tese de que a justiça é inoperante e as leis são frouxas até mesmo nos casos de crimes ditos hediondos. Ora, se as leis não servem, que se façam outras! É para isso que elegemos deputados federais e senadores, para a nobre função de elaborar ou reformular leis, e não para submergirem no mesquinho jogo das brigas políticas através de CPIs inócuas que paralisam o Congresso Nacional.

Não quero aqui discutir quem matou Isabela, embora esta seja uma questão relevante. Nem muito menos pretendo inocentar o pai da menina, por mais que me custe acreditar em tamanha barbárie. Quero sim invocar a prática do bom e velho jornalismo que conheci antes desse que se faz sob a batuta do Sr. Ali Kamel e seus pares. O fato a ser elucidado é o assassinato e não o julgamento prévio do pai e da madrasta desta menina.

A busca desenfreada pelo furo pode vender jornais e revistas (Veja dessa semana já sentenciou em sua capa: foram eles!), garantir audiência e gerar uma montanha de lucros e capital para essas empresas de comunicação. Resta saber o quanto esse sensacionalismo deseduca toda uma nação e cria um ideal de jornalismo que não nos cabe ensinar, mas sim combater e criticar – a exemplo do que sugeriu Guy Debord, em A sociedade do espetáculo. O conhecimento sobre os fatos e a realidade é fundamental para a construção da cidadania e um eficaz antídoto contra pré-julgamentos, linchamentos e a negação do Estado de Direito. Mas quem quer conhecer e se informar de fato sobre o que ocorreu? Certamente não são os veículos de comunicação que temos, mas sim os jornalistas que queremos... e precisamos formar.

(*) Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.

Publicado no Fazendo Media, em 23/04/2008.