11 de outubro de 2007

Indignação

No dia 1º de outubro o apresentador de TV Luciano Huck publicou um furioso artigo,na Folha de S. Paulo, indignado com o risco que correu ao ser assaltado e perder seu Rolex no trânsito de São Paulo. O artigo é uma pérola, pois mostra muito bem como a elite brasileira, cínica, parece viver noutro mundo que não esse.

Em resposta ao seu artigo, tivemos dois excelentes textos que muito tem a dizer sobre o assunto: um do Ferrez, publicado na mesma Folha, e outro da Luciana Chagas, publicado no www.fazendomedia.com

Para compartilhar com os leitores desse blog, seguem abaixo os 3 textos:

Pensamentos quase póstumos

LUCIANO HUCK

LUCIANO HUCK foi assassinado. Manchete do "Jornal Nacional" de ontem. E eu, algumas páginas à frente neste diário, provavelmente no caderno policial. E, quem sabe, uma homenagem póstuma no caderno de cultura.

Não veria meu segundo filho. Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio.

Por quê? Por causa de um relógio.

Como brasileiro, tenho até pena dos dois pobres coitados montados naquela moto com um par de capacetes velhos e um 38 bem carregado.

Provavelmente não tiveram infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia. O lugar deles é na cadeia.

Agora, como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa.

Adoro São Paulo. É a minha cidade. Nasci aqui. As minhas raízes estão aqui. Defendo esta cidade. Mas a situação está ficando indefensável.

Passei um dia na cidade nesta semana -moro no Rio por motivos profissionais- e três assaltos passaram por mim. Meu irmão, uma funcionária e eu. Foi-se um relógio que acabara de ganhar da minha esposa em comemoração ao meu aniversário. Todos nos Jardins, com assaltantes armados, de motos e revólveres.

Onde está a polícia? Onde está a "Elite da Tropa"? Quem sabe até a "Tropa de Elite"! Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade. Tenho certeza de que esse tipo de assalto ao transeunte, ao motorista, não leva mais do que 30 dias para ser extinto. Dois ladrões a bordo de uma moto, com uma coleção de relógios e pertences alheios na mochila e um par de armas de fogo não se teletransportam da rua Renato Paes de Barros para o infinito.

Passo o dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes e como tentar fazer este país mais bacana. TV diverte e a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão. Meu prazer passa pelo bem-estar coletivo, não tenho dúvidas disso.
Confesso que já andei de carro blindado, mas aboli. Por filosofia. Concluí que não era isso que queria para a minha cidade. Não queria assumir que estávamos vivendo em Bogotá. Errei na mosca. Bogotá melhorou muito. E nós? Bem, nós estamos chafurdados na violência urbana e não vejo perspectiva de sairmos do atoleiro.

Escrevo este texto não para colocar a revolta de alguém que perdeu o rolex, mas a indignação de alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo e concluir -com um 38 na testa- que o país está em diversas frentes caminhando nessa direção, mas, de outro lado, continua mergulhado em problemas quase "infantis" para uma sociedade moderna e justa.

De um lado, a pujança do Brasil. Mas, do outro, crianças sendo assassinadas a golpes de estilete na periferia, assaltos a mão armada sendo executados em série nos bairros ricos, corruptos notórios e comprovados mantendo-se no governo. Nem Bogotá é mais aqui.

Onde estão os projetos? Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia? Quem compra as centenas de relógios roubados? Onde vende? Não acredito que a polícia não saiba. Finge não saber.

Alguém consegue explicar um assassino condenado que passa final de semana em casa!? Qual é a lógica disso? Ou um par de "extraterrestres" fortemente armado desfilando pelos bairros nobres de São Paulo?

Estou à procura de um salvador da pátria. Pensei que poderia ser o Mano Brown, mas, no "Roda Vida" da última segunda-feira, descobri que ele não é nem quer ser o tal. Pensei no comandante Nascimento, mas descobri que, na verdade, "Tropa de Elite" é uma obra de ficção e que aquele na tela é o Wagner Moura, o Olavo da novela. Pensei no presidente, mas não sei no que ele está pensando.

Enfim, pensei, pensei, pensei. Enquanto isso, João Dória Jr. grita: "Cansei". O Lobão canta: "Peidei".

Pensando, cansado ou peidando, hoje posso dizer que sou parte das estatísticas da violência em São Paulo. E, se você ainda não tem um assalto para chamar de seu, não se preocupe: a sua hora vai chegar.

Desculpem o desabafo, mas, hoje amanheci um cidadão envergonhado de ser paulistano, um brasileiro humilhado por um calibre 38 e um homem que correu o risco de não ver os seus filhos crescerem por causa de um relógio.
Isso não está certo.

