8 de abril de 2008

Nas ondas do rádio

O histórico 7 de setembro não é apenas o dia em que o Brasil ficou livre – pelo menos em tese – de Portugal. A data é também um marco na história da comunicação do País: cem anos depois da independência do Brasil acontecia a primeira transmissão radiofônica: o discurso do presidente Epitácio Pessoa, que, acompanhado pelo rei e rainha da Bélgica, Alberto I e Isabel, abriu a Exposição do Centenário, no Rio de Janeiro. A fala do chefe de Estado foi transmitida para receptores instalados em Niterói, Petrópolis e São Paulo através de uma antena instalada no Corcovado. 86 anos depois, o rádio é homenageado na Sala Carlos Couto, em Niterói, com a exposição A Evolução do Rádio, que abre suas portas ao público hoje.

Anos antes de chegar ao Brasil, o rádio já tinha conquistado o mundo. A exposição mostra antigüidades do período de 1908 a 1959 como Standard Eletric – Galena (Itália, 1908), o Rádio Philco (1934), Rádio Catalina (1947), além de um gramofone (original de 1914), uma vitrola de corda (1919), discos de acetato 78 RPM de Noel Rosa e Orlando Silva (gravação original), além de réplicas de microfones da Rádio Nacional e das primeiras válvulas que fizeram o rádio. Esse acervo, que é uma verdadeira viagem ao início do século passado, foi cedido pelo colecionador Vitor Castro.


Quem é – Cartógrafo de 72 anos, Vitor Castro começou a colecionar rádios em 1998, depois de ir ao antiquário e encontrar um rádio de baquelite. Ele comprou o aparelho e o restaurou, surgindo daí a vontade de começar uma coleção. Atualmente, tem 150 rádios, incluindo um Emerson de 1934, um Catalina, 001-BR réplica Brasil de 1922, o RCA Vitor Peer Super 5, de 1932, e o Standard Electric Galena, de 1908, entre outros.

Serviço:

Sala Carlos Couto: Rua XV de Novembro, 35, Centro, Niterói (ao lado do Teatro Municipal). Visitação: de 8 a 30 de abril, de terça a sexta, das 10 horas às 18 horas; sábado, domingo e feriado, das 15 horas às 18 horas. Entrada franca. Informações: 2620-1624.

Para historiador, veículo é generoso

lCom o surgimento de novas tecnologias, é muito freqüente encontrar pessoas que trocam a interação e a instantaneidade do rádio por outros veículos de comunicação, como a televisão e a internet. Para esclarecer as características deste famoso aparelho, o professor e historiador Denílson Botelho conversou com a equipe de O FLUMINENSE.

O FLUMINENSE – Qual a diferença da rádio hoje em comparação com o seu surgimento?

Denílson Botelho – O rádio hoje vive uma crise de audiência, especialmente nos grandes centros urbanos. Com o advento de novas tecnologias, o rádio passou a ter que disputar a atenção do público em geral com outras formas que hoje existem para ter acesso à música, informação e entretenimento. Portanto, esse cenário de concorrência com novas mídias é a principal diferença.

O FLU – Como a rádio influencia a formação cultural das pessoas?

Botelho – Da mesma forma que os demais meios de comunicação, sendo que o rádio muita vezes interage de forma mais intensa com os ouvintes, permitindo a cada um deles participar ativamente de um debate, por exemplo. O rádio hoje usufrui dessa possibilidade de colocar no ar a qualquer momento um indivíduo que pode interagir com o noticiário, com a programação em geral.

O FLU – A vida das pessoas mudou, de fato, nos primórdios do rádio? Porque, quando o rádio apareceu, provavelmente as "pessoas comuns" não tinham acesso...

Botelho – As mudanças ocorreram progressivamente. Mas toda novidade desperta interesse e curiosidade. E a difusão do rádio carecia apenas de um receptor, um aparelho relativamente simples, ainda que no início fosse algo caro. Na medida em que a radiodifusão se expandiu, a produção em larga escala tornou o receptor mais acessível construindo pouco a pouco a noção de estar permanentemente atualizado através desse veículo.

O FLU – A televisão "roubou o espaço" do rádio? Como se deu a relação entre rádio e TV? Houve alguma "mudança de paradigma"?

Botelho – A TV se apropriou sim de parte da audiência do rádio, mas durante muito tempo – quem sabe até hoje – o rádio manteve um público fiel. A TV surgiu mais "exigente", pedindo a atenção não dos ouvidos, mas também dos olhos. Era preciso ficar ali parado diante do aparelho. O rádio sempre foi mais generoso, permitindo que o ouvinte muitas vezes concilie a realização de outras tarefas sem precisar desligá-lo. Sem dúvida há uma mudança de paradigma, pois a TV embotou a imaginação do espectador enquanto o rádio sempre deixou essa tarefa (imaginar) a cargo do seu público.

O FLU – Por fim, como você avalia o cenário do rádio atualmente? Ele está fadado ao desaparecimento?

Botelho – Penso que o rádio vive uma era de incertezas e indefinições diante da crescente consolidação das novas tecnologias. Contudo, ele continua sendo o meio de comunicação de alcance mais abrangente que temos ainda hoje. Mas o rádio precisa se reinventar. De qualquer modo, é indiscutível o imenso público do qual o rádio ainda dispõe, pois para ouvi-lo não custa quase nada. Até os aparelhos celulares já assimilaram essa tecnologia. Quem pensa que o rádio tende a desaparecer deve fazer parte do mesmo grupo que já decretou a sua morte décadas atrás, assim como já se fez em relação ao livro, à própria TV e à mídia impressa. Entretanto, o futuro me parece cada vez mais plural, e o rádio faz parte dele.

Por Isabela Calil


O Fluminense, 8 de abril de 2008.

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