25 de fevereiro de 2008

Roberto Carlos e a censura no Brasil


Roberto Carlos, um delírio

Há hoje no Brasil um fato intrigante e inusitado: um livro que anarquiza
Deus está liberado e à disposição do público nas livrarias, enquanto um
outro livro, que analisa de forma elogiosa a carreira de Roberto Carlos,
vai para a fogueira – como no tempo da inquisição. Estou falando de "Deus,
um Delírio", do biólogo Richard Dawkins, e de "Roberto Carlos em
detalhes", do historiador Paulo Cesar de Araújo. Lançados no ano passado,
ambos provocaram polêmicas, tornaram-se best-sellers, aparecendo entre os
dez títulos de não-ficção mais vendidos em 2007.

A biografia do rei foi abatida em pleno vôo e, além de proibida, onze mil
exemplares foram entregues ao cantor para serem destruídos. O intrigante é
que se há alguém que poderia ter reclamado que a sua honra, boa fama e
respeitabilidade foram atacadas em um livro, este alguém é Deus, não
Roberto Carlos.

Como o próprio título indica, "Deus, um Delírio" é um livro contra o
Senhor. Justificando com passagens da própria Bíblia, Richard Dawkins
descreve Deus como um personagem negativo. "Ciumento, e com orgulho;
controlador, mesquinho, injusto e intransigente; genocida étnico e
vingativo, sedento de sangue; perseguidor misógino, homofóbico, racista,
infanticida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista,
malévolo". Desde Nietzsche Deus não era atacado com tanta veemência e
impiedade.

Com tudo isso, entretanto, nem o Vaticano, nem o Papa, nem os demais
líderes religiosos – judaicos ou cristãos - pediram a proibição do livro.
Parece que há hoje, na sociedade ocidental, a compreensão de que Deus,
existindo ou não, é uma figura pública, sujeita a críticas e
questionamentos e cuja história pertence à coletividade.

Este mesmo entendimento levou Paulo Cesar de Araújo a pesquisar a vida, a
obra e a época do artista Roberto Carlos. O resultado foi um
extraordinário livro sobre o Brasil contemporâneo, observado pela
trajetória de um dos seus maiores ídolos. O curioso é que, ao contrário do
livro sobre Deus, neste o autor revela admiração e carinho pelo
biografado. Eu próprio decidi comprar vários CDs do cantor após a leitura
do livro, que me convenceu da sua importância para a história da MPB.

Entretanto, mais realista do que o próprio Deus, o rei não tolerou a
existência do livro e, sem ao menos ter lido, pediu a sua proibição. O
pior é que os métodos usados não foram os mais recomendáveis. Recentemente
a imprensa denunciou que os advogados do cantor adulteraram trechos do
livro no processo enviado à Justiça. Uma prática antiética e anticristã,
principalmente para um artista que, em certa fase de sua carreira, ficou
conhecido por louvar Deus, Jesus Cristo e Nossa Senhora.

O cantor alega que pediu a proibição porque o livro não foi
autorizado e não preservou a sua intimidade. A rigor, se ninguém pudesse contar a
história do outro, a Bíblia jamais teria sido possível. Mateus, Marcos,
Lucas e João, por exemplo, não teriam escritos os Evangelhos, pois não
consta que Cristo tenha lhes dado autorização. A história de Jesus Cristo
é talvez a maior biografia não autorizada até hoje já escrita. E os
evangelistas não evitaram temas espinhosos, como a acusação de que Jesus
era "comilão e beberrão".

Roberto Carlos é um ídolo popular cuja privacidade é mais restrita do que
a do cidadão comum. Mas parece que entre as passagens do livro que o
incomodaram está o relato de um encontro amoroso que ele teve com a
cantora Maysa nos anos 60 – caso já fartamente conhecido e que também é
citado na recente biografia da artista, "Só numa multidão de amores", obra
autorizada por sua família. Como bem disse Carlos Heitor Cony, a
prevalecer o critério da absoluta privacidade reclamada por Roberto Carlos
"se houver um descendente de Antônio Conselheiro ainda em atividade, ele
poderá pedir que se recolham todos os exemplares de Os Sertões".

Será o nosso rei mais intocável do que Deus? Terá ele mais mistérios a
serem preservados? Em outros tempos, o livro "Deus, um Delírio" teria
também como destino a fogueira. Felizmente, a história avançou e o direito
à liberdade de expressão prevalece nos países democráticos. Pena que o
cidadão Roberto Carlos pense como alguém da época medieval e tenha
manchado a imagem do artista que foi tão brilhantemente retratado na
biografia proibida. A Roberto Carlos faltou grandeza para compreender a
sua própria grandeza. Que o bom Deus o perdoe e o ilumine.

Carlos Sávio Teixeira é cientista político.
Publicado no Jornal do Brasil em 24/2/2008.

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