2 de outubro de 2007

E o professor, como fica o professor?

O investimento no professor

BIA CARDOSO

Tempo, esse ingrediente tão escasso na contemporaneidade, talvez seja um dos elementos mais importantes na luta pela qualidade da educação. O aluno precisa de tempo na escola. O ato de aprender implica necessariamente tempo. As pesquisas e o exemplo de outros países já deram provas de que, quanto mais horas na escola (ao longo do dia ou dos anos), mais se aprende. No entanto, para que seja de fato produtivo, esse tempo depende da qualificação do profissional que lidera o processo de aprendizagem ao longo da jornada escolar.

Um dos entraves para a melhoria dos resultados de aprendizagem é a falta de tempo para estudar, planejar e reunir-se.
Muitas vezes há empenho por parte dos gestores municipais (equipes técnicas e secretários de educação) para estruturar programas de formação continuada com o intuito de enfrentar os índices preocupantes que apresentam. Aparentemente, vontade política e disposição para enfrentar já seriam o suficiente. Um gestor comprometido, teoricamente, colocaria o sistema a favor de uma reestruturação da rede que lidera. Infelizmente, não é bem assim. A determinação é sim um elemento central, mas esbarra em aspectos estruturais entre os quais a disponibilidade de tempo por parte do professor para engajar-se em projetos de formação permanente. Suas condições de trabalho são tão precárias que não lhe resta senão assumir várias jornadas. Ao longo da História foi se estabelecendo um pacto silencioso: já que o profissional ganha pouco, não se exige dele dedicação.

Nessa lógica, as horas destinadas à preparação da ação, supostamente remuneradas, uma vez que constam no contrato de trabalho, foram incorporadas ao salário. Há conivência e, em geral, admite-se que não se cumpra essa parte do contrato como prêmio de consolação pela baixa remuneração. Hoje, tal prática está tão arraigada que se considera uma conquista corporativa, cujo enfrentamento pode derrubar até secretário da Educação.

Ultimamente, surgiram várias propostas para escolas de tempo integral. Serão bem-vindas, desde que não se transformem em ilhas de excelência incrustadas nos sistemas e considerem também que o aluno precisa de mais tempo, mas com um professor preparado para transformar não só essas horas a mais, mas toda a permanência do aluno na escola em melhores situações de aprendizagem.

Voltamos ao ponto inicial: para um ensino de melhor qualidade é preciso um professor qualificado, o que demanda tempo para estudar, atualizar-se, discutir e planejar e condições adequadas, como ocorre em outras áreas. A tarefa do professor não é menos difícil e importante que a do médico. Ele precisa de insumos e estar permanentemente "alimentado" para ser capaz de identificar os percursos e as estratégias de aprendizagem de cada aluno, de forma a poder ajudá-lo a avançar.

Como avaliar e cobrar resultados concretos, se ao profissional faltam condições adequadas para o seu desempenho?
Felizmente, a conversa na área de educação vem sendo revesti da de maior precisão. Fala-se em índices, metas e indicadores. É preciso atentar também para o tempo do professor, ampliar sua carga horária remunerada, a fim de que possa atender às demandas de aprendizagem dos alunos e, concomitantemente, participar de programas de capacitação e, até mesmo, instaurar a residência pedagógica - um período de formação especializada na escola, ensinando alunos, refletindo sobre sua prática, orientado por educadores mais experientes, constituindo uma cultura de trabalho em grupo. Criar condição para que o professor receba formação permanente, em contexto de trabalho. Mas, enquanto o professor continuar correndo de uma escola (muitas vezes, de um município), para assumir seu posto em outra, a residência pedagógica será mera declaração de intenções, assim como o discurso politicamente correto de que a educação é a chave de transformação de um país.

O convívio na escola e com gestores públicos comprova que são enormes os entraves legais para transformação do cenário. Proporcionalmente é maior o numero de equipes técnicas com vontade de acertar, porém, ainda são reféns de estruturas políticas arcaicas e práticas fisiologistas e corporativistas extremamente arraigadas.

A garantia de condições para o professor pode produzir resultados mais rápidos, uma vez que a criação de escolas de tempo integral terá que ocorrer aos poucos, passo a passo, em razão das restrições físicas e econômicas, para atender a todas as crianças. É preciso, primeiro, assegurar tempo e condições de trabalho ao professor. A permanência de todos os alunos ao menos por 6 horas na escola implica dobrar o quadro de profissionais e o espaço físico (número de escolas e salas de aula), o que pode afetar a qualidade do serviço oferecido. Acrescentar 4 horas semanais (reais) à carga horária do professor talvez contribua mais para a melhoria da práxis pedagógica, onerando menos os orçamentos. Só o 'fato de os professores poderem se reunir para adquirir e aprofundar conhecimentos, reorientar seu trabalho e pesquisar já repercute positivamente na aprendizagem.

O prefeito que de fato quiser fazer a diferença no campo da educação e criar condições de desenvolvimento local ao seu município precisa atuar para dissolver impedimentos jurídicos e ( ',- .ar a questão de um plano de carreira (cargos e salários). A existência de poucas escolas de tempo integral pode significar incrustar um novo foco de desigualdade e excelência para poucos.
Aqui a provocação: que tal pensar em mais tempo para o professor como elemento transformador do cenário?

BIA CARDOSO é professora-doutora pela Faculdade de Educação da USP e coordenadora executiva do Cedac (Centro de Educação e Documentação Para a Ação Comunitária).

O Globo 29/09/2007