LUCIANO HUCK, 36, apresentador de TV, comanda o programa "Caldeirão do Huck", na TV Globo. É diretor-presidente do Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias.

Folha de S. Paulo, 1 de outubro de 2007.
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Pensamentos de um "correria"

FERRÉZ

ELE ME olha, cumprimenta rápido e vai pra padaria. Acordou cedo, tratou de acordar o amigo que vai ser seu garupa e foi tomar café. A mãe já está na padaria também, pedindo dinheiro pra alguém pra tomar mais uma dose de cachaça. Ele finge não vê-la, toma seu café de um gole só e sai pra missão, que é como todos chamam fazer um assalto.

Se voltar com algo, seu filho, seus irmãos, sua mãe, sua tia, seu padrasto, todos vão gastar o dinheiro com ele, sem exigir de onde veio, sem nota fiscal, sem gerar impostos.

Quando o filho chora de fome, moral não vai ajudar. A selva de pedra criou suas leis, vidro escuro pra não ver dentro do carro, cada qual com sua vida, cada qual com seus problemas, sem tempo pra sentimentalismo. O menino no farol não consegue pedir dinheiro, o vidro escuro não deixa mostrar nada.

O motoboy tenta se afastar, desconfia, pois ele está com outro na garupa, lembra das 36 prestações que faltam pra quitar a moto, mas tem que arriscar e acelera, só tem 20 minutos pra entregar uma correspondência do outro lado da cidade, se atrasar a entrega, perde o serviço, se morrer no caminho, amanhã tem outro na vaga.

Quando passa pelos dois na moto, percebe que é da sua quebrada, dá um toque no acelerador e sai da reta, sabe que os caras estão pra fazer uma fita.

Enquanto isso, muitos em seus carros ouvem suas músicas, falam em seus celulares e pensam que estão vivos e num país legal.

Ele anda devagar entre os carros, o garupa está atento, se a missão falhar, não terá homenagem póstuma, deixará uma família destroçada, porque a sua já é, e não terá uma multidão triste por sua morte. Será apenas mais um coitado com capacete velho e um 38 enferrujado jogado no chão, atrapalhando o trânsito.

Teve infância, isso teve, tudo bem que sem nada demais, mas sua mãe o levava ao circo todos os anos, só parou depois que seu novo marido a proibiu de sair de casa. Ela começou a beber a mesma bebida que os programas de TV mostram nos seus comerciais, só que, neles, ninguém sofre por beber.

Teve educação, a mesma que todos da sua comunidade tiveram, quase nada que sirva pro século 21. A professora passava um monte de coisa na lousa -mas, pra que estudar se, pela nova lei do governo, todo mundo é aprovado?

Ainda menino, quando assistia às propagandas, entendia que ou você tem ou você não é nada, sabia que era melhor viver pouco como alguém do que morrer velho como ninguém.
Leu em algum lugar que São Paulo está ficando indefensável, mas não sabia o que queriam dizer, defesa de quem? Parece assunto de guerra. Não acreditava em heróis, isso não!

Nunca gostou do super-homem nem de nenhum desses caras americanos, preferia respeitar os malandros mais velhos que moravam no seu bairro, o exemplo é aquele ali e pronto.

Tomava tapa na cara do seu padrasto, tomava tapa na cara dos policiais, mas nunca deu tapa na cara de nenhuma das suas vítimas. Ou matava logo ou saía fora.
Era da seguinte opinião: nunca iria num programa de auditório se humilhar perante milhões de brasileiros, se equilibrando numa tábua pra ganhar o suficiente pra cobrir as dívidas, isso nunca faria, um homem de verdade não pode ser medido por isso.

Ele ganhou logo cedo um kit pobreza, mas sempre pensou que, apesar de morar perto do lixo, não fazia parte dele, não era lixo.

A hora estava se aproximando, tinha um braço ali vacilando. Se perguntava como alguém pode usar no braço algo que dá pra comprar várias casas na sua quebrada. Tantas pessoas que conheceu que trabalharam a vida inteira sendo babá de meninos mimados, fazendo a comida deles, cuidando da segurança e limpeza deles e, no final, ficaram velhas, morreram e nunca puderam fazer o mesmo por seus filhos!

Estava decidido, iria vender o relógio e ficaria de boa talvez por alguns meses. O cara pra quem venderia poderia usar o relógio e se sentir como o apresentador feliz que sempre está cercado de mulheres seminuas em seu programa.

Se o assalto não desse certo, talvez cadeira de rodas, prisão ou caixão, não teria como recorrer ao seguro nem teria segunda chance. O correria decidiu agir. Passou, parou, intimou, levou.

No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio.
Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes.


REGINALDO FERREIRA DA SILVA , 31, o Ferréz, escritor e rapper, é autor de "Capão Pecado", romance sobre o cotidiano violento do bairro do Capão Redondo, na periferia de São Paulo, onde ele vive, e de "Ninguém é Inocente em São Paulo", entre outras obras.

