2 de agosto de 2007

Uma revista chamada Floreal


Depois de muito pelejar, consegui publicar na revista Itinerários, da UNESP - Universidade Estadual Paulista, um artigo sobre uma revista criada e dirigida por Lima Barreto. Chamava-se Floreal. No início do século XX, era um tipo de mídia independente, sem o rabo preso, semelhante ao FAZENDO MEDIA do qual participo.

Transcrevo abaixo um pequeno trecho inicial do artigo, que compartilho com os leitores desse blog:

Sábado, 25 de outubro de 1907. Chegara enfim o grande dia. Não, não é que um grande acontecimento histórico fosse ocorrer naquela data. O último sábado daquele outubro foi certamente um dia importante apenas no âmbito da trajetória de uma vida: a do editor e diretor da mais nova revista que chegava às bancas nesta data. Num formato simples e pequeno, 15 x 22 cm, Floreal aparecia para disputar com outras revistas a preferência e o gosto dos leitores.

Vale ressaltar que se tratava de uma disputa árdua. Na capa pequena só chamava a atenção do eventual leitor o nome da revista, do diretor e o preço. Difícil devia ser fixar os olhos em tão simples publicação em meio a tantas outras revistas e jornais, cujas capas ainda por cima eram ilustradas. Mais tarde, o próprio distribuidor, fazendo um balanço das vendas do primeiro número, diagnosticara: “a capa matou muito; é bom que os senhores ponham uma vista: a alameda do Jardim Botânico, a Itapuca ...” (FLOREAL, 1907b), disse Thomaz Labanca aos editores. Mas como ilustrar a capa da Floreal com uma bucólica paisagem? Labanca talvez não soubesse que o idealizador da revista ambicionava vendê-la única e exclusivamente pelo que ia impresso em suas páginas, desejava que o seu conteúdo falasse por si mesmo e fosse o suficiente para vender-se. O objetivo não era lançar um caça-níqueis em forma de revista ou muito menos seduzir o leitor através de uma atraente ilustração de capa, mas sim conquistá-lo pelo que ia nas 40 páginas recheadas de textos e mais textos.

Na redação da Floreal, instalada na rua Sete de Setembro 89, 1º andar, fizera-se mais do que uma revista nos dias que antecederam a publicação do primeiro número. Era a materialização de um sonho acalentado por um jovem de 26 anos: dirigir a sua própria revista e fazer dela um instrumento de intervenção na sociedade em que vivia. Floreal tinha como editor, diretor e mentor intelectual Lima Barreto. Mas um Lima Barreto que ainda não conseguira inscrever seu nome entre os literatos da época e que ainda não tinha um romance sequer publicado. Daí o artigo inicial de Floreal (1907a), uma espécie de editorial da publicação, apontar de imediato a direção a ser seguida pela revista: “É uma revista individualista, em que cada um poderá, pelas suas páginas, com a responsabilidade de sua assinatura, manifestar as suas preferências, comunicar as suas intuições, dizer os seus julgamentos, quaisquer que sejam”.