Folha de S. Paulo, 8 de outubro de 2007.
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LUCIANO HUCK NO PAÍS DO ROLEX ROUBADO E DO COELHINHO IMORTAL
Luciana Chagas (*)

Luciano Huck não se deu conta do infeliz artigo que publicou na Folha de São Paulo, de 01/10/2007 – é lamentável a Folha publicar um artigo tão medíocre -, após ser assaltado no bairro dos Jardins, em São Paulo, no dia anterior. Levaram apenas o relógio. O apresentador se viu no direito de redigir um artigo que parecia mais uma novela mexicana, tamanha a dramaticidade contida naquelas palavras. “Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio”, afirmou Luciano. Será que Huck vive no mesmo mundo que nós? Será que ele assiste aos noticiários de TV e lê os jornais diariamente? Chega a ser ofensivo com aqueles que já perderam muito mais do que um relógio.

É inconcebível que num país como o Brasil, em que tantos crimes acontecem, desde roubos de relógios e carteiras até assaltos a residências seguidos de morte, seja necessário que uma celebridade venha a público com um discurso tão raso pedir “socorro” por causa de um rolex que ganhou de aniversário da esposa, a também apresentadora de TV, Angélica.

Enquanto isso morrem inocentes no meio da violência do tráfico de drogas que toma conta de algumas cidades do país, morrem também outros inocentes em hospitais sem nenhuma infra-estrutura. O que será que se passa na cabeça do Luciano Huck diante de tais notícias. Será que o apresentador sente a mesma indignação que tomou conta dele ao ser assaltado? Tantas desgraças acontecendo no mundo, tantas vítimas sofrendo diariamente com falta de condições básicas de sobrevivência, como saúde, alimentação e moradia. Qual o motivo do espetáculo? Apenas um relógio?

Vivemos num país onde o cenário é triste. São mendigos espalhados pelas cidades. São crianças descalças que rondam pelas ruas pedindo esmola e outras nos sinais de trânsito fazendo malabarismo para sobreviver. Sem falar dos que vivem em condições sub-humanas no interior do país.

Mas o apresentador deve realmente viver no mundo mágico da televisão, aquele que aparece nos comerciais de margarina. Na televisão tudo é montado e remontado. Grava ali e edita aqui. O programa semanal Caldeirão do Huck deve ser a contribuição de Luciano à sociedade. Através dos quadros do programa, o apresentador oferece dinheiro a pessoas – que em sua maioria passam por dificuldades financeiras – que precisam fazer malabarismos, como os meninos de rua, para ganhar um trocado. Sabe-se que Luciano não faz isso somente para ajudar as pessoas que se encontram em situação de precariedade. Faz isso em busca de audiência e para aumentar sua conta bancária.

Caldeirão do Huck tem média de audiência de 13 pontos contra 7 e 8 pontos das emissoras concorrentes. O programa faz parte do leque de programação da maior emissora do país, que está preocupada exclusivamente em multiplicar sua fortuna. E Luciano faz parte desse show.

O ciclo da vida - nascer, crescer e morrer – faz parte da realidade do ser humano, mas não da família Huck. Entre eles essa realidade tem sido ocultada. O animalzinho de estimação, um coelho, de Joaquim, filho de Luciano e Angélica, já morreu duas ou três vezes. Como assim? O coelho falece e Angélica coloca um outro “igualzinho” no lugar, para que seu filho não fique triste. São as frustrações que a vida traz para todos, seja rico ou pobre. Mas o casal Huck parece que tem levado a mágica da televisão para dentro de casa. Até quando Joaquim será protegido?

Nesse mesmo artigo da Folha, Luciano escreveu que seriam necessários apenas trinta dias para o Capitão Nascimento – personagem do filme Tropa de Elite – exterminar esse tipo de assalto a trausentes. Não é o Capitão Nascimento, nem nenhum outro “salvador da pátria”, que vai resolver o problema da violência. Nem a mágica inerente ao mundo televisivo. O que a sociedade brasileira precisa é de educação e justiça social.

Enquanto houver celebridades acumulando cifras e outros sobrevivendo com trocados, haverá violência. A desigualdade social é o mais grave problema que acomete a sociedade e não deixa de ser também uma forma de violência. Enquanto Joaquim está em casa sem saber que o seu coelhinho morreu – afinal, a morte faz parte da vida –, existe gente comendo o pão que o diabo amassou porque não teve oportunidades.

Luciano Huck pede que alguém o salve dessa barbárie. E quem nos salva da lógica perversa de Luciano Huck?

(*) Luciana Chagas é jornalista.

Fazendo Media (www.fazendomedia.com), 10 de outubro de 2